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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Cantor faz cirurgia de aumento do pênis: tamanho faz diferença no sexo?

O cantor sertanejo Tiago da dupla com Hugo (FOTO: Divulgação) - Reprodução / Internet
O cantor sertanejo Tiago da dupla com Hugo (FOTO: Divulgação) Imagem: Reprodução / Internet
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Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

13/07/2021 04h00

O sertanejo Tiago Silva, da dupla com Hugo, fez uma cirurgia de aumento do pênis, para, segundo ele, sua "satisfação pessoal, puramente estética". A faloplastia de aumento, no caso dele consistiu em liberar os ligamentos suspensores do pênis, que o conectam ao osso púbico, fazendo o membro pender mais para baixo um pouco.

Segundo o cirurgião que o operou, o diâmetro também foi aumentado com enxerto da gordura lipoaspirada do púbis, embora os trabalhos científicos mostrem que nesse tipo de procedimento o corpo pode absorver parte da gordura injetada. Aliás, a faloplastia estética, modalidade a que foi submetido, não é uma cirurgia recomendada pela Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), já que os estudos mostram que raramente traz resultados espetaculares e que há risco de deformidade, o que pode gerar ainda mais insatisfação para o homem, sem contar os agravos de possíveis infecções.

A faloplastia tem sido indicada para casos bastante específicos, como más-formações congênitas (como micropênis), ou para pacientes que tiveram o pênis amputado em razão de traumas ou doenças, como o câncer.

É necessário desconstruir o mito do pau grande, para garantir a satisfação sexual. Uma pesquisa com casais cujos homens sofreram amputação parcial do pênis em decorrência do câncer, revelou que, o interesse sexual, a excitação e o desejo permaneceram intactos e que o relacionamento interpessoal entre o casal, foi pouco afetado, embora a redução da atividade sexual tenha acontecido.

Isso revela que a sexualidade é muito mais ampla do que apenas a relação sexual com penetração e que o tamanho do membro não é determinante para a satisfação sexual geral. Claro que diante da incapacidade de penetração, a resposta sexual masculina sofrerá revezes e precisará de adaptações, mas há casos e casos. Arrisco dizer que algumas obsessões estéticas são capazes de afetar sobremaneira, tornando a relação sexual um verdadeiro martírio.

No entanto, por mais que os profissionais de saúde alertem para a necessidade de desconstrução de ideais estereotipados, como associar o tamanho do pênis a masculinidade, virilidade, competência e destreza sexual, parece que a aprovação a partir do corpo, como uma necessidade de responder de maneira culturalmente apropriada, é um desafio descomunal.

Pouco tem adiantado dizer que o tamanho do membro só vai interferir significativamente nos casos de micropênis, que um pênis avantajado pode é gerar mais medo do que desejo, e que um pênis dentro da média, é mais fácil de administrar, inclusive no sexo anal. Há uma fixação tão bem instalada, sobre o corpo perfeito, que é preciso muita terapia para dissociar a parte do corpo eleita para simbolizar toda a sensação de insuficiência.

Uma publicação de 2019 no Journal of sex & marital Therapy chegou à conclusão de que nas pesquisas que utilizam o autorrelato como metodologia para avaliação de tamanho do pênis, os resultados são significativamente maiores em cm, do que quando os estudos são realizados pela medição dos pesquisadores. Isso significa que os homens, mesmo sabendo a verdade, tendem a exagerar.

Sobre o cantor em questão, foi surpreendente ele ter verbalizado aos 4 ventos que ia passar pelo procedimento, algo incomum e um tanto quanto impensável ouvir de homens anos atrás. Ele, ao que tudo indica, não está preocupado com a maledicência alheia e assume que está curioso com os possíveis resultados. Enfim, o assunto é antigo, mas dar visibilidade a esse tipo de necessidades masculina através da afirmação é, no meu modo de ver, uma maneira positiva de discutir a saúde sexual dos homens.

Esperemos que Tiago fique feliz com o resultado. Corajoso, sem dúvida ele é!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL