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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Dizer eu te amo é fácil, mas você sabe amar?

A vida sem amor é desértica - iStock
A vida sem amor é desértica Imagem: iStock
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Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

12/06/2021 04h00

Amar é para os corajosos. Eu não digo gostar, ter afeição, mas amar mesmo, como um convite a abandonar um pouco de si e abrir-se ao outro. O exercício mais difícil do amor é compreender as necessidades do outro e convidá-lo a que nos ajude a compreender as nossas, a partir do que a convivência revela sobre nós, dia a dia.

Com frequência, diante dos embates cotidianos, das discordâncias, dos conflitos a comunicação esbarra na tentativa de provar cada um dos pontos afirmados, mais do que entendê-los em sua essência. Engalfinhamo-nos em narrativas de certo e errado, de justificativas para as reações quando alguém toca na nossa vulnerabilidade, seja ela motivada pelo ciúme, medo, controle seja resultado da carência, raiva, vergonha ou vaidade.

Embora isso tenha relação com o amor —afinal na maior parte das vezes somos vulneráveis diante do julgamento de quem nos espelha bem-querer—, a ação de marcar território numa relação, não é amorosa e, sim, ego centrada. A miopia do amor é querer que o outro espelhe a sua imagem idealizada, alguém que você acha que é. O mais curioso, nessa lógica das projeções, é a necessidade de colocar óculos para ver a si mesmo. "Não é esquisito? Só podemos nos ver por fora, mas quase tudo acontece do lado de dentro", escreve Charlie Mackesy em "O menino, a toupeira, a raposa e o cavalo".

Para bem amar, é preciso constantemente olhar para dentro, e poucas pessoas estão dispostas a isso. Constantemente o amor é vivido na superficialidade.

Moreno, pai do psicodrama, já dizia que o verdadeiro encontro entre duas pessoas é menos um espelhamento das necessidades internas e mais uma verdadeira motivação curiosa sobre como o outro é e sobre o que ele sente. Dizia ele: "Aproximar-me-ei de ti e tomarei os teus olhos, para os por no lugar dos meus. E tu tomarás os meus olhos, para os pôr no lugar dos teus. Então, verte-ei pelos teus olhos, e tu ver-me-ás pelos meus".

A relação amorosa é uma incrível experiência de aprendizado e sorte dos que conseguem estimular o melhor da sua parceria. A interação humana revela sentimentos de todas as ordens e não deveria fazer sentido manter uma relação de amor quando não há mais crescimento mútuo.

Amar requer também que você se doe ao outro e abra-se ao que o outro tem a oferecer de si. Uma pesquisa recente —realizada com casais durante a pandemia— constatou que a gratidão diante dos gestos de apoio e gentileza da parceria amorosa foi capaz de tornar as pessoas mais resilientes ao estresse da situação. Então, para amar é preciso não só doar, mas saber receber de forma agradecida. Se há quem não saiba receber, há também quem acredita que os outros lhes devam tudo: afirmação, aceitação, atenção, obediência.

O amor não se presta a sujeições autoritárias, já que ele deve ser vivido em espaço de liberdade e gratuita reciprocidade.

Além disso, o amor não pode ser constantemente racionalizado. Ele precisa de poesia, de uma tarde de sol na varanda, de um café na cama, de pé com pé na hora de dormir. Ele precisa dos registros místicos da astrologia, das coincidências do destino, das frases desenroladas nos bilhetinhos da sorte no biscoito chinês. Ele precisa da música tema, da fotografia, dos apelidos bizarros e carinhosos, das piadas internas.

Por mais que o amor possa também ser expresso pelo projeto maior de se criar uma família e mantê-la com esforço, todos nós gostamos da ideia de termos sido os escolhidos do meio da multidão. Não se trata de buscar o maior amor, o amor eterno, a metade da laranja, mas de ter importância na vida de alguém, por esse alguém ser quem se é, destacado dos papéis de namorada, namorado, esposa, marido, pai ou mãe. Podemos amar a ideia de ter alguém ao nosso lado —até mesmo uma família—, mas são as experiências cotidianas de prazer que farão toda a diferença na realização pessoal de cada um de nós.

Nesse sentido, pessoas solteiras que tenham ótimos vínculos de afeto podem ser tão felizes quanto as que estejam em relações de compromisso. Muitas vezes, até mais.

A vida sem amor é desértica; o cotidiano sem partilha é chato. Muito embora o Dia dos Namorados seja uma data comercial, ela também pode servir para nos fazer lembrar o quão importante é converter o amor em ação. Dizer: "Eu te amo" é fácil; difícil mesmo é fazer amor.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL