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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Aos 65 anos, ela resolveu reinventar sua vida sexual

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Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

01/05/2021 04h00

No meu livro "Sexoterapia", eu conto o caso interessante da professora de 65 anos que chegou ao consultório decidida a vencer certas travas e aproveitar melhor a vida sexual com o marido, com quem estava desde os 21. Os dois mantinham uma frequência sexual bastante respeitável para um casamento tão longo e ela gostava de sexo, embora não soubesse dizer se gozava ou não (spoiler: se você não sabe identificar um orgasmo é porque provavelmente nunca teve um).

Entre as dificuldades estava o fato de que ela não tinha coragem de fazer sexo oral no marido ou de tentar posições diferentes. Qualquer coisa que fugisse um pouco a um roteiro escrito lá na lua-de-mel, ela já estranhava. O marido não se queixava da mesmice e parecia amoroso. A vontade de mudar era bastante dela.

Essa mulher trazia muito vivas na memória histórias de como sua sexualidade havia sido podada pelos pais. Ela lembrava de ter sido uma criança muito curiosa a respeito do corpo e de suas reações e de sofrido castigos por isso. Uma surra por ter examinado a vulva da irmã debaixo da escada de casa. Um safanão por insistir em manter as mãos para dentro do lençol e, acima de tudo, lembra de ter sido duramente repreendida pelo pai na primeira vez em que viu um pinto na vida.

O pinto, no caso, era o do próprio pai, que escapulia por uma fenda do pijama feita para que ele pudesse fazer xixi sem ter que tirar toda a roupa. Uma noite, quando o pai se debruçava sobre sua cama para lhe dar um beijo de boa noite, a menina afastou o tecido do pijama com o dedo, abrindo a fresta. O pai ficou irado. Ela, entre assustada pela bronca e fascinada pela descoberta.

Apesar do castigo que recebeu, só pensava na próxima oportunidade de abrir aquela fenda, mas desde então a mãe fechou todos os pijamas abertos do pai com a máquina de costura. Essa mulher lembrava até disso: da mãe dando pontos nas fendas do pijama do pai para que ela nunca mais vislumbrasse um falo desavisado.

A família não era nada religiosa, era apenas rigorosa, severa. Achava que sexualidade era aquela entre adultos sérios e casados, praticada num quarto à noite. Brincar com o corpo, abrir o pijama do pai, pesquisar o que havia debaixo dos próprios lençóis, tudo isso era falta de modos e sem vergonhice. A menina cresceu e logo passou a reproduzir esse pensamento não com filhos, que não teve, mas com seus alunos.

Ela era uma daquelas professoras rigorosas de filme, sempre com uma régua nas mãos. Dava aulas a alunos da alfabetização e não tolerava nenhuma gracinha, muito menos brincadeiras de toque solitário ou nos colegas. Já sua irmã enveredou pelo caminho oposto e, aos 17 anos, fugiu com o cara do caminhão, de quem engravidou pouco antes de ser "largada" por ele (palavra que minha paciente gostava de enfatizar).

Essa mulher não tinha uma palavra positiva para descrever essa irmã. Era a mãe solteira, a transgressora, a que nunca conseguiu um relacionamento estável e pulou de casa em casa. Ao passo que se ressentia da repressão dos pais, ela reproduzia essa mesma repressão num grau ainda mais alto. Se sua mãe costurava as fendas do pijama, ela estava mais para trancar todo mundo em um cinto de castidade.

Sua descrição do sexo do casal seguia um protocolo mais rígido do que os dos nobres de Versailles. Eles primeiro jantavam, ela então oferecia um licor, eles bebiam no sofá. Em dia de licor, o marido sabia que era melhor ir direto para o quarto, sem passagem pela televisão. Eles transavam antes das 21h, que era para ninguém acordar cansado. Sempre as mesmas três posições organizadas em uma sequência fixa e imutável

Se a coisa estivesse animada demais, ela deixava que ele fizesse sexo oral nela, ao que nunca retribuía.

— Mas com o meu amante, eu faço de tudo. Engulo esperma, faço sexo oral, enfio o dedo no cu dele.

Quando ela falou isso, eu quase caí pra trás. Era a mesma mulher? A declaração veio totalmente sem aviso, tanto dessa primeira vez quanto de todas as outras em que ela virava a chave completamente e desatava a falar desse amante e de todas as "loucuras" que faziam.

"O amante em questão era um ex-paquera de adolescência que ela havia reencontrado quatro anos antes, na fila do mercado. Ele tinha ficado viúvo muito cedo e morava sozinho na outra extremidade do bairro. Com ele, essa mulher satisfazia não tanto seus desejos sexuais como sua vontade de se sentir liberada. Eles de fato faziam tudo o que ela me declarou naquele rompante: ela fazia sexo oral nele sem nenhum constrangimento, tentou pela primeira vez o sexo anal e achava o máximo do máximo o fato de ele gostar que ela inserisse o dedo no ânus dele antes de gozar.

Mas pergunte se ela gostava tanto assim de fazer todas essas coisas que enxergava como o cúmulo da safadeza. A verdade é que não. Na prática, não gozava com nenhum dos dois, mas aproveitava melhor as noites com o marido do que aquelas tardes de loucura com o amante. Que é uma coisa bastante comum: pessoas que fazem de um tudo na cama só para se enxergarem como pessoas que fazem de um tudo na cama. Esse "fazer de um tudo" é como uma lista de afazeres, de pontos turísticos a serem visitados. Vem de um lugar de cobrança própria, não de desejo.

No fim, onde está escrito que a mulher que faz sexo anal é mais liberada do que as que não fazem? Ou que aquela que engole o esperma é "sem nojinhos", enquanto a que não engole é travada? Ter vinte parceiros, transar na praia ou suspenso por um guindaste: tudo é válido se vier da vontade e roubada se vier da cobrança, que muitas vezes é própria

Aquela mulher tão rígida achava que podia comprar sua inserção no mundo da sacanagem ticando todos os itens. Não é bem assim, embora não deixe de ser interessante ver o que ela enxergava como "sacanagem".

Essa cisão que ela fez entre "eu com o meu marido" e "eu com o meu amante" foi se expandindo para muitos campos da vida. Tinha horas que ela falava da irmã num tom tão rancoroso, tão julgador por essa irmã ter tido vários namorados sem nunca ter casado. Daí eu retrucava: mas mulher, você vai sair daqui e vai para a casa do seu amante. Ela dava risada, dizia: "verdade, né?, sou muito pior" - e adotava um tom mais liberal. Dali a vinte minutos, voltava a bedel da escola.

Meu trabalho com ela foi no sentido de conciliar esses opostos e ver o que daquelas tardes de loucura seria bom levar para o quarto do marido. Não que a conciliação seja um imperativo: muita gente erotiza justamente essa cisão e vai levar uma vida prazerosa segmentando o sexo entre o casamento e a cerca. Mas não era o caso dela. A função do amante era claramente a de fazê-la se sentir uma mulher liberada. Seu desejo real era ter uma vida sexual legal com o marido e parar de ser bedel do mundo, reconciliando-se tanto com essa mãe castradora quanto com essa irmã contraventora.

No nosso ano e meio de psicoterapia, a gente fez muitos exercícios de conhecimento do próprio corpo e do próprio desejo. Em certa medida, foi como se retomássemos a jornada de investigação que os pais interromperam lá na infância. Também fizemos exercícios com o marido. Rituais podem ser eróticos. A própria repetição pode ser erótica, mas se há vontade, por que não inserir novas etapas? Foi o que fizemos na rotina deles, variando os ambientes da casa, criando novos roteiros que dialogassem com aquele mais antigo. Eu também recomendei que ela procurasse uma massagem tântrica para ajudá-la a descobrir o gozo. No fim, o amante foi para as cucuias. Ela nunca gostou tanto assim, era apenas uma muleta.

Mas talvez a etapa mais importante tenha se dado muito longe de um quarto. Foi quando ela resolveu pegar a mãe, já bem velhinha, a irmã e a sobrinha e levar todas à casa de praia para um fim de semana de imersão com as mulheres da família. No fundo, o que essa mulher fez foi parar de se ver como o juiz da mãe e da irmã e passar a enxergar-se como um meio termo das duas, pegando o que podia ser positivo da experiência e do temperamento de cada uma delas. Foi um caminho muito bonito que, como em tantas histórias clássicas, a levou de volta para casa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL