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OPINIÃO

'Sexy sem ser vulgar': como o conceito controla comportamento de mulheres

Imagem: bernardbodo/Getty Images/iStockphoto
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Ana Canosa

Colunista de Universa

30/04/2022 04h00

"Seja sexy sem ser vulgar", certamente você já ouviu esse conselho. Você precisa sensualizar, mas não muito, demonstrar interesse, mas não muito, se vestir de modo sedutor, mas não muito, ficar com corpo malhado, mas não muito, cuidar de casa, mas não muito, trabalhar, mas não muito, tomar iniciativa, mas não muito. E assim, segue-se o controle do comportamento das mulheres.

O conceito de sensualidade não pode ser destacado do contexto cultural. Há uma produção de comportamentos produzidos para corresponder ao que se entende por sexy ou sensual, que servem também a movimentar a indústria da moda, da estética, da cosmética, entretenimento, redes sociais, entre tantas outras. Enquanto há padrões estabelecidos sobre o que é ser sexy, mais pessoas acreditarão que não se sentem sensuais.

Embora os símbolos estejam apoiados na maneira como devemos apertar levemente o olhar, deixar lábios molhados por gloss levemente entreabertos, andar, sentar-se e se esgueirar como uma cobra, entre tantas outras dicas infalíveis na arte da sedução, ser sensual não tem nada a ver com isso.

Reich já dizia que "uma existência sensualista diz respeito ao mundo das sensações, que percorre o corpo afetado pelos sentidos...a sensualidade está relaciona a todo prazer que afeta o corpo. Uma existência erótica, percorrida de sensualidade, não precisa apenas do ato sexual para manifestar-se. Ela está presente nos pequenos gestos, no dia a dia, intensificando a vida, percorrida por energias e vitalismo." Ou seja, entregue-se as sensações e você será sensual.

Li um trabalho muito interessante que aborda a docilidade e o inconformismo feminino contido na frase "Sexy sem ser vulgar", e como a moda foi e ainda é uma potente ferramenta para distinguir essas duas "categorias" femininas na história social de mulheres. As autoras Fernanda Bonizol; Elisabeth Murilho da Silva fazem um retrospecto histórico de como as "tendências estão diretamente relacionadas ao lugar que a mulher ocupa numa sociedade" e como "a postura sexual da mulher foi e ainda é julgada a partir de suas escolhas de vestuário".

O artigo revela como historicamente as adequações de estilo serviam para a divisão de classes, na necessidade de a elite distinguir-se dos demais.

Enquanto a elegância propõe uma sensualidade "adequada", a vulgaridade adentra o campo da transgressão e - portanto - da inadequação, cindindo a sexualidade feminina em posições distintas, desejáveis ou não para o que se espera da conduta da mulher em relação as suas interações amorosas e sexuais.

Assim que as classes menos favorecidas tomassem para si o estilo, ele era posto de lado em favor de outro mais novo e inédito. Desde que a sedução se impôs como uma característica desejável nos idos do século XIX, cortesãs e bailarinas, com suas ricas vestimentas e adereços - e com partes do corpo à mostra - adentraram o espaço de desejo masculino -o conceito de vulgaridade serviu para separar condutas femininas - reprimindo a liberdade sexual - a fim de garantir quem poderia ou não assumir o pódio e "ganhar" o casamento - pobrezinhas iludidas.

O "sexy sem ser vulgar" veio mediar os comportamentos sexuais e cercear os corpos das mulheres. Soma-se a isso conceitos de como a fisiologia da mulher (menstruação, gravidez, amamentação) tornariam as mulheres inaptas para o trabalho, e que as suas emoções invadiam o espaço da racionalidade "Enquanto ser carnal e das paixões, a mulher não seria capaz de aceder à razão (...) a história da beleza e da sedução feminina, o que lhe cabe então é apenas a vaidade dentro de limites que distanciavam ao máximo da vulgaridade",

Mas a moda e outros segmentos da 'beleza feminina' também foram se adaptando as mudanças econômicas, políticas e sociais, se adequando a distinção de papéis de gênero no decurso do século XX e os padrões normativos da moralidade em contextos de liberação sexual feminina a partir do final do século XX.

O vestir contemporâneo feminino não atende a um único padrão, mas ainda ao que "convém", sendo o que se convencionou vulgaridade ainda se espera ser evitado.

Quando alteramos a lógica de empoderamento feminino e as mulheres "da elite" passam a decidir o que vestir, com quem fazer sexo e o que querem fazer das suas vidas, a própria nudez feminina já não assina atestado de vulgaridade. O que seria curto demais", decotado "demais", justo 'demais", transparente demais?

É preciso lutar fortemente contra as categorizações que separam mulheres jovens das mais maduras, as executivas das que trabalham em ambiente informal, as casadas e as solteiras, as que frequentam pool party, festas glamourosas e bailes funks.

Quantas e quantas mulheres, estimuladas pelo movimento body positive tem mostrado a sua natureza corporal nas redes sociais, explorando a sua sensualidade. As novas gerações estão construindo um mundo mais aberto e diverso onde sensualidade encontra lugar nas diversas faixas etárias, identidades de gênero, orientações sexuais, raças, etnias e tipos de corpos.

Quando uma mulher como Annita, revira do avesso a noção de vulgaridade atrelada a falta de poder econômico, e faz até homens rebolarem para comemorar seu mais recente feito musical, a frase sexy sem ser vulgar vai perdendo força.

Sei que é muito difícil não julgar, pois nós somos educadas em estados binários "o sim e o não, o certo e o errado, o bom e o mau, o sexy e o vulgar". No entanto, quanto mais você julga, mais alimentará a sua autocrítica e mais estará presa a uma autoimagem performática, para se manter naquilo que acha valoroso. Acha mesmo? reveja conceitos, porque nada é mais sensual do que ser livre.

Sexoterapia #75: Sexy sem ser vulgar? Deborah Secco fala sobre sensualidade

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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