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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Segurança, muita conversa e outras dicas para quem quer praticar BDSM

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Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

09/04/2022 04h00

A Fernanda tem 24 anos, é mulher cisgênera, heteroflexível - ou seja, prevalentemente hétero, mas considera alguma prática homossexual. Atualmente ela está solteira, mas por muitos anos teve um caso - cheio de idas e vindas - com um homem, sendo que no último período que estiveram juntos - em julho de 2021 - o sexo esteve mais "quente".

Ele foi apresentando para ela algumas práticas do BDSM - "uma amarração ali, um bondage acolá, e eu fui gostando..." Desde então a Fernanda passou a ter curiosidade sobre o mundo BDSM e se identificando mais e mais, mas ainda não se envolveu em nenhuma experiência intensa.

A prática do BDSM existe desde que o mundo é mundo e se popularizou com a trilogia de livros e filmes "Cinquenta Tons de Cinza". A sigla incorpora uma série de práticas. O B é de Bondage - que significa restrição de movimentos e privação de sentidos - onde a experiência de prazer está na sensação de contenção (cordas, algemas, vendas etc.) - existem amarrações bastante estéticas, como o Shibari. O D tem dois significados. Disciplina - que envolve cenas de correção, punição, repreensão (palmatórias, chicotes, correções verbais e humilhações) e Dominação que não necessariamente envolve a prática da dor, mas do jogo de poder em dominar o outro, de sentir prazer em guiar e dar ordens. O S também é usado para duas condições: Submissão - ser dominado pela outra pessoa e ter prazer em servir e obedecer, e o Sadismo - provocar dor e sofrimento, físico ou psicológico. O M é de Masoquismo - gostar de receber dor ou sofrimento. Algumas pessoas sentem prazer assumindo só uma das posições - enquanto outras alternam suas práticas, podendo ser ora dominantes, ora submissas. São chamadas de Switchers.

O BDSM envolve questões emocionais e fisiológicas. Sim, a dor pode ser experimentada com prazer. Uma pesquisa publicada em 2020, fez uma testagem hormonal em 35 casais sadomasoquistas, sendo que os masoquistas - que gostam de sentir dor - tiveram aumento de dois hormônios após a prática: o cortisol e os endocanabióides.

O cortisol é uma substância que se apresenta em situações de estresse, colocando o corpo em alerta, e ativa o sistema ataque-fuga. Mas a presença dele é de também proporcionar equilíbrio: manutenção de pressão arterial, regulação de sistema imunológico - sem ele teremos perda de apetite, fadiga, anemia.

Ele também é liberado durante práticas esportivas - assim como também a adrenalina e a endorfina - promovendo aquela sensação de relaxamento e bem-estar pós treino. Os endocanabióides também promovem o relaxamento do corpo. Parece que a prática do BDSM está ligada a esses mecanismos reguladores, que podem ajudar a explicar o prazer fisiológico na experiência da dor - uma excitabilidade corporal seguida do prazer do relaxamento.

Já os sádicos - pessoas que gostam de impingir dor ao outro, só tiveram aumento de endocanabióides. É importante lembrar que estas substâncias possuem ações muito distintas de pessoa para pessoa. Assim como algumas podem sentir muito prazer depois de suar correndo na esteira da academia ou comer um pedaço de bolo outras não sentirão prazer em situações que provoquem dor em si ou em outros. O prazer é além de fisiológico, subjetivo.

A Fernanda passou a se ver em algumas situações imaginárias dessas práticas, pois em suas investigações sobre o assunto percebeu que o que ela e o crush faziam era só uma 'amostra grátis' do que é, de fato, uma sessão de BDSM. Se vê na posição de Domme, a mulher dominadora, que direciona a cena junto a um masoquista ou submisso.

Aliás, é a narrativa, o cenário e a estética, que criam toda a expectativa de posições que são experimentadas em uma sessão dessas, e não somente a excitação sexual genital em si. Uma pessoa gostar de ser humilhada, ou dominada, pode ter relação com traços de personalidade ou ser, tão somente uma experiência diferente de todas aquelas vividas no cotidiano. Há teóricos que suspeitam que os homens, ao terem que parecer fortes, dominantes e poderosos nas suas relações laborais, fraternas e amorosas, em sessões de dominação e submissão poderiam enfim, curtir um papel tão distinto, de vulnerabilidade extrema. Outros podem assumir o papel de submissos para além das "sessões" e serem 'escravos' de um senhor ou senhora 24/7, ou seja, 24 horas, 7 dias por semana.

Engana-se quem associa o BDSM a violência. O jogo precisa ser consensual e, por isso, se estabelecem negociações com códigos e regras explícitos - do que pode ou não ser realizado - com palavras e gestos de segurança para se evitar passar dos limites das pessoas envolvidas na prática. É também a possibilidade de vulnerabilizar com o máximo de segurança possível diante de alguém que está ali para realizar alguns de seus desejos mais íntimos, estabelecendo uma relação de extrema confiança - o que atrai muitos adeptos.

Por isso, digo a Fernanda que busque comunidades e converse bastante com praticantes, para quem sabe, decidir experimentar o jogo com segurança.

Sexoterapia fala de BDSM com Alene, a Ada do podcast "Chicotadas"