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Andrea Dip

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Conseguiremos derrubar Bolsonaro? Chile mostra que a revolução é feminista

Chilenas foram às ruas em 2019; protestos contra desigualdade resultaram em nova Constituição para o país, a ser escrita por número igual de mulheres e homens - Javier Torres/Getty Images
Chilenas foram às ruas em 2019; protestos contra desigualdade resultaram em nova Constituição para o país, a ser escrita por número igual de mulheres e homens Imagem: Javier Torres/Getty Images
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Andrea Dip

Andrea Dip é diretora na Agência Pública de Jornalismo Investigativo, apresentadora do podcast Pauta Pública e autora do livro "Em Nome de Quem? A Bancada Evangélica e Seu Projeto de Poder". É membro-fundadora da rede Unidas entre mulheres da América Latina, Caribe e Alemanha. Tem 12 prêmios de jornalismo.

Colunista de Universa

28/05/2021 04h00

A frase que aparece pintada em cartazes erguidos em manifestações pelo mundo todo afirmando que "A revolução será feminista ou não será", tem se mostrado uma realidade na América Latina. Basta olharmos para a descriminalização do aborto na Argentina no fim de 2020, uma luta histórica e incansável das mulheres que mobilizou um país inteiro e o mundo com sua "maré verde" ou, mais recentemente, para a conquista da nova Constituição no Chile. A alteração foi uma demanda dos protestos de 2019 e irá substituir o texto escrito durante a ditadura de Augusto Pinochet.

Em entrevista a Universa no último dia 22, a professora Elisa Loncon Antileo, uma das 17 indígenas eleitas para compor a Assembleia que vai escrever a nova Constituição, disse: "Grande parte da revolta social em 2019 foi mobilizada por mulheres. Esse foi um momento em que os setores sociais do Chile saíram às ruas por não suportar mais os níveis de abuso da elite política e do modelo econômico neoliberal, que também é evidentemente patriarcal". Prova dessa importância, foi a eleição de um pleito histórico no país, com mais mulheres do que homens e que, pela primeira vez, teve cotas para indígenas.

Ainda na entrevista, Elisa disse: "Quando emerge o movimento feminino na sociedade chilena, emerge também o pensamento da mulher mapuche, que vai além da condição de gênero, porque está articulado com a defesa da natureza".

Esta fala ajuda a explicar o motivo pelo qual o feminismo é capaz de produzir grandes revoluções: porque é, invariavelmente, atravessado por outras lutas, as reconhece e as absorve.

À Agência Pública, em março deste ano, a filósofa italiana Silvia Federici também disse ter esperança em um novo feminismo "dissidente, alternativo, popular como o que existe na América Latina" que, em sua percepção, se encontra com outros movimentos sociais como o antirracista, anticapitalista, indígena, campesino. É algo que ela chama de "um feminismo mais amplo, enfocado em combater a supremacia masculina, a dominação das mulheres pelos homens e também aberto a outras atividades e lutas que são fundamentais para uma transformação real da sociedade".

Mulheres celebram legalização do aborto na Argentina, em dezembro de 2020; cor verde simboliza luta feminista no país - Getty Images - Getty Images
Mulheres celebram legalização do aborto na Argentina, em dezembro de 2020; cor verde simboliza luta feminista no país
Imagem: Getty Images

No Brasil, vivemos um momento crítico em que precisamos não apenas lutar por mais direitos, mas para preservar os poucos que conquistamos e a própria democracia. A luta feminista tem sido contra o fundamentalismo religioso que unido a um governo de ultradireita ameaça (e já retira) direitos reprodutivos, direitos da população LGBTQIA+ (Lésbicas, gays, bissexuais, trans e travestis, queers, intersexuais, assexuais e demais existências de gêneros e sexualidades), legitima a violência de gênero.

Mas também se luta para que gestantes e puérperas (mães de recém-nascidos) tenham acesso à vacina contra covid-19 e parem de incrementar os números de mortalidade materna, contra a violência policial, o racismo o genocídio dos povos tradicionais, o negacionismo científico que já matou mais de 450 mil pessoas no último ano e contra o negacionismo climático.

Como dizem Silvia e Elisa, é a luta por terra, por trabalho, por direitos, pelo reconhecimento ao trabalho reprodutivo não remunerado, porque essas são todas questões que nos atravessam na carne.

No último dia 25, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) autorizou a quebra de sigilo e intimou cinco empresas de tecnologia a prestarem informações em ações que pedem a cassação da chapa Bolsonaro-Mourão na eleição de 2018, por conta da invasão hacker ao grupo de Facebook "Mulheres unidas contra Bolsonaro", que passou a se chamar "Mulheres com Bolsonaro". Na época, o presidente chegou a compartilhar a imagem do grupo com o nome alterado em seu perfil do Twitter.

É importante lembrar que os protestos contra Jair Bolsonaro (sem partido) que tomaram as ruas do país em 2018, iniciados nesses grupos, foram os maiores atos de resistência à sua eleição e os maiores atos já liderados por mulheres da história do Brasil.

Tenho ouvido que "As mulheres irão derrubar Bolsonaro", e os acontecimentos recentes têm apontado nessa direção. Que sejamos inspiradas pelas conquistas vizinhas e que os acordos, apertos de mãos e frentes de oposição ao atual governo levem isso em conta em 2022.

Que se entenda de uma vez por todas: "A revolução será feminista, ou não será".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL