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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Uma viagem pela história do clitóris: até Colombo descobriu o prazer nele!

Foi só em 2005, com o auxílio da ressonância magnética, que O"Connel, Sanjeevan e Hutson forneceram o relato mais abrangente da anatomia do clitóris - Erika Lourenço/UOL
Foi só em 2005, com o auxílio da ressonância magnética, que O'Connel, Sanjeevan e Hutson forneceram o relato mais abrangente da anatomia do clitóris Imagem: Erika Lourenço/UOL
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Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

04/12/2021 04h00

Quase 500 anos antes de Cristo, Hipócrates (460 a.C.-370 a.C.) já dava alguma descrição sobre o assunto como uma pequena protuberância ("úvula"), com função de "proteger" a vagina, assim como a úvula palatina protege a garganta. No século 2, Soranos de Éfeso já havia chamado essa pequena formação de ninfa, porém foi Rufo de Éfeso que, no ano 110, batizou-a de clitóris (kleitoris), de onde se originou a palavra kleitoriazein (literalmente "titilar" ou "clitorisado" em grego antigo - o que seria uma associação com masturbar o clitóris ou, em termos populares, siriricar).

Lamentavelmente, Galenus (129-216) pôs fim à descrição do clitóris definindo-o como uma parte importante e específica na anatomia genital feminina, questionando as observações anteriores dos colegas: "todas as partes, então, que os homens têm, as mulheres também têm; a diferença entre eles encontrando-se em apenas uma coisa, a saber, que nas mulheres as partes estão dentro, enquanto nos homens estão fora".

A teoria galênica influenciou a história da medicina por séculos e o atravessamento cultural e religioso ajudaram a botar uma pá de cal na importância do prazer sexual feminino, demonizando o clitóris durante a Idade Média. Em tratados sobre a perseguição às bruxas, ele chegou a ser chamado de "teta do diabo".

O anatomista francês Charles Estienne (1504-1564) também identificou o clitóris, atribuindo-lhe uma função urinária e descrevendo-o como "uma pequena língua no lugar do colo da bexiga", mas reforçando-o como parte da "anatomia vergonhosa da mulher".

Até Estienne, a descrição clitoriana acabava ficando mais no âmbito anatômico do que relacionado ao prazer feminino - quer dizer, homens nem consideravam que mulheres tinham sentimento, muito menos prazer, nessas épocas...

'Assento de prazer'

Segundo Charlier, Deo e Perciaccante (2020), quem descreveu o clitóris como um "assento de prazer", com base em suas observações clínicas e dissecação de cadáveres, foi o médico italiano Realdo Colombo (1516-1559) no livro: De re anatômica (século 16). Na época a orientação já era clara: "Esfregue vigorosamente com um pênis, ou mesmo toque-o com o dedinho; a semente brota muito mais rápido que o ar, e isso é por causa do prazer (...) Se você tocar, verá que fica um pouco mais duro e alongado, a ponto de se chamar de uma espécie de parte viril". Quer dizer: até Colombo descobriu o prazer no clitóris!

Houve, no entanto, um aluno e sucessor de Colombo, o Gabriele Falloppio (1523-1562), que reivindica que essas notas eram suas, não dele! De qualquer forma, Fallopio e Colombo foram os primeiros a observar o caráter intumescido do órgão durante a estimulação e excitação sexual.

Enquanto essa briguinha masculina pelo protagonismo clitoriano acontecia na Itália, o médico belga Andreas Vesalius (1514-1564) negou a existência de clitóris nas mulheres - vejam só, um homem falando o que existe (ou não existe) no corpo das mulheres, pelo visto com pouca experiência empírica -, observando a sua presença como sinal de hermafroditismo. Ah pronto, mais um ignorante!

Quase um século depois, o anatomista holandês Regnier de Graaf (1641-1673) afirmou que, em todos os cadáveres femininos que ele havia dissecado, o clitóris era perceptível à vista e ao toque e descreveu o que atualmente conhecemos como bulbos pela primeira vez (a parte interna que se enche de sangue).

Tratamento contra histeria

No século 19, uma descrição meticulosamente detalhada da anatomia interna e externa do clitóris foi fornecida pelo anatomista alemão George Ludwig Kobelt (1804-1857), apontando também as estruturas nervosas que o irrigam. Mas isso não foi suficiente para conter a prática cirúrgica da clitoridectomia como tratamento cirúrgico de doenças como histeria, loucura, cataplexia ou epilepsia.

Embora Sigmund Freud (1856-1939), na primeira metade do século 20, tenha contribuído com a teoria do desenvolvimento psicossexual, ele associou o orgasmo por estimulação clitoriana a algo infantil, dando ao clímax obtido através da penetração somente uma capacidade de mulheres maduras, uma associação claramente baseada na importância desmedida do falo para a satisfação sexual da mulher - fala sério!

Anatomia do clitóris

Para se ter uma ideia, até a metade do século 20 - antes de ontem praticamente, mulheres! -, o mais importante manual de anatomia não continha qualquer representação anatômica do clitóris!

Foi só em 2005, com o auxílio da ressonância magnética, que O'Connel, Sanjeevan e Hutson forneceram o relato mais abrangente da anatomia do clitóris, incluindo seu componente vascular, nervoso e estruturas adjacentes, consagrando - finalmente! - a sua importância para obtenção de prazer e orgasmo.

Com toda essa história delimitada, denominada e experienciada por homens, fica fácil verificar o tamanho da vaidade masculina para creditar a sua importância na descoberta ou negação do prazer sexual feminino. É isso que acontece quando um homem quer descrever os sentidos e corpos de pessoas com vulva, que se fossem ouvidas, teríamos resolvido essa indisposição clitoriana mais rapidamente e evitado que o órgão continuasse incompreendido ou - pior - negado.

É sobre lugar de fala? Sim! É sobre legitimidade? Sim também! Ainda urgem mais falas femininas - de pessoas que possuem o dito-cujo, não sei você, né, vai que não descobriu ainda - nessa discussão, mas de qualquer modo foi interessante pesquisar como este pequeno órgão foi descrito na história e verificar o quanto ele está intimamente ligado à evolução humana da sexualidade e aos direitos das mulheres.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL