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Quem descobriu o clitóris? Homens disputam "paternidade" do órgão feminino

Descoberta do clitóris foi reivindicada por diferentes anatomistas - Priscila Barbosa
Descoberta do clitóris foi reivindicada por diferentes anatomistas Imagem: Priscila Barbosa

Matheus Pichonelli

Colaboração para Universa

22/06/2021 04h00

Em um capítulo da série "The Office", após uma apresentação sobre como tratar de maneira adequada as colegas do escritório, o chefe do RH avisa que, se alguém tiver alguma dúvida, pode perguntar a ele em ambiente privado. Pouco depois, um funcionário vai até a mesa do gestor compartilhar a questão que o atormentava: "Onde fica o clítoris de uma mulher?"

A cena leva ao limite do ridículo a desorientação masculina sobre o órgão do prazer feminino. A ponto de o personagem entrar na vida adulta sem saber como, onde ou com quem se informar a respeito. Mas é possível que grande parte dos espectadores tenha se observado ali com um sorriso amarelo.

A dúvida era, ou deveria ser, tão sem sentido como perguntar onde fica o Brasil. Isso porque uma das muitas descobertas do clitóris vem do tempo das grandes navegações, no século 16. Foi um anatomista de sobrenome Colombo quem publicou, em 1559, no livro "De re anatomica", a descrição de um "órgão que governa o amor nas mulheres", chamado "Amor de Vênus".

Mateo Realdo Colombo, cirurgião italiano de Veneza, não tinha parentesco com o famoso navegador Cristóvão, responsável por redesenhar a cartografia do planeta desde a chegada à América, cerca de cem anos antes.

Não se pode dizer o mesmo, infelizmente, sobre a descoberta de Mateo. A localização do clitóris — único órgão do corpo humano dedicado exclusivamente ao prazer — em um livro de anatomia poderia ter sido tão revolucionária quanto outras descobertas daquela época. Mas há razões para os personagens reais dos escritórios modernos ainda navegarem perdidos pelo assunto no século 21.


Os "pais" do clitóris

Em sua dissertação de mestrado na Ufscar (Universidade Federal de São Carlos), sobre a mutilação cognitiva do clítoris, a pesquisadora Iaci da Costa Jara relata que, quando Colombo tentou registrar o clitóris em sua obra, muitos contemporâneos deram de ombros.

O órgão sexual feminino, afinal, já era conhecido de velha data dos anatomistas, o que fazia com que o estudo supostamente pioneiro soasse óbvio e ridículo. Mas havia um detalhe: apesar de ser conhecido pela medicina, o clitóris não era mencionado nos livros de anatomia. "Isso aponta para uma condição muito particular desse órgão: uma presença não anunciada", diz Iaci.

Essa presença não anunciada torna incerta a afirmação de que foi Colombo quem descobriu o clitóris. Seu contemporâneo, o também anatomista Gabriele Falloppio, chegou na época a reivindicar os créditos pela revelação. E, anos depois, Kaspar Bartholin, médico dinamarquês, afirmou que o "pai" do clítoris não era nem um nem outro, já que havia estudos sobre o órgão desde o século II, quando o cirurgião Rufus de Éfeso, que vivia em uma região da atual Turquia, identificou o órgão como responsável pelo prazer feminino e o batizou com o nome com o qual o conhecemos hoje.

Iaci Jara lembra, porém, que a maior parte desses tratados se perdeu com o tempo. E Colombo, assim que a disputa pela descoberta cessou, foi condenado ao ostracismo.

Colombo voltaria a ser assunto no fim do século 20, quando o escritor argentino Federico Andahazi publicou o romance "O Anatomista", inspirado na vida do médico italiano. Outros tempos? Nem tanto. O livro chegou a ser premiado por uma importante fundação cultural. Mas a presidente da organização discordou da comissão julgadora e, em defesa da moralidade, cancelou a cerimônia. A obra, ainda assim, virou um best-seller.

Pênis atrofiado?

Ainda hoje não é fácil encontrar referências sobre o tema. Mesmo no Google. Lá, um dos estudos mais mencionados é o ensaio "Os mistérios do corpo feminino, ou as muitas descobertas do 'amor veneris'", da historiadora Margareth Rago.

Lá se vão quase 20 anos desde a publicação do artigo e, em uma conversa por videochamada, Margareth diz observar um desconhecimento muito grande, ainda hoje, de homens e mulheres sobre o corpo feminino. Para ela, não tem como falar do clitóris sem falar da sexualidade feminina, uma descoberta relativamente recente —e impulsionada pelo feminismo e a revolução sexual.

"O fato de termos um desconhecimento tão grande sobre o clitóris é significativo", diz ela. A ciência monopolizada por homens e fechada para as mulheres por muito tempo entendia que o corpo feminino era igual ao masculino. Dizia-se, por exemplo, que a mulher tinha um pênis, atrofiado, para dentro.

Até Sigmund Freud sentenciou que, para atingir a chamada feminilidade "normal" e "saudável", as mulheres deveriam abrir mão do prazer clitoridiano e priorizar o prazer vaginal, mais passivo. A tese foi fortemente refutada por pesquisadoras que emergiram a partir do século 20.

Massagens e cócegas

"Até o século 17, não havia a ideia de uma divisão sexual. O que se entende hoje como corpo masculino e corpo feminino era visto por médicos e anatomistas como o mesmo organismo. Até os nomes dos órgãos do aparelho genital eram idênticos", explica Iaci Jara.

A diferença entre um corpo e outro estava em um suposto grau de perfeição. "Os homens eram vistos como a própria expressão da perfeição no mundo e seus corpos eram a forma humana canônica", diz.

As especialistas ouvidas pela reportagem lembram que o desenho do corpo humano foi consagrado em um período em que a ciência era feita pelos homens — para quem as mulheres eram seres menos desenvolvidos.

O clitóris fugia à possibilidade de compreensão do mundo daqueles médicos, haja vista que não há nada que se equipare a ele no corpo masculino

"Esse parece ter sido o grande problema de registrá-lo nos tratados de anatomia", diz Iaci.

Mas a pesquisadora diz haver indícios para acreditar que o prazer feminino nem sempre foi um tabu. "Manuais médicos da época reconheciam a importância do orgasmo para homens e mulheres durante o sexo, de preferência atingidos em sincronia para o sucesso da reprodução", diz. "Recomendava-se a realização de massagens ou cócegas na genitália feminina para prepará-la para o ato. Assim, o mais provável é que o clitóris não era ignorado nas práticas cotidianas, mas que tinha uma presença não nomeada", fala.

O redescobrimento do clitóris

É possível pensar que essa história seria diferente se, à frente das descobertas, houvesse cientistas mulheres? Ou que elas, de alguma forma, já soubessem do clitóris antes de ele ser "descoberto" por anatomistas homens?

Iaci não encontrou nenhum registro de mulheres que tenham feito pesquisas neste sentido durante o período em que vigorou o modelo anatômico anterior. Mas destaca que a participação das mulheres nas ciências é "um processo obscuro".

"Em geral, elas foram proibidas de obter educação formal e atuar no campo das ciências", diz. Para ela, se houvesse mulheres anatomistas naquela época, provavelmente a ciência não teria se transformado em um culto ao corpo masculino durante tantos séculos.

O avanço técnico dos conhecimentos sobre o clitóris foi muito impulsionado por estudos realizados por mulheres, especialmente nas últimas décadas

É como se, tantos séculos após a publicação do livro de Colombo, só agora o órgão sexual feminino estivesse, de fato, descoberto —graças a estudos contemporâneos como os da urologista australiana Helen O'Connell.

Prazer feminino foi apagado dos manuais

Ainda assim, segundo a pesquisadora da Ufscar, falar sobre o clitóris já é enfrentar tabus. "A partir do momento em que a medicina desvendou os mecanismos da reprodução feminina e percebeu que ela era independente do prazer —o que ocorreu só no século 19—, o prazer feminino foi completamente apagado dos manuais médicos", diz.

"Assim, o tabu em relação ao prazer sexual feminino é um fenômeno que foi muito impulsionado pela própria ciência. Se o prazer feminino é negado, não é possível falar de um órgão cuja única função é o prazer. O tabu sobre o clitóris é tão forte que, muitas vezes, quando se fala sobre ele no dia a dia o conteúdo do discurso é o não saber sobre ele." Ela cita como exemplo as piadas que se faz sobre o desconhecimento do órgão.

Fazer piada sobre alguém não saber onde fica o clitóris não informa ninguém sobre sua localização. Não resolve o problema.

E o problema não é exclusividade dos homens, diz a pesquisadora. "A maioria das mulheres com quem conversei me disse ter tido conhecimento sobre o clitóris pela internet já na idade adulta", conta.


Qual a diferença entre o clitóris e o fígado?

Para Iaci Jara, o clitóris é, talvez, o único órgão do corpo humano sobre o qual ninguém fala nas aulas de biologia da escola, o que só pode ser justificado por questões culturais.

Não há nenhum motivo para que ele seja tratado de maneira distinta do estômago, do fígado ou do coração senão o fato de que falar dele é tematizar o prazer feminino

"Algumas pessoas acreditam que conversar com os jovens sobre o prazer pode incitá-los ao sexo. Eu penso que educar os jovens sobre seus corpos incita à autonomia e pode contribuir para que as próximas gerações tenham relações mais gratificantes. Negar um saber de algo que pertence ao nosso próprio corpo amputa uma parte do que somos e de nossas possibilidades de experimentar o mundo e a sexualidade", finaliza.

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