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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ela queria ser desejada pela parceira. E quando foi faltou tesão. Por quê?

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Imagem: eclipse_images/Getty Images
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Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

16/04/2022 04h00

A Luisa chegou hoje à terapia, com aquele ar de quem não tem muito a dizer. Estranhei, já que ela sempre traz novidades ou "ordinariedades", tende a fazer reflexões sobre seus incômodos, usa o humor para mascarar a tensão, e adora falar dos outros para desviar a atenção de si mesma. Sem contar que ama um drama, então às vezes ela tenta transformar a sessão em um palco para protagonizar um enredo complexo. Mas a psicoterapia é esse espaço para acomodar a versão multifacetada das pessoas e lançar alguma luz as suas narrativas pessoais.

Talvez sua desmotivação seja porque está com problema na coluna, desde outro dia, quando acordou "travada", me disse - "sem mais nem menos, vai ver que é uma hérnia ou algo do gênero!" Mais 10 minutos se passaram explanando entre exames, idas e vindas ao hospital, médicos, medicamentos, emplastos, massagistas - o que já dava um episódio de Grey's Anatomy - eis que ela me disse que no dia anterior, a única coisa diferente que havia feito era ter masturbado a parceira, porque Mônica havia pedido essa interação sexual e que ela também masturbou Luisa. Mas não foi assim uma atividade acrobática, então provavelmente não seria por isso o problema na coluna.

Para tudo! Mônica e Luísa não transam faz tempo, eu já perdi a conta do quanto. O problema vem se arrastando há anos. Primeiro eu atendi o casal por alguns meses, em um processo bonito, mas com frustrações. Mônica tem uma sexualidade complexa, atravessada por questões identitárias, inseguranças e algumas experiências negativas na sua história sexual. Aceitar-se lésbica foi um processo longo e difícil. Não tem muito repertório.

Descobrimos que no início do relacionamento delas, embora tivesse desejo sexual por Luisa, ela mais performava do que se entregava de fato. Quanto mais o tempo passou e a relação se aprofundou, o sexo foi rareando, enquanto a amizade entre elas se fortalecia. Luisa, embora desejante, foi ficando inibida, com medo de tomar a iniciativa e receber um Não.

Fizemos alguns meses de trabalho, elas chegaram a explorar o sexo entre elas, mas avançaram pouco. Luisa teve que fazer uma escolha difícil, de aceitar um relacionamento sem quase nenhum sexo, mas com muito amor. Lá vamos nós, de novo, para o mesmo conflito de tantos casais.

Decidiram abrir o relacionamento para que Luisa pudesse fazer sexo com outras pessoas, mas quem disse que ela conseguiu aproveitar o benefício? Teve algumas relações, mas rapidamente perdeu o interesse nas aventuras. O que ela sempre desejou, foi fazer sexo com Mônica - me diz automaticamente - o que a faz viver em espera constante. Mas então, por que a proposta de Mônica não a fez ter pulos de alegria, afinal chegou enfim o dia que a parceira desejou fazer sexo com ela, tomando a iniciativa e tudo o mais? Tínhamos algo aqui.

E como foi? - perguntei visivelmente mais animada que ela - no que recebi um legal, meia-boca - uma nota 4. "Mônica não tem pegada, fica sem jeito, não sabe fazer um sexo oral" - Mas isso podemos ensinar, disse eu - e ela deu de ombros. Ao final da masturbação mútua, Mônica sugeriu que elas fizessem um sexo com penetração de dildo, no final de semana próximo. Dia seguinte, Luisa acordou completamente travada, jogando um balde de água fria no planejamento sexual, afinal ela está com dor, sonada com as medicações, tem exames a fazer - só falta atestado médico para proibir o sexo por pelo menos, mais 15 dias.

Luisa passou tanto tempo desejando o desejo de Mônica, que quando se deu conta, havia perdido as referências do que gosta, do que quer. Por que tipo de corpos se atrai? Qual prática sexual ela prefere? Que tipo de cenário a coloca disponível? Quais fantasias sexuais a excitam? Mônica a inspira sexualmente? Será que Luisa gosta tanto de sexo assim, ou vai ver que esconde inibições e inseguranças também?

Ao final da sessão, havíamos descoberto que as pessoas com quem mais teve satisfação sexual eram comprometidas e não estavam dispostas a manter uma relação com ela. Ou seja - Luisa é alimentada pela impossibilidade de ser a protagonista do desejo alheio. Na medida em que Mônica resolve mudar esse jogo, ela já não sabe bem o que fazer.

É bastante comum nos distrairmos com o desejo do outro, responsabilizando as pessoas por sofrimentos, frustrações e interdições. Por não conseguir lidar muito bem com a nossa própria liberdade sexual - organizamos uma série de limites e justificativas - então, a narrativa do desejo fica camuflada, para não revelar as faltas e os papéis que assumimos para garantir apaziguá-las. É como diz aquela clássica frase: nem sempre o que você deseja é o que você verdadeiramente quer. Durma com essa.