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Mulheres Pós 2020

Debates transmitidos por Universa sobre o impacto da pandemia na vida das mulheres


Feminista italiana pede salário para quem cuida do lar: "Estamos exaustas"

A filósofa Silvia Federici, 79, é uma das convidadas do Mulheres Pós 2020, evento que terá transmissão de Universa - Zanone Fraissat -14.out.2019/Folhapress
A filósofa Silvia Federici, 79, é uma das convidadas do Mulheres Pós 2020, evento que terá transmissão de Universa Imagem: Zanone Fraissat -14.out.2019/Folhapress

Camila Brandalise

De Universa

20/04/2021 04h00

Prestes a atravessar uma rua de Buenos Aires durante uma viagem a trabalho no início de 2019, Silvia Federici, 79, filósofa italiana e uma das mais importantes feministas do mundo, viu uma frase pichada em um muro que lhe fisgou o olhar: "Eles chamam de amor. Nós chamamos de trabalho não pago". Ao lado, o desenho de uma mulher passando aspirador de pó.

A frase foi escrita por ela em 1975, no livro "Wages for Housework" (salário para o trabalho doméstico, em tradução livre), e reverbera até hoje. Segundo Federici, a mulher que cuida do lar e da família é quem sustenta a economia global — se há um homem trabalhando e crianças crescendo para se tornarem trabalhadores, diz, é porque há uma mulher tomando conta deles. Por esse trabalho, que não é amor nem parte da natureza feminina, as mulheres deveriam ser pagas.

Orgulhosa por ver suas ideias se espalhando, Federici se levanta da frente do computador durante a entrevista por chamada de vídeo a Universa, de seu apartamento em Nova York, para mostrar a foto do muro argentino, que imprimiu e guarda em uma estante de livros. "Fiquei muito feliz ao ver isso, mas ainda precisamos abrir o debate."

A filósofa é uma das participantes do evento Mulheres Pós 2020, que discutirá como a pandemia de covid-19 afeta o presente e poderá impactar o futuro na vida das mulheres. O evento, que será transmitido gratuitamente por Universa nos dias 27, 28 e 29 de abril, foi idealizado pelas jornalistas Ana Paula Padrão e Lia Rizzo e pelo publicitário Cristiano Dinize. Padrão conduzirá a programação que contará com mais de 20 debatedoras.

Para Federici, o debate sobre a situação das mulheres na pandemia é importante, já que, elas estão se dando conta do quanto são exploradas. Para ela, a mulher está no centro da crise sanitária atual.

A mulheres estão explodindo de exaustão. A covid não criou essa crise, isso já existia. Mas diria que, agora, 90% delas vão reconhecer que o que fazem em casa também é trabalho


UNIVERSA - A senhora fala sobre a necessidade de remunerar mulheres pelos cuidados com casa e família desde, pelo menos, 1975. Qual a diferença do debate naquela época e hoje?

SILVIA FEDERICI - Nos anos 1970, quando lançamos a campanha "Wages For Housework", a questão principal das mulheres era a autonomia. A reivindicação era para que pudéssemos sair de casa para trabalhar. Mas nós dizíamos: 'A gente já trabalha'. Era uma batalha tornar visível a atividade doméstica, que não é só cozinhar ou cuidar das crianças, mas produzir força de trabalho. Não é natural da mulher cuidar da casa, é um emprego como outro qualquer, como na indústria, mas não pago. Acho que a discussão avançou, mas a questão ainda é a mesma: como remunerar a mulher que cuida da casa? Não sei a resposta, pode ser com salário, com plano de saúde, com algum tipo de serviço. Mas temos que abrir essa discussão. Precisamos mobilizar governos e corporações para colocarem algum tipo de recurso nessa área.

O movimento feminista negligenciou esse tema ao focar mais a importância da mulher trabalhar fora de casa?

Muito. Entendo o porquê, era visto como liberação e muitas mulheres associavam isso com ganhar dinheiro.

É bom não depender do homem, mas não considero trabalhar fora emancipação. Quando saímos de casa para trabalhar, carregamos o problema com a gente. Temos nosso emprego e depois cuidamos da casa à noite, aos sábados. A verdade é que a mulher nunca para de trabalhar

A pandemia de covid contribuiu para a maneira como a mulher entende o trabalho doméstico? Haverá alguma mudança?

Diria que 90% das mulheres irão reconhecer que as atividades domésticas são trabalho — e até os homens. As mulheres estão explodindo de exaustão. Vejo que há dois grupos. Um que está trabalhando em casa, cuidando do lar, ajudando as crianças com os estudos, lidando com os traumas dos filhos que estão depressivos. O outro precisa sair porque está nos trabalhos essenciais, mas aí fica nesse pesadelo de ter que voltar, cuidar da casa e ainda com medo de ser infectada. As mulheres estão no centro da crise sanitária. Espero que esse momento seja um alerta para começarmos a mudança.

Acredita que é o momento da história em que as mulheres estão mais sobrecarregadas?

Sim. No passado, em outras sociedade, muito do trabalho reprodutivo, que significa gerar e cuidar de outras pessoas, da saúde, do emocional, da casa, era feito pela comunidade. O capitalismo criou o isolamento. Durante a pandemia, a situação se agravou em todos os lados.

Com escolas fechadas, as mães ficaram loucas. Além de todo o trabalho doméstico de sempre, elas agora não conseguem se organizar porque têm que lidar com as crianças em casa, com trabalhos escolares, com a tristeza dos seus filhos. Outro problema é a violência doméstica, já que ficar em isolamento ainda aumenta o risco de ser agredida. Enquanto isso, o homem apenas continua se dedicando a seu emprego

Qual a diferença do impacto desse problema entre brancas e negras?

Livro "O Patriarcado do Salário", de Silvia Federici - Divulgação - Divulgação
Livro "O Patriarcado do Salário", de Silvia Federici
Imagem: Divulgação

Todos os problemas que as brancas tiveram são muito mais severos com as negras, que sempre tiveram que trabalhar fora de casa porque o marido não tinha emprego, ou porque o salário deles é muito baixo. Além disso, muitas cuidam da casa de outra pessoa, então enfrentam o duplo trabalho doméstico, porque também precisam tomar conta da própria casa. Elas vivem com mais insegurança, precisam lidar com o racismo, a média de salário é mais baixa e têm uma expectativa de vida menor. Então é tudo que conversamos aqui, mas com menos dinheiro e mais problemas.

Muitas feministas brancas veem a casa como um lugar do qual querem sair. Mas, para negras, é o único lugar onde são reconhecidas como seres humanos e fora dali é que há o perigo


Em seu novo livro, "O Patriarcado do Salário" (ed. Boitempo), lançado em março, a senhora diz que o trabalho reprodutivo foi desprezado inclusive por movimentos de esquerda. Por que essas tarefas se tornaram invisíveis?

A esquerda e quem faz crítica ao capitalismo vê o trabalho como algo realizado nas indústrias, nos escritórios. O reprodutivo, ou seja, o responsável pela reprodução de pessoas, foi catalogado como sendo feminino e não produtivo. E não é visto como prioridade. Isso é um erro. As mulheres carregam o fardo pelo sistema todo sem serem pagas. Queremos quebrar isso, dissociar essa ideia de 'ah, você é mulher? Então limpe a casa, troque as fraldas, vá para a cozinha'. É fundamental para quem critica o capitalismo questionar o trabalho reprodutivo porque toda a estrutura capitalista foi fundada na desvalorização da mulher.

Qual a relação entre trabalho doméstico e violência doméstica?

De alguma maneira, o Estado, a classe capitalista, olha para o homem e o vê como aquele que tem direito sobre a mulher. É como se ele pudesse controlá-la. Quando ele entra em casa e diz: 'O jantar não está pronto, a casa está suja', ele está falando a voz do Estado. E por também ser explorado pelo chefe, mas não poder brigar com ele, desconta isso na mulher para recuperar seu poder. Nesse contexto, o sexo é mais uma função, mais um turno de trabalho para elas. A mulher não tem poder para dizer quando quer ou quando não quer ter relações. É como se, quando casasse, concordasse que vai ter sexo a hora que ele quiser.

Há 50 anos a senhora critica quem se refere às atividades domésticas e de cuidado com a família como amor. Por que é problemático fazer essa associação?


É uma manipulação para nos manter atadas à exploração, à relação com o homem que, em muitos casos, é de subordinação. Isso significa que não nos é permitido amar de verdade. O amor é destruído diariamente porque a família é formada a partir da desigualdade de gênero.

O seu livro de maior sucesso aqui é "Calibã e a Bruxa" (ed. Elefante), sobre como a opressão feminina começou junto com o capitalismo. Para ser feminista e contra opressão de gênero é preciso também ser contra o capitalismo?

Acho que há diferentes tipos de feminismos, por isso falamos no plural. Tem o pró-capitalismo, aquele que quer igualdade com homens mas sem mudança social. É o da Hillary Clinton, o da ONU (Organização das Nações Unidas). Mas não é o meu. Para mim, feminismo é um movimento de transformação social e luta contra todos os tipos de desigualdade, como racismo, etarismo. Não é para ficar igual aos homens porque eles também são explorados. A ideia é viver em um mundo em que colaboremos uns com os outros em vez de competir.


O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) disse que não empregaria uma mulher com o mesmo salário de homem e, entre as justificativas, apontou a gravidez. Como vê essa declaração?

Isso mostra como esse homem desvaloriza a vida. A mulher deveria ganhar mais por estar grávida. Imagina se a população feminina entrasse em greve e dissesse que não vai mais ter filhos? A humanidade e o capitalismo acabariam. O que ele diz é estúpido, não vê como um valor a mais ter um filho, pelo contrário, a mãe precisa ser punida. E o fato de ter um presidente que diz isso é vergonhoso para quem o apoia.