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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Às vezes, só quero que alguém me pegue no colo e diga: 'f*da ser mãe, né?'

A maternidade é uma difícil, mas também deliciosa jornada. - South_agency/Getty Images
A maternidade é uma difícil, mas também deliciosa jornada. Imagem: South_agency/Getty Images
Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

08/05/2021 04h00

Quando meu filho estava com 1 ano e pouco busquei terapia. Eu andava mais ansiosa que de costume e comecei a me apegar a medos e fantasias de tragédias. Passei a olhar, com lentes de aumento, para qualquer coisa que pudesse acontecer de ruim com meu filho. Se eu ouvia uma notícia sobre um acidente, violência ou má sorte do acaso que acometesse alguma criança, aquilo já me apertava o peito.

Pois o profissional, que me foi indicado como muito experiente, logo de cara, na primeira sessão, depois que contei a ele sobre esses temas que me afligiam, me perguntou se o medo, na verdade, não era um desejo inconsciente de fazer meu filho sumir (pela demanda da maternidade). Como psicóloga, eu sabia aonde ele queria chegar. Ele queria dizer que a vida estava mais difícil, que eu deveria estar acometida por sentimentos ambivalentes entre começar a gostar da maternidade e querer minha liberdade de volta. Que poderia haver um desejo lá no âmago, uma raiva, e claro que eu sei, até por ser psicóloga, que essas forças estão dentro de mim também.

Mas ele esqueceu de considerar o entorno, o pertencimento social desenraizado, o sentido de vulnerabilidade individual e coletiva. Também não considerou o natural medo de perder algo muito precioso, a leoa que nasce no psiquismo da maioria das fêmeas humanas. Também não avaliou como eu me sentiria com uma inquisição daquelas. Uma recém-mãe, sendo colocada na parede.

Aliás, quando é que deixamos de ser recém-mães mesmo? Nunca. A cada novo momento de nossos filhos, uma nova mãe tem que nascer.

Sai de lá, com um leve ímpeto de me culpar, por ter, de vez em quando, uma sensação de derrota na minha capacidade de amor materno. Mas, como tenho um faro muitíssimo apurado para abusos emocionais, decidi nunca mais voltar.

Aprendi com a minha mãe, desde cedo, a me defender do julgamento alheio. Quando se separou do meu pai, aos 40 ( há 42 anos), sua independência foi motivo para toda sorte de atitudes e olhares: desde "coitada". até "perdida", "perigosa" e por aí vai. Era certo que algum de nós (eu e meus irmãos), iriamos nos "desviar". Apostas abertas para uma gravidez não planejada - a casa virar um ponto de drogas e afins. No final das contas, nada disso aconteceu. O mundo está cheio de pessoas com falta de noção, de sensibilidade, de acolhimento; o psicólogo era só mais uma dessas pessoas.

Diante da minha vulnerabilidade materna, eu quero é alguém que me pegue no colo e me diga: foda ser mãe, né? Como é maravilhoso e assustador ter esse amor dentro da gente, como vamos da incompetência ao deleite em um piscar de olhos. Eu quero flores, eu quero café na cama, eu quero gentileza. Não por ser uma mãe incrível, mas por ser o mais incrível que eu consigo ser.

Aprendi com a minha mãe que a salvação dos filhos é conviver com uma mulher relativamente sã, que não tenha na maternidade, sua única fonte de alegria na vida. Uma mãe que esteja aberta para criar conexão, intimidade e que suporte não ser uma unanimidade na vida deles e que não tenha culpa por gostar de ter tesão na vida, para além dos cercados limitantes do mundo materno.

Há muito que precisamos desconstruir a maternidade como identitária para as mulheres. É um fardo muito pesado olhar para as teorias médicas, psicológicas e dogmas religiosos, e perceber que em determinado momento passamos a ser as culpadas por tudo o que acontece com nossos herdeiros, como se o espaço de aprendizado e expansão da personalidade fosse tão limitado e dependesse só da gente.

A maternidade é uma difícil, mas também deliciosa jornada, que pode e deve ser acompanhada de perto com os tantos outros personagens da vida da gente. Mais do que ajuda no cuidado e criação dos filhos, mães precisam de leveza, de colo, de conversa franca, de credibilidade e de mão estendida. Amanhã, nós merecemos afeto e parabéns, sim!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL