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Ela foi pega de surpresa ao perceber que podia amar 2 homens ao mesmo tempo

Imagem: Westend61/Getty Images/Westend61
Ana Cristina Canosa Gonçalves

Colunista do UOL

20/10/2020 04h00

Inês conheceu Arthur na aula de dança. Ela é uma mulher extrovertida, alegre, que privilegia momentos de prazer e para quem a dança sempre fora uma expressão da alma. É o momento em que ela deixa de lado todas as obrigações, que afasta os medos, libera as defesas e coloca toda a sua meninice para fora. Ela tem 43 anos e riso solto. Aliás, foi isso que chamou a atenção de Carlos, seu marido, anos atrás.

Ele me conta como ela sempre lhe pareceu uma pessoa iluminada, divertida e bem-humorada, diferente dele, que se julga introvertido e taciturno. Acho interessante como as pessoas "solares", no imaginário social, se sobrepõem as pessoas "nubladas". Sempre parecem mais felizes, o que é uma cilada. Sob a perspectiva das relações interpessoais, lembremos que muita luz pode cegar. Embora Inês não seja exatamente uma mulher que adore babado e confusão, toda a movimentação social da relação é ela quem faz, para o bem e para o mal. A novidade, ela quem traz.

Carlos por sua vez é o sujeito das tradições, da segurança, da orientação. Ela o chama carinhosamente de "fortaleza", como se ele fosse tronco e raiz e ela, folhas e flor.

Arthur tem 35 anos e foi simplesmente arrebatado pela graça de Inês, na aula de dança. Ele é um sujeito engraçado, educado, conversador e boa praça. Um cara que não quer briga com ninguém, mediador nato. Quando se percebeu apaixonado por ela, entre a aula de salsa e a de bolero, passou a sofrer com a incapacidade de conter esse desejo. Começaram uma relação.

Mas Inês não é mulher de se esconder, menos ainda se envergonhar pelo amor. Para ela, o amor é plural, ele transborda. Contou tudo para Carlos, não como alguém que confessa um crime ou um pecado, mas como quem conta uma descoberta científica sensacional.

Ela estava apaixonada, mas ela também amava Carlos e era impossível abrir mão de um deles. Os dois eram homens incríveis, que se somam e deixam a vida dela mais feliz. Para ela, não era uma questão de convencimento de uma teoria sobre o amor não-monogâmico, porque ela nem tinha pensado nisso antes de se deparar com a capacidade expandida do amor.

Não era adepta de relações livres, como um jeito de viver a vida, mas fora pega por uma experiência amorosa diferente. Simplesmente cabiam os dois, contrariando pressupostos românticos de exclusividade que ela mesma carregava em si.

Relações não monogâmicas sempre existiram. De maneira explícita ou velada, muita gente já amou mais de uma pessoa ao mesmo tempo e a maior parte sofreu com a imposição da escolha monogâmica. E geralmente, nesses momentos, não é a avaliação sobre o amor que impera, pois não há como compará-los, mas todo o entorno. A família, os filhos, o ambiente social, a divisão de bens.

O casamento é uma instituição, não nos esqueçamos disso. Sobre o amor, restam as interrogações. Se somos capazes de amar 2 ou 3 filhos, com intensidade assemelhada, mesmo que tenhamos mais identificação com um ou outro, não seria possível amar mais de um homem ou de uma mulher?

Rola ciúme, desavença, sentimento de exclusão, mas até nas famílias mais numerosas, a fraternidade é capaz de reinar e dar conta da selvageria de quem luta pela sobrevivência. Se somos capazes de amar mais de um amigo e com cada um dividir experiências diferentes, não daríamos conta de fazer o mesmo com parcerias eróticas?

Pode parecer estranho, para quem não conheceu Carlos, que ele não tenha se surpreendido tanto com a declaração de Inês. Era como se ele soubesse que, mais dia, menos dia, isso fosse acontecer, o que tinha menos relação com seus traços de personalidade, muito mais por conhecer sua esposa profundamente. Me contou que um lado dele conseguia estar feliz por ela, enquanto o outro estava profundamente arrasado pelo medo de perdê-la.

Mas há um detalhe na história de Carlos que decidimos juntos partilhar nesse texto. Sua mãe era uma mulher aguerrida, uma grande ativista pelos direitos humanos, principalmente das mulheres e de algumas minorias. Cresceu observando a mãe clamar por justiça social e igualdades de direitos, acolher mulheres em situação de violência doméstica.

A casa deles era o QG para reuniões e porto seguro para pessoas de outros estados, que chegavam e ficavam por lá às vezes dias, às vezes meses. Ele se acostumara a viver com a universalidade do amor da mãe e já tinha passado pelo processo de aceitação de ser mais um dos seus amores, talvez não o mais importante, se é que havia alguma escala dentro da alma dela —mas, certamente, o mais profundo.

A mãe nunca o negligenciou e tinha com ele e a irmã uma conexão íntima, já que ela permitia que os dois tivessem acesso aos seus medos e anseios. Embora desde cedo tenha que ter dividido a atenção da mãe, por outro lado, saber que ela era uma mulher potente, respeitada, amada e admirada por muitos o enchia de orgulho. Então, a necessidade de Inês ser livre para amar não era novidade na vida dele.

Inês e Carlos decidiram enfrentar juntos uma nova maneira de se relacionarem, acomodando Arthur na relação. Por enquanto ela tem liberdade de namorá-lo, cuidando para garantir que as necessidades do casal sejam atendidas pelos dois.

Ela aproveita para esticar as aulas de dança na casa de Arthur, onde namoram e partilham momentos de prazer, conversando sobre a vida e construindo uma história com algumas limitações. Não sabemos se essa hierarquia que ainda existe na formação dos casais que vivem o poliamor, unidos ao vértice de uma única mesma pessoa, haverá de se dissolver, afinal não há como negar que por mais que Carlos se esforce em aceitar o amor dos dois, claramente ele leva vantagem por ter sido o primeiro, por ser o marido e coabitar com ela.

Ele não renuncia aos finais de semana e não consegue lidar bem com a ideia de ela não voltar para casa de madrugada, como se agarrar-se a algumas convenções lhe garantissem algum sossego emocional. Afinal, ele é raiz e tronco.

É como diz Nilton Bonder em "A alma imoral": o maior desafio da pessoa humana é mediar tradição e transgressão, pois quem só vive pela transgressão corre o risco de ser perverso, mas quem só vive pela tradição, sem reflexão, acaba ficando tolo.

Resta ouvir de Arthur, o mediador nato, como se sente compondo a paisagem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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