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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Síndrome do Casal Perfeito': é possível uma vida a dois sem conflitos?

Drazen Zigic/Getty Images/iStockphoto
Imagem: Drazen Zigic/Getty Images/iStockphoto
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Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

19/04/2022 04h00

Diz-se "Síndrome do Casal Perfeito" a expectativa que o casal tem, ou um dos dois, de cumprir todos os requisitos idealizados pela cultura romântica para uma vida amorosa feliz: estão sempre alegres, são carinhosos com o outro, enaltecem as qualidades da parceria e a felicidade do casamento, estão satisfeitos sexualmente, nunca discutem ou se desrespeitam...

Ambos são flexíveis e ajudam-se mutuamente sem que passem por crises na troca de papéis, respeitam a autonomia de cada um sem perder a noção de compromisso amoroso (nunca são infiéis, ou se há infidelidade ela é enaltecida como algo bom para a relação) e ainda por cima tem filhos maravilhosos que nunca dão trabalho...ou seja, são representantes de uma vida conjugal sem conflitos, onde cada um parece ser tão elevado espiritualmente e psicologicamente que a mediocridade de cada um e os conflitos comuns aos casamentos são ignorados.

Claro que há quem enfrente melhor os desafios, quem seja dotado de uma personalidade flexível para adaptar-se ao relacionamento em qualquer formato que seja, mas grande parte dos casais que passam essa imagem não vive exatamente assim, escondendo suas angústias e seus problemas.

Claro que há casais que não estão bem e não revelam seus conflitos porque preferem guardar sua intimidade, estabelecem um limite na privacidade. Isso é importante, em uma sociedade que, atualmente, coloca tudo na esfera pública.

Além disso, as pessoas se alimentam dos conflitos alheios, adoram olhar para a dor pelo lado de fora, acompanhar os dramas dos outros, como se pudessem expurgar os seus: ainda bem que não é comigo isso aí. E é claro que é fácil dar opinião, quando você não está emocionalmente envolvido na situação. E as pessoas são cruéis.

Então, é possível que você se espante com alguém que parecia muito bem com sua parceria e de repente se descobre que eles estão em crise ou vão se separar. E, sem dúvida, alguém vai dizer que viviam de aparência, quando estavam, justamente, cuidando do seu jardim de inverno.

Mas há também os casais que se esforçam para mostrar que está tudo bem, falseando a parte boa, alardeando os bons ventos, abrindo uma privacidade enganosa propositalmente para cumprir um papel. Podem negar a existência dos problemas, ter vergonha por parecer infeliz ou medo de "fracassar" diante da família e amigos.

Pessoas que se cobram muita perfeição tendem a achar que o fim de um relacionamento é um fracasso.

Também há quem pense que precisa mostrar-se bem para manter uma imagem social, como no caso dos casais que tem muita representatividade social (redes), política, religiosa ou econômica. Eles sentem-se "modelo" de casal que não pode fraquejar, pois perderiam sua força social, engajamento, credibilidade ou seguidores.

Querer performar o perfil do casal perfeito, mas vivendo angústias e conflitos na privacidade, pode dar uma sensação de cisão na personalidade: uma parte sente uma coisa a outra mostra o oposto. A pessoa se perde. É quase delirante, difícil de administrar, uma profusão de sentimentos ambíguos que se chocam o tempo todo e não encontram solução.

Normalmente isso gera angústia e a ansiedade, que podem se manifestar no aumento de batimentos cardíacos, dificuldade de foco, tensão muscular, distúrbios alimentares e de sono e tantos outros como resultado de sofrimento psíquico.

É preciso encarar que a vida por si só já é difícil, o que dirá a vida em comum. Que a função do casamento é compartilhar, trilhar um caminho sendo apoiada pela outra pessoa, mas que isso não é fácil, que haverá muitos dilemas e crises e momentos difíceis, quando se deseja desistir.

Encarar a realidade dói, mas pode promover amadurecimento e fortalecimento do amor. Ninguém adentra o mundo do outro sem ser afetado profundamente por suas dúvidas, ambiguidades, desejos além de nós. Mas sempre há caminhos, mesmo que seja a separação.

É preciso voltar-se para os sentimentos, que estão por trás das ideias e pensamentos diante dos problemas. É rejeição? Vergonha? Medo de perder? Cansaço? Falta de motivação? Diante dos conflitos conjugais as pessoas têm o hábito de criticar a parceria pela ação que fez e não pelo sentimento que teve em relação aquilo.

Quando eu comunico o meu sentimento é mais fácil do outro entender e, mesmo em crise é possível conversar sobre a dor com empatia.

Aceite que a vida tem fases...e que nada se resolve do dia para a noite. As pessoas precisam aprender a conviver com o "Não sei o que vai acontecer" ...e tudo bem...o tempo ajuda a clarear as ideias e emoções. Em vez de querer ser um casal perfeito, seja um casal possível.