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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Autocentrados e impotentes: o perfil dos homens jovens brasileiros

bernardbodo/Getty Images/iStockphoto
Imagem: bernardbodo/Getty Images/iStockphoto
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Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

17/05/2022 04h00

Uma pesquisa por amostragem e com estimados 95% de intervalo de confiança encomendada pela revista GQ Brasil e realizada pelo Instituto Idea entre os dias 5 e 11 de abril, ouviu 663 pessoas, com mais de 18 anos e revelou dados preocupantes sobre os homens jovens brasileiros.

Embora cheguem a enaltecer o sucesso profissional das mulheres - muitos até aceitam que elas ganhem mais - e admitam que as mulheres são inteligentes (66%) ou até mais que eles próprios (33%) - só 27,7% aderem à ideia de que homens e mulheres devem ter direitos iguais na sociedade.

Ou seja, o feminismo ainda é difícil para os nossos "moços": o duplo padrão moral perdura no campo sexual: enquanto eles fazem algum sexo casual, assistem pornografia, trocam nudes, por vezes os enviam sem solicitação, também mantém pensamentos completamente ultrapassados: quase 51% dos homens jovens entre 18 e 24 anos apoiam a virgindade feminina antes do casamento, contrapondo a luta pela autonomia sexual das mulheres.

Embora à primeira vista esse resultado pareça 'chocante', quando se amplia o olhar sobre as juventudes no Brasil - sim, no plural, pois temos jovens com realidades diferentes - é possível compreender. A geração Z tem sido tratada pelos estudiosos como a mais fechada de todas, embora se comuniquem facilmente via tecnologia.

É a que compartilha tudo, mas a partir da vontade pessoal, do "eu como marca". Não suportam hierarquia, gostam de ser elogiados, "invejados" e a competitividade é, em primeiro lugar consigo mesmos, por isso as frustrações da vida tem uma dimensão pessoal muito grande.

Enquanto alguns poucos ganham milhões na sua juventude, com suas startups que deram certo ou contando na internet sobre as suas vidas, seus pensamentos, suas roupas, suas milagrosas fórmulas para ganhar dinheiro na internet, fazendo dancinha ou sendo uma fábrica de memes ambulante, boa parte do restante só sonha com isso.

Há um abismo enorme entre o que eles imaginam que a vida deveria ser e como ela verdadeiramente acontece, e quando se dão conta dessa lacuna, os dados sobre saúde mental revelam as consequências: 83% dos homens jovens se sentem estressados, 74% ansiosos e com sintomas graves de saúde mental, como depressão (34%) e pânico (26%), mas 24,5% dizem que não fazem e não fariam terapia.

Endividados (70%) e abaixo das suas expectativas profissionais (60%), são eles que engordam as estatísticas de violência e morte no Brasil. Segundo o IBGE, num período de 5 anos (2014-2019), o número de suicídios de jovens dobrou no país. Até o sexo está perdendo a importância - só metade deram notas 8, 9 ou 10, em comparação aos 68,9% do público em geral

Parte da juventude atual, essa que está conectada - pois há uma juventude invisível em nosso país que vive em condições de total abandono e da qual sabemos muito pouco - tem produzido tantos conceitos diferentes, que em breve haverá um manual diagnóstico só para ela: FOMO - FODA - Heteropessimismo - Burnout afetivo - os CIDs da juventude. E parece que quanto mais autocentrados, mais doentes serão.

Embora também atravessados por todas essas circunstâncias, no campo da sexualidade, são os jovens LGBTQIPA+ e as jovens feministas, que estão se destacado em manifestações na luta por direitos sociais. Se organizam e encontram pertencimento em forma de coletividade.

Já os grupos que discutem masculinidades, especialmente com a participação de homens jovens heterossexuais, ainda são poucos e com baixa adesão. Outro dia, um porta-voz da "juventude masculina desconstruída" que critica o machismo e a "masculinidade tóxica" - com milhares de seguidores no Instagram - a maioria mulheres - foi pego pela segunda vez plagiando conceitos teóricos sobre desigualdade de gênero de uma nossa conhecida pesquisadora brasileira, tomando posse daquilo que não é seu enquanto, através das ideias dela, critica esse mesmo comportamento em seus pares.

Enquanto veem seus lugares identitários ameaçados pela dura realidade atual, sem espaços "garantidos" e completamente desnorteados diante da sua vulnerabilidade emocional, agarrarem-se a ideia de virgindade feminina é vislumbrar um momento idealizado da importância da exclusividade fálica, como se em algum lugar uma mulher os estivesse esperando, a fim de lhes presentear com sua vagina intocável, ocupando esse lugar privilegiado de entrega, tornando-os potentes e "especiais".

Enquanto homens jovens brasileiros pensarem assim e tomarem um movimento importante como o feminismo na conquista de direitos fundamentais como uma ameaça - e não como um exemplo de luta coletiva - a impotência da juventude masculina brasileira ficará ainda mais gritante.