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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Dá para salvar a relação quando o parceiro não quer fazer sexo oral?

Mulheres precisam aprender a ser assertivas e ir em busca do prazer sexual - fizkes/Getty Images/iStockphoto
Mulheres precisam aprender a ser assertivas e ir em busca do prazer sexual Imagem: fizkes/Getty Images/iStockphoto
Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

08/06/2021 04h00

Juliana namora há quase cinco anos Fábio, um homem que ela considera "lindo, fofo, carinhoso", com quem tem uma ótima relação e com sexo "bem gostoso". O problema, na visão dela, é que Fábio tem uma supersensibilidade para cheiros e não gosta de fazer sexo oral. Como não se sente incentivada, ela também não faz nele e então os dois seguem fazendo sexo com beijos, abraços, estímulos e penetração, que, segundo ela, são práticas suficientes para lhe dar prazer.

Mas Juliana fica com essa "falta" na cabeça e se debate com três questões. A primeira é o que fazer com a privação dessa experiência de prazer. De fato, um sexo oral realizado com gosto e cuidado é bom, pode ser muito bom e muitas vezes chega a ser incrível.

Homens e mulheres que gostam de receber sexo oral normalmente sentem falta mesmo quando alguém recusa, mas nunca conheci um casal que se dê superbem na vida e no sexo que se separe por causa disso. Se a Juliana quiser muito, terá que abrir a relação para ter sexo oral com outra pessoa, comprar um vibrador que simule uma linguinha no clitóris, ou ainda insistir para que Fábio lhe promova a experiência. Se Juliana for desejante, quem sabe, as três opções, não é mesmo?

Mas para que qualquer uma delas se realize, ela precisará conversar abertamente com o namorado, e aqui entramos na segunda questão. Ela não se sente confortável para adentrar em assuntos que ela acredita podem estar relacionados com o tema, pois Fábio não quer falar sobre "o passado". Sim, parece que o tema esbarra na história dele e, como virou interdito, ela acaba criando fantasias sobre as motivações que o levam a ter dificuldade de falar sobre, chegando a se perguntar se ele não sofreu algum tipo de abuso sexual na infância.

Muitas vezes não é exatamente porque não confiamos na parceria, que mantemos segredos guardados a sete chaves, mas porque expô-los é abrir uma ferida e ficar vulnerável diante da dor, do julgamento e da vergonha. No caso específico do abuso sexual cometido contra meninos, o assunto é um verdadeiro tabu, haja vista que normalmente ele é também praticado por homens e a vergonha da experiência homossexual (mesmo que seja uma prática abusiva) silencia vítimas e suas famílias, em um país ainda tão homofóbico.

Sem contar a crença arraigada de que homens não reclamam sobre sexo, sabem tudo e quando algo "der ruim" devem aguentar sozinhos as pancadas da vida. Neste cenário a experiência de violência é devastadora, solitária e encarcerada. Se essa foi de fato a realidade que Fabio vivenciou, talvez um dia ele conte a Juliana, talvez nunca. Basta mostrar-se aberta para a conversa, sem forçá-lo.

Esqueça essa ideia de que os verdadeiros amores são um livro aberto, pois nem livro aberto, nem amores verdadeiros. Seres humanos são muito complexos e as relações amorosas não dão conta de tudo. A intimidade emocional é uma construção que também pode ter contornos e limites.

O terceiro ponto que achei importante frisar, é que Juliana se irrita, mas se confunde, diante de um discurso reducionista que muitas vezes ela encontra nas redes sobre o homem que não faz sexo oral. Ou é um tipo de "macho-escroto-imbecil" que não está nem aí para o prazer da mulher, ou um "homossexual enrustido". Muito embora ela afirme que Fábio não se enquadra em nenhuma das duas opções, ela confessa que às vezes fica pensando se tem algo errado na relação deles e me pergunta o que penso.

De fato, há pessoas que não fazem sexo oral porque têm nojo. E não é necessariamente um nojo misógino contra a vagina e a vulva, fruto da visão falocêntrica sobre o sexo, mas uma reação emocional primária diante de locais úmidos e molhados. Tem quem, inclusive, ache beijo na boca ou saliva dentro da orelha coisa das mais esquisitas e aversivas. Há também os hipersensíveis a cheiros e as pessoas que são acometidas por dificuldades em entrar em contato com o que pode ser entendido por "sujeira". Então, Juliana, considere que seu namorado pode simplesmente ser meio avesso à prática.

Agora, o que me inquieta é porque você foi longe no devaneio. Há outros comportamentos dele que te incomodam para você associar a recusa do sexo oral a um abuso vivido na infância? Ou a homossexualidade? Ou será que você é só mais uma vítima do machismo internalizado que nos faz estranhar quando um homem tem ressalvas sexuais? Acontece, mesmo com as mulheres mais legais e terapeutizadas do nosso país, pois desconstruir machismo é um trabalho árduo para homens e mulheres.

Sugiro que você se preocupe menos com a "causa", mas foque no problema. Diga ao seu namorado que sente falta de sexo oral e que se a questão é nojo, podem tentar usar um lubrificante com gosto e cheiro a escolher (tem amora, framboesa, menta, chocolate...), ou uma calcinha que tem a parte que cobre a vulva de um látex bem fininho, que é própria para sexo oral protegido! À venda nas melhores casas do ramo.

Se ele continuar resistente, reveja as outras opções que descrevi no texto, mas não deixe de tentar. Mulheres precisam aprender a ser assertivas e ir em busca do prazer sexual.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL