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Perdida entre liberdade sexual e romance? Saiba o que é heteropessimismo

nicoletaionescu/Getty Images/iStockphoto
Imagem: nicoletaionescu/Getty Images/iStockphoto
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Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

12/04/2022 04h00

Heteropessimismo é um termo que descreve um conjunto de sentimentos constantemente experimentado nos encontros entre jovens heterossexuais, como arrependimento, constrangimento e desesperança.

Tem principalmente uma relação com a impossibilidade de conciliar demandas afetivas da feminilidade neoliberal, diante da cultura heterossexual, pautada pela desigualdade de gênero e pela violência que sofrem as mulheres nas relações heterossexuais.

Pouco acostumadas a priorizar seus desejos, as mulheres ainda têm dificuldade em negar sexo, revelando a natureza complexa das negociações sexuais. Os limites borrados do consentimento sexual revelam que ele ainda é difícil de navegar e não transforma todas as mazelas da nossa cultura, baseada no poder patriarcal hegemônico que estabelece roteiros culturais que moldam a tomada de decisão sexual das mulheres.

Partindo do pressuposto de que namorar é um desafio para a geração atual - o sexo casual embora possa ser expectado com certa euforia inicial ou mera oportunidade de satisfação de uma necessidade básica, vem sendo acompanhado de um tom mais depressivo do que brincalhão.

Nas palavras da escritora Christine Emba - autora do livro "Rethinking Sex", ("Repensando o Sexo", em tradução livre) essa é uma postura anestésica, que as pessoas usam para lidar com a recorrente decepção, ao reconhecerem que a cultura sexual atual também não está adequada à sua felicidade.

Christine nos lembra que uma regulamentação sexual excessivamente rígida no passado causou danos e sofrimentos, como o alijamento de grupos considerados socialmente "minoritários", a vergonha, a culpa, a insatisfação sexual de tantos, principalmente das mulheres, a patologização de práticas sexuais consideradas "inadequadas".

O sexo asséptico, heteronormativo, castrou identidades e potencialidades. No entanto, a liberdade sexual experimentada principalmente pela juventude atual também desagua no desassossego.

Sem ter que encarcerar o desejo nos limites de um relacionamento amoroso, constituição familiar e maternidade/paternidade, a celebração do sexo livre aos poucos também está minguando o universo psíquico de muitas pessoas, e o preenchimento com possibilidades acaba escancarando outros problemas.

Quando um encontro já carrega o fantasma de uma interação desvinculada afetivamente, limita-se a oportunidade de que algo novo possa acontecer, para além do sexo casual esperado.

Parece que o inesperado - algo que pode ser encontrado também no entusiasmo de uma conversa, na verdadeira curiosidade de um sobre a vida do outro, na fluidez de assuntos, nos interesses em comum, no riso solto, no brilho do olhar, na recusa do sexo no primeiro encontro se assim se desejar - se estabelece com limites, pois é acompanhado das defesas contra as decepções que se consideram estar por vir.

Então, o inesperado, se limita ao sexo "consentido" e não a possibilidade de estabelecer intimidade emocional com as outras pessoas, ou ao menos regras mais claras sobre a experiência de prazer de ambos os parceiros.

Pior, o inesperado no contexto sexual pode ser mais difícil ainda de negociar, haja vista que o tal "consentimento" já foi previamente dado - jantamos, bebemos e vamos para a cama - e isso pode ser uma grande cilada. A fadiga heterossexual sinaliza uma perda de energia para se opor aos problemas inerentes a heterossexualidade - que podem contribuir para um desprendimento do eu e do corpo.

Questiona-se então, se toda a celebração da narrativa de empoderamento e felicidade na liberdade sexual de fato tem levado a um sexo de melhor qualidade.

Christine Emba sugere que é preciso discutir mais amplamente a cultura sexual atual, suas regras e limites, pois embora pareça uma espécie de 'repressão' eles - os limites - podem ser mais libertadores, especialmente em um contexto que leva a dizer "sim'' quando se queria dizer 'não' ou 'não agora'.

"Abraçar a pausa pode nos dar espaço para parar e pensar, decidir o que não queremos - e abrir espaço para o que fazemos."

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