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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Dá pra fazer sexo casual com sentimento mas sem expectativa? Ela tentou

É possível, mas difícil, ter amorosidade em relações casuais - Getty Images/iStockphoto
É possível, mas difícil, ter amorosidade em relações casuais Imagem: Getty Images/iStockphoto
Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

15/06/2021 04h00

A Adriana tem 39 anos, é casada, e tinha uma vontade enorme de ter pelo menos uma experiência de sexo casual. Ela conhecia um homem 2 anos mais novo por quem sentia muito tesão e que trabalhava no mesmo prédio. Às vezes conversavam via rede social, e de vez em quando trocavam algumas palavras quando se encontravam no hall ou no elevador.

Segundo Adriana, além de bonito e atraente, ele se demonstrou gentil, muito inteligente e com o tempo algumas conversas eróticas surgiram. Ele estava separado há uns meses. Um dia, depois do trabalho, estavam conversando e ele a convidou para ir até o apartamento dele. Adriana resolveu dizer sim ao seu desejo.

A liberdade de seguir o ímpeto da atração sexual, destacada da relação de compromisso, só chegou às mulheres, como possibilidade social, há pouco tempo. Pode ser desafiador dar conta de todas as expectativas, crenças e medos diante da experiência sexual com um desconhecido, ou quase. O sexo casual sempre existiu, mas não com a abertura dos tempos atuais. Adriana parecia estar indo buscar esse lugar de autonomia, querendo viver o sexo pelo sexo.

Os dois já foram se "pegando" logo de cara, com muita intensidade, pouco carinho por parte dele, e ela não se sentiu à vontade para receber sexo oral. Como essa prática para algumas pessoas é sinônimo de intimidade e entrega, natural que por ser a primeira experiência sexual casual, ela estivesse 'sem jeito'.

Ele gozou depois de uns 10,15 minutos e ela não. Logo depois, apesar da experiência ter sido excitante para ela, segundo Adriana ele percebeu que ela não havia tido orgasmo e, por isso, "congelou". Levantou-se, ficou um tempo no banheiro, voltou sem falar nada, e ficou digitando no celular, a ignorando totalmente. Sem saber muito o que fazer, ela se vestiu, se despediu, e ele mal a esperou sair para fechar a porta do apto, tudo num silêncio, segundo ela "bem constrangedor".

Daí, infelizmente aconteceu o previsto, a maldição feminina: Adriana ficou pensando que talvez tivesse feito algo que o ofendeu. Ou seja, acabou repetindo o velho padrão feminino de ser a responsável pela satisfação alheia, ou de "ter que dar orgasmo para a felicidade do parceiro".

Para quem só queria sexo casual, ela começou a demonstrar como o sexo quer dizer muito mais do que só prazer ou reprodução. Pode ter significados múltiplos, como ser deseja, amada e aceita. Aí é que mora o perigo: como ir para uma relação sexual focada no próprio prazer? E como fazer isso podendo ser gentil e carinhosa? E como não se vincular depois, ou produzir apenas uma relação fraterna com pitadas de erotismo? E o que fazer com o casamento?

Sinto dizer para ela (e para vocês) que não há respostas para essas questões. E quando se vê, normalmente nada sai como o previsto.

Conversaram mais algumas vezes por rede social, mas o assunto não foi muito adiante.

O sexo casual tem dessas coisas. Como as pessoas se sentem "desobrigadas" a manter o relacionamento, algumas vezes se mostram fechadas a ter qualquer tipo de conversa ou intimidade. Mas o corte seco pode ser muito desconfortável e dar essa sensação de objetificação do corpo, que logo após ser usado, se é descartado.

Algumas pessoas relatam que não sabem como demonstrar de outra maneira que aquela relação não terá segundo tempo, nem prorrogação. Como é casual, é casual. Essa linguagem ainda está sendo construída. Eu acho que é totalmente possível ter amorosidade em relações casuais, mas entendo que nem todas as pessoas conseguem praticá-la.

Embora mantivesse um tesão pelo sujeito, Adriana seguiu a vida. Esses dias, no entanto, ficou sabendo que ele estava saindo com uma amiga dela, solteira, e que aconteceu a mesmíssima coisa: gentileza antes, pouco carinho, falta de orgasmo feminino, frieza e silêncio constrangedor depois. Ao escutar a sua própria história, narrada por outra pessoa, Adriana percebeu em si ingenuidade e submissão. Usou termos como "enojada", excluiu o rapaz das suas redes sociais e confessa que tem vontade de se vingar.

Menos, Adriana. Eu sei que o rapaz poderia ser mais carinhoso e cuidadoso, mas acho que você pode estar mais mobilizada pela raiva da rejeição e talvez procurando alguém para culpar por sua falta de sorte.

Sexo casual é assim mesmo, nada garante qualidade, aliás boa parte das vezes a chance de ser ruim é maior do que ser boa. Talvez a sua expectativa fosse viver uma experiência mais intensa e não só ter uma boa transa.

Pelo que entendi, para você era uma situação especial, cheia de adrenalina e transgressão, e você o escolheu para vivenciá-la. Tem aí mais energia mobilizada do que certamente teve para ele. Fique com o palpável: ele é só é ruim de carinho mesmo! E siga adiante!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL