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Eu gosto de sexo, mas não me acho sensual; preciso mudar?

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Imagem: Getty Images
Ana Cristina Canosa Gonçalves

Ana Cristina Canosa Gonçalves

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Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista do UOL

17/09/2020 04h00

"Gostaria de entender por que eu não me sinto sensual, embora goste de sexo. Muitas vezes penso: e se alguém me ver fazendo isso, que coisa ridícula!"

Muito provavelmente você está acometida pelo medo do julgamento, seja da parceria ou do seu próprio -é bem possível que seja dos dois. Eu digo que somos viciados no olhar do outro; afinal é através dele que nos constituímos como pessoas.

O bebê sabe sobre si mesmo a partir do que dizem dele, das caras e bocas, do reforço positivo ou negativo de suas ações. A criança vai se percebendo na relação com a família, os amigos e a sociedade, testando comportamentos para ganhar afeição. Boa parte de nós quer agradar, ser especial, exclusivo, uma unanimidade na vida dos outros.

Incorporar regras, normas, o certo e o errado, o bom e o mau, o que se deve ou não fazer para ser uma boa pessoa, é um processo psíquico importante. Por outro lado, a vida não é tão binária assim, entre o certo e o errado está um talvez que pode ser transformado em uma ação diferente, um caminho do meio, que nem sirva narcisicamente ao seu desejo, nem cegamente à sociedade.

Famílias mais rígidas tendem a ser muito críticas e julgadoras das ações alheias, o que pode ser incorporado pelos filhos em forma de julgamento moral interior. É como se tivesse uma voz interna que diz: isso é ridículo, você não é sexy o suficiente.

Às vezes essa voz interna é a voz da mãe, do pai, da avó, de Deus. Em se tratando de sexualidade, também incorporamos padrões familiares e para cada crença que você tem sobre a sua persona sexual (não ser sexy, ser estabanada, ser puta, ser casta demais) é preciso fazer uma busca nas suas memórias afetivas, para ver possíveis heranças.

Uma irmã linda que ocupou a vaga da maravilhosa ou uma rebelde sem causa, que fez do sexo a bandeira para transgredir, então só lhe restou mesmo ser inteligente ou boazinha. E boazinhas normalmente não são reforçadas positivamente pela sua avidez sexual. Resumindo: reveja o padrão de julgamento interiorizado para ver que tipo de papel assumiu como mulher, diante da relação familiar.

Mas para além da família, temos também o julgamento social, que é o tempo todo realimentado pelos dispositivos midiáticos e todas as outras narrativas sobre o que é ser uma pessoa sexy. Faz uma pesquisa simples na internet com o descritivo: pessoa sexy e você verá um padrão óbvio de caras, bocas e corpos.

Você pode até tentar reproduzir um bocão entreaberto, mas a disposição para se achar sexy passará por esse crivo internalizado. Quanto mais o seu espelho reproduzir uma imagem que você enxerga como negativa, provavelmente você não estará livre para se sentir linda e sexy, sem bocão.

Mulheres aprenderam que devem ser desejadas pelo corpo e pela capacidade de serem sedutoras para os homens. Conflitos de auto-imagem corporal são os que mais atrapalham uma mulher ser sexualmente livre e feliz.

Talvez você esteja, como todas nós, atravessada por esse corpo idealizado que merece ser considerado sexy e, como boa parte da população, insatisfeita com o seu próprio corpo justamente por estar movida pela comparação.

Mas eu também quero chamar a atenção para a intimidade sexual que é dividida com outra pessoa: despidas de roupas e na interação com as sensações de excitação, podemos ser bem esquisitas. As pessoas, de modo geral, não são sensuais como o padrão.

Franzem as sobrancelhas parecendo que estão com dor e não com prazer, cansam das posições, arqueiam os pés quando estão gozando. A maioria não morde o lábio inferior ou cavalga sobre um corpo com aquela languidez de filme pornô.

Quando estamos no cotidiano, podemos nos esconder atrás de roupas, posturas e imagens; no sexo, se nos entregarmos, os outros saberão de nossos corpos e desejos mais secretos, alguns que temos vergonha de contar.

Pior quando envolve afeto: quanto mais você gosta de alguém, mais medo tem de ser avaliada e perder a importância na vida do outro. E mulheres foram treinadas para não desagradar e para considerar em demasia o prazer alheio.

O medo da avaliação sobre a vulnerabilidade sexual diante do outro pode ser aterrorizante, fazendo com que a pessoa se prenda mais à performance do que se entregue ao prazer. Combata fortemente esse aprisionamento e se solte.

Quer que Ana Canosa analise sua dúvida em sua coluna? Mande perguntas para universa@uol.com.br com o assunto #sexoterapia. Mantemos o anonimato.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.