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Sou gay, tenho dificuldade de ereção e só gozo assistindo a pornôs

Sexo gay - Getty Images/iStockphoto
Sexo gay Imagem: Getty Images/iStockphoto
Ana Cristina Canosa Gonçalves

Ana Cristina Canosa Gonçalves

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Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista do UOL

08/10/2020 04h00

Pergunta do leitor: Ana sou gay, não assumido, tenho encontro com vários homens, pelo aplicativo do grindr, saio com eles, eu amo sexo, sou versátil-passivo, curto fazer uma troca com versátil-ativo, mas geralmente não consigo ficar duro pro oral e penetração, e não consigo gozar ao final da transa. Só tenho ereção e gozo quando assisto um pornô. Estou pensando em usar um estimulante sexual (Viagra ou algo natural); acho muito frustrante não conseguir penetrar. Eu tenho algum bloqueio? Obrigado, amo sua coluna.

Primeiro eu quero agradecer o carinho. Fico feliz que goste da coluna e espero lhe ajudar a refletir sobre suas dificuldades.

Conceitos de atividade e passividade são relativos. Sei que essa convenção sexual em relações homossexuais (penetrar-ativo, ser penetrado-passivo e versátil, os dois) pode servir para ajudar na formação dos pares para o sexo, principalmente em se tratando de sexo casual. Por outro lado, pode também revelar condição de poder e submissão, implícitos no jogo sexual, atravessadas pelas convenções sociais. Mulheres, sob o ponto de vista fisiológico do sexo penetrativo, são "passivas" e olha só o caminhão de interdições que os "ativos" nos impuseram, não só no sexo, mas na vida. Sabemos também o quanto homens gays são frequentemente comparados às mulheres, diminuídos, subestimados, ironizados. Nesse sentido, ser "ativo" no mundo gay pode também gerar alguma força protetiva e de defesa do ego, que garante uma certa posição na hierarquia social. Eu sei que pode parecer um contrassenso, já que a luta é pela igualdade e liberdade, mas eu lhe garanto que o nosso inconsciente nos prega peças o tempo todo. É como se ser ativo, no mundo gay, significasse "ser menos gay" e, portanto, se aproximar do lugar de privilégio do homem cis, branco e heterossexual. Como você diz que não é "assumido", talvez lhe falte empoderamento nessa condição.

Sabe, uma vez um paciente querido, ativo, me contou que havia feito sexo com o passivo "mais ativo" que ele encontrou na vida dele e que ele tinha ficado espantado, quase perdeu a concentração - e a ereção. Como ele não gosta de ser penetrado e acha que sexo anal pode doer, sempre toma o maior cuidado para que a prática não seja desagradável para o parceiro passivo. Pois nesse dia, ele estava lá indo devagarzinho, quando o crush começou a rebolar, fazer movimentos de vai-e-vem, assumiu toda a liderança da transa e ele ficou boquiaberto. Ficou todo "passivo", assistindo o parceiro dar o ritmo do sexo. Veja que conceitos de atividade e passividade no final das contas são bem circunstanciais. Nas relações heterossexuais não é diferente. Quantas mulheres são super ativas na relação sexual, inibindo alguns homens e alegrando outros.

Tudo isso para te dizer que talvez, suas dificuldades em ter ereção e gozar podem ter relação com esse jogo de significados x práticas de prazer. Lembre-se de que somos todos influenciados por uma narrativa sexual de performance que atrapalha nos alinharmos com os próprios desejos, então, para além de questionar o quanto de fato existe essa versatilidade toda nas suas práticas sexuais que envolvem penetração, sugiro se questionar o que implica para você ser ativo e por que não está conseguindo se dar esse prazer. Será que é por causa da falta de intimidade com o parceiro? Encontros de sexo casual podem ser interessantes, divertidos, mas também dificultar conexão e foco nas sensações; fica cada qual vivendo seus próprios desejos, fantasias, expectativas e preocupações com performance.

Pode ser que você esteja se comparando demais com sua atuação diante dos seus parceiros, e isso passa pelo tamanho do pênis, a gostosura dos corpos, a capacidade de estar ereto e o tempo da penetração. Um controle excessivo da ejaculação, para prolongar a penetração, pode prejudicar o orgasmo. Alguns homens se fixam tanto no controle, que acabam perdendo o timing, cansam e não gozam.

Outra questão que você levanta é a possível influência da pornografia na sua resposta sexual, que parece estar condicionada à visualização das imagens e o sistema de gratificação sexual quase instantâneo que elas provocam. Também lembremos que no ambiente privado assistindo a filmes, você tem mais liberdade e menor preocupação de ser julgado pelo outro, sua fantasia sexual fica mais solta e você não tem que se preocupar em agradar o outro; diante de um novo parceiro sem intimidade, você deve ser tomado pelo que chamamos de ansiedade antecipatória: quem é, qual o corpo, como será o sexo, se você conseguirá ou não ter ereção, controlar ejaculação, recriar as cenas sexuais que você mais gosta e que vê no pornô. Todas essas expectativas podem tirar sua atenção sobre as sensações na hora do sexo. Às vezes, como seu corpo está acostumado com os filmes que são mais curtos, o tempo do contexto real pode dificultar a sua ereção. Se você achar por bem, sugiro abandonar a pornografia por um tempo (mesmo que isso signifique afastar-se da masturbação e do sexo para um período de detox) e avaliar se há mudança na sua resposta sexual. No caso de ter sintomas de abstinência, busque ajuda profissional.

Minha preocupação com o uso de drogas pró-sexuais no seu caso é você ficar dependente delas, sem compreender as motivações da perda de ereção. Já acompanhei homens totalmente saudáveis que começaram assim, jovens, para garantir uma transa e acabaram incorporando o remédio em todas as relações, por anos a fio, o que lhes alimentou o fantasma emocional da impotência, afinal continuam em dúvida se são capazes ou não de ter uma ereção espontânea.

De qualquer modo, sugiro que você procure um urologista para avaliar a qualidade da sua ereção, investigar a sua latência ejaculatória, discutir sobre uso de medicação, refletir se você tem um perfil mais ansioso e se há necessidade de um trabalho mais focado nos aspectos emocionais da sua sexualidade, com um psicólogo que seja terapeuta sexual. Uma consulta com um profissional da fisioterapia pélvica pode avaliar se você precisa aprender a relaxar os músculos pélvicos envolvidos na resposta sexual.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.