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Como acabar com um amor que, na realidade, nunca foi consumado?

coração partido - portishead1/iStock
coração partido Imagem: portishead1/iStock
Ana Cristina Canosa Gonçalves

Ana Cristina Canosa Gonçalves

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Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista do UOL

13/10/2020 04h00

Como todo mundo que vive o fim de um relacionamento, Miguel se sente sozinho, triste e confuso. Alterna entre devastado e animado, pois foi ele mesmo que decidiu colocar um ponto final na história que cultivou durante os 2 últimos anos da sua vida, mas que tem lhe tirado o sono e lhe rendeu um período de depressão no último mês.

Mudar o rumo da sua vida foi a maneira que ele encontrou para dar uma nova chance a si mesmo, recriar contextos, quem sabe conhecer outro alguém no futuro, se libertar. Não que a relação com Fernanda fosse difícil, problemática ou sem graça, ao contrário, foi a vivência mais positiva e íntima que ele já conheceu.

Era ela é a pessoa que lhe compreendia, que cuidava dele, que conhecia seu estado de humor pelo tempo que ele demorava para responder "Bom dia" pela manhã. É com ela que ele conversa sobre arte, cultura, entretenimento e trabalho. Ele viu o amor crescer dentro dele, devagarinho, nos pequenos detalhes que partilhavam juntos, na necessidade de lhe contar sobre as coisas mais mundanas ou refletir sobre os complexos esquemas emocionais que envolvem gênero, família ou religião.

O amor era o único tema proibido entre eles. Exceto por isso, Miguel e Fernanda falavam de tudo e estabeleceram uma cumplicidade sem precedentes, ao menos na vida dele. Aliás, foi exatamente a dúvida do que ele significa na vida dela, que fez Miguel esquadrinhar seus processos emocionais atrás de algum sinal seu de loucura. Interpretar as entrelinhas da expressão de Fernanda atrás de evidências de amor virou o ponto chave do seu autoconceito e da sua sanidade.

Um sábado desses, passaram a noite trocando mensagens, conversando sobre a vida com tanto entusiasmo, que, no dia seguinte, Miguel sentia como se tivesse feito sexo com Fernanda, embora estivessem a quilómetros de distância e não tivessem sequer trocado uma palavra sexual, outro tema perigoso entre eles.

Miguel é são, tenho que reafirmar, mas só compreende essa sutileza emocional quem vive uma relação pelo seu significado. O que ele sentiu foi algo que pode ser comparado a alguém que escuta a "voz de Deus" dentro de si, sem manifestações esotéricas complexas, só como a certeza de ter interiorizado o outro com tanta naturalidade e força. Mas Miguel é um homem de 34 anos, cheio de vida, que adora o contato com as pessoas, que gosta de namorar e fazer sexo, mas que foi tomado pela força da crença no que é subjetivo, não palpável e não dito.

A relação amorosa dos dois, nunca aconteceu. Não deram um beijo sequer.

Fernanda era chefe de Miguel, o que o colocava em uma situação vulnerável. Como chegar para a chefe e dizer: "Estou apaixonado por você"? Isso certamente abalaria a relação dos dois e colocaria a questão profissional em jogo. Como se não bastasse, ela é casada e adepta de uma religião que prima fortemente pela indissolubilidade do casamento, o que colocava em xeque princípios éticos dele. Eles tinham todos os motivos morais para não declarar o amor que sentem e todos os motivos humanos para se entregarem aos braços um do outro.

O amor é um sentimento complexo e difícil de explicar. É mais entendido pelas artes do que pela ciência. Teorizar sobre o amor ajuda a compreender um grupo de emoções e sentidos, mas isso por si só não traz sossego emocional a quem sente o amor pulsar dentro de si. Dos quatro comportamentos que se diz contribuir para que o amor seja constantemente cuidado para fortalecer os laços entre as pessoas, Miguel os tinha todos com Fernanda: cuidar, se importar, compartilhar e cooperar, o que tornou a decisão por abrir mão da relação algo ainda mais difícil a fazer.

Não era somente um uma paixão proibida, como a de Romeu e Julieta, que durou só quatro dias - período durante o qual se conheceram, fizeram sexo, se casaram e morreram. Era o amor construído, de Sherazade e o Rei Shariar, aquele que se consolida e cativa através da narrativa, do dia-a-dia, e vai vencendo o fantasma da morte eminente dos estados da paixão.

Absorvido pelo trabalho, pela relação com Fernanda e tentando resolver a própria covardia, Miguel decidiu buscar outra oportunidade profissional, na tentativa de se afastar de vez. Aproveitou para mudar de casa, como se estivesse vivendo um divórcio e precisasse fazer as malas. Pediu demissão para Fernanda, que já vinha percebendo seu abatimento emocional. Mesmo que não tenham colocado o amor erótico nos tópicos da conversa, ele esteve lá, na dor que ambos confessaram ter, pelo afastamento necessário. Foi o momento mais difícil, o mais triste, que pegou os colegas de surpresa.

Hoje, Miguel segue lambendo as feridas e vivendo o luto da separação. Fez uma escolha difícil, pois, ao mesmo tempo em que precisa de uma companheira que lhe permita amalgamar-se ao corpo, na satisfação dos seus desejos, precisa abrir mão do amor impossível, defendido pela não consumação e alimentado pela crença do que poderia vir a ser. Porque o amor também é vivido na contemplação. Renunciar a ele é deparar-se com o vazio declarado da existência. O que me sensibiliza em Miguel é que, muito embora ainda sonhe com o momento da revelação, decidiu por fazer seu o próprio milagre. Amores sagrados são assim mesmo.







** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.