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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Mulher fala em 'excesso de lubrificação': é normal ou pode ser problema?

fizkes/Getty Images/iStockphoto
Imagem: fizkes/Getty Images/iStockphoto
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Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista do Universa

10/05/2022 04h00

Uma leitora me escreve contando que é uma mulher sexualmente ativa, que gosta de fazer sexo e se masturba com frequência. Ultimamente ela tem notado que a sua lubrificação está mais presente do que nunca e que, às vezes, se sente constrangida. E arremata: "Sei que não devemos nada aos homens e que essa lubrificação é natural, mas gostaria de saber o que eles acham de mulheres como eu, tendo em vista que até já ouvi "reclamações".

Eu poderia abordar esse tema, só pela questão feminina existencial: tente não dar valor ao que os homens pensam sobre o seu corpo, a sua resposta sexual, ao seu fluido vaginal.

Por séculos a fio a "culpa" de tudo recai sobre as mulheres, a sexualidade feminina virou um manual de problemas ginecológicos e sexuais - além daquilo que chamam por aí de mi-mi-mis - e está na hora de reverter esse quadro. Se você tem muita lubrificação é sinal de que o seu corpo responde dessa maneira a excitação sexual e, portanto, não há nada de errado com ele.

Eu posso sugerir que você mude a chave: combata o constrangimento com frases de efeito motivacional: "eu tenho uma cascata de tesão dentro de mim e minha vagina transborda de prazer" - mas eu entendo o seu incômodo e a sua preocupação com o que eles acham sobre isso - isso não acontece só com você, fomos treinadas para pensar demais sobre o prazer alheio.

Você pode sim usar a minha frase motivacional, tá? Mas sigamos adiante. A primeira questão é entender se o seu prazer sexual fica comprometido, você sente que a sua intensa lubrificação atrapalha o seu prazer?

Conheço uma infinidade de homens que adoram uma cachoeira vaginal. Quanto mais lubrificação, mais a sensação de que a mulher está aproveitando aquele momento - mesmo que alguns tomem para si o 'feito' - como se essa resposta de excitação só dependa da incrível perícia e performance sexual deles.

Outros acham verdadeiramente curioso, como uma vagina pode lubrificar tanto e até "ejacular". Mas sim, há os que se incomodam, pois muita lubrificação pode diminuir o atrito e fricção do pênis com a vagina - portanto, isso pode comprometer o seu prazer e o de alguns parceiros.

Digo alguns já que a sensibilidade e o tamanho do pênis podem também fazer um diferencial nesses casos. Então, na verdade o ´fenômeno' seria responsabilidade de quem? Da sua vagina molhada ou do pênis de menor calibre? Há, há.

Assim como a química sexual é uma 'sorte', o "encaixe" também. A gente não explica bem como esses fenômenos acontecem, mas só sabemos que tem parcerias que explodem no sexo - são uma verdadeira comunhão sexual intergaláctica.

Talvez, os homens que reclamaram da sua lubrificação nem eram os parceiros mais compatíveis com você, por outras razões e não só por seu fluído vaginal. Quando há desejo, excitação e interesse na relação, alguns percalços no sexo podem ser resolvidos, sem que se crie um drama mexicano. No caso do inverso, por exemplo, como pouca lubrificação, o uso dos lubrificantes resolve a situação.

Alguns preservativos com texturas - a venda em sex shops - podem aumentar o atrito do pênis durante a penetração. Há também a possibilidade do uso de um tipo de gel adstringente, para diminuir a lubrificação, mas essa indicação deve ser feita pela sua ginecologista, depois que vocês avaliarem juntas a necessidade real dessa intervenção.

Sabe, muitas vezes o que mais atrapalha o prazer sexual não são os ajustes que podem ser feitos, como o uso dos acessórios, dos medicamentos pró-sexuais, dos géis, as melhores posições e práticas a fim de garantir a satisfação de todos, mas sim aquela voz na nossa cabeça que invade a dizer que algo está errado. Essa sim é a enxurrada mais difícil de controlar e a que mais devemos tentar combater.