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Ele perdeu a ereção em uma transa no banheiro e ela não soube perdoar

Imagem: Getty Images
Ana Cristina Canosa Gonçalves

Colunista do UOL

22/09/2020 12h55

Numa quarta-feira, às 10h da manhã, Bianca foi tomar seu banho e "para variar", como ela me diz, Ricardo estava no chuveiro dela. Existem três banheiros na casa, convencionados pelo cotidiano, um para cada pessoa da família. Mas ele teimava em tomar banho no dela, por achar melhor. Como naquele dia ela estava bem-humorada, guardou a reclamação sobre a invasão e decidiu apropriar-se do território de maneira, digamos, inteligente.

Fez uma rápida avaliação da situação: a filha fazendo home scholling na parte de baixo do sobrado e uma funcionária dando andamento aos trabalhos da casa. Fazia um tempo que não faziam sexo no chuveiro, muito menos às 10h da manhã, nem numa quarta-feira. Com a pandemia, a presença 24 horas da filha limitou a liberdade sexual dos dois. Sim, houve uma queda na frequência sexual e uma certa desregulação nos horários de lazer e intimidade.

Bianca andava inquieta, com a falta de interesse dele por sexo. Ela imaginou que ele estivesse se masturbando durante a madrugada, assistindo a filmes pornôs com mulheres mais gostosas ou práticas sexuais menos convencionais.

Ricardo sempre fora um cara noturno, que só tem sono às 3h, enquanto ela era o oposto: dormia com as galinhas e acordava cantarolando com os sabiás. De vez em quando ele se aproximava dela durante a madrugada, na esperança de que ela deixasse esse sexo cotidiano meio preguiçozinho acontecer: sem grandes performances, nem arroubos apaixonados.

Como estão juntos há 12 anos, já sabem bem como fazer para que garantam orgasmos e possam virar para o lado e dormir de conchinha. Mas nem sempre o approach dava certo: houve dias que Bianca deu-lhe cotoveladas de me deixa em paz, "só tenho mais 3 horas para dormir", e ele que lidasse com o tesão recolhido da forma que lhe conviesse.

Compensavam com o sexo pela manhã, no início da relação, quando a filha estava na aula de dança e nos finais de semana, com mais calma e criatividade, enquanto ela brincava na casa de alguém.

Mas nos últimos meses, era só a encoxada da madrugada que estava rolando naquela casa e, mesmo assim, raramente. Ela tinha tentado deitar-se ao seu lado, em algumas manhãs, enquanto a filha se entretinha com alguma lição escolar, mas Ricardo sempre acordava atrasado para o trabalho.

Algumas fantasias a estavam atormentando: será que ela estava ficando velha e pelancuda? A pandemia só fez acentuar seus pentelhos brancos, sua celulite, a flacidez das coxas e da bunda que não viam uma aula de musculação desde o começo do isolamento social. Ela arrumou motivos suficientes para acreditar que o problema do sexo estava tomando o casamento.

Por isso mesmo que a ideia de entrar no chuveiro naquele momento lhe pareceu providencial. Entrou no banheiro, despiu-se, adentrou o box como se nada fosse, e começou a lhe lançar um sorrisinho. Eles então começaram a se abraçar deixando a água morna evolver-lhes os corpos e passaram a iniciar o ritual sexual. Tudo estava indo bem, até o momento que mudaram de posição e ela foi percebendo que a ereção de Ricardo estava desanimando. Tentou manejar a situação dando-lhe um incentivo extra com o sexo oral, mas foi em vão: nem assim ressuscitaram-lhe a excitação.

Embora ela saiba que todos, homens e mulheres, estão afeitos a uma bela brochada e que nesse sentido, os homens sofrem mais pela exposição da situação, que não há como negar ou fingir, ela se sentiu tão ofendida que recusou qualquer tentativa apaziguadora, como a retribuição do sexo oral para lhe dar prazer. Teve literalmente um chilique.

Saiu fula do banheiro, dizendo que ele não a desejava mais, que alguma coisa estava acontecendo, que não era pela falta da ereção em si, daquele episódio, mas pelo conjunto da obra.

A falta de interesse, o sexo que só acontece às 3h da manhã quando o corpo dele está movido pela espontaneidade do desejo, a falta de elogio, de sedução, de graça. Ricardo ficou entre constrangido e atônito, disse que ela estava "viajando", que ele estava era cansado e cheio de problemas na cabeça e que Bianca estava sendo ridícula - a palavra-chave para ela enfurecer de vez.

Dois dias depois, como se não bastasse, Ricardo repetiu o approach da madrugada, que, é claro, foi recebido com uma cotovelada no queixo. Ao final de uma semana agindo como dois estranhos, decidiram conversar.

A maneira como ambos lidam com o prazer e o desejo, nas diversas dimensões da vida, precisava ser revista.

Enquanto Bianca aproveita cada minuto da isolamento em casa para produzir, aumentando sua estima profissional, o que lhe dá um tesão danado, Ricardo sente falta do movimento habitual que os amigos promovem em sua vida, a sua reserva de felicidade para além da mulher e dos filhos, já que o trabalho só lhe traz dor de cabeça.

É claro que ele anda inapetente com a vida e impotente com o futuro e que os 12 anos de casamento e os 56 anos de vida já lhe pesam sobre a resposta sexual. Mas a questão, do ponto de vista dela, é que o sexo sempre os conectou, o que não acontece em outros campos da relação. Ficar sem ele é uma ameaça ao equilíbrio da relação.

Aceitar a ausência de um pênis ereto para legitimar o desejo de ser desejada por um homem é o grande desafio das mulheres heterossexuais quando seus parceiros começam a falhar. Não é só uma questão social, de uma cultura falocêntrica, mas também um dado fisiológico, que pode trazer um impacto real na sexualidade de um casal.

Nada que não possa ser resolvido com medicações e afins, mas é o modo de pensar o sexo que precisa ser adaptado e revisto. No caso de Ricardo e Bianca, fizeram sexo após a conversa, o que serviu para baixar-lhes a guarda e provarem que continuam interessados um no outro. Ao menos até a próxima vez que isso acontecer.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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