PUBLICIDADE

Topo

Transo com minha mulher, mas cena entre homem e travesti me excita; sou bi?

Getty Images
Imagem: Getty Images
Ana Cristina Canosa Gonçalves

Ana Cristina Canosa Gonçalves

https://universa.uol.com.br/colunas/ana-canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista do UOL

10/09/2020 04h00

Pergunta do leitor: Eu não tenho problemas em fazer sexo com minha mulher, mas me excito muito vendo imagens de sexo entre homens e travestis; sou bissexual?

Talvez. É importante dizer que seria melhor entender o contexto dessa excitação. É comum que pessoas dependentes de pornografia, por exemplo, comecem a buscar temas que a princípio não eram de seus interesses eróticos. Como a necessidade de excitação diante dos vídeos passa a ser compulsiva, estímulos parecidos e conhecidos podem não saciar. Nesses casos, a interação com as cenas sexuais deixa de ser exclusivamente motivada pela atração sexual.

Mas se essa não é a questão, pode ser que você, como algumas pessoas, tenha mais flexibilidade em sua excitação visual, mas que isso não se reflita em um desejo concreto e atração no cotidiano por pessoas de gêneros diversos. A atração visual é comum e muito natural.

O sexo entre homens pode motivar um tipo de admiração por haver uma projeção no corpo do outro, além de reforçar toda a "virilidade" presente na cena, que explora normalmente um sexo bastante genitalizado, penetrativo. Essa teoria, da identificação com os corpos e práticas sexuais, também é aplicada no fenômeno já conhecido e estudado em mulheres heterossexuais, que costumam se excitar ao ver duas mulheres fazendo sexo, mas não necessariamente se sentem atraídas por iguais no cotidiano.

Já que boa parte dos filmes de sexo entre mulheres disponível nas internet esbanja beijos e carícias, esse jeito de fazer sexo é o que atrairia e excitaria as mulheres, mais do que o conhecido e manjado bate-estaca da penetração envolvido nos filmes heterossexuais.

Além disso, a interação afetiva entre mulheres é muito mais aceita socialmente do que entre homens, que são desde cedo desencorajados a trocar contato físico entre iguais, que não seja através da luta ou do esporte. Sendo assim, só com a construção de novas masculinidades se torna possível, inclusive, pesquisar e revelar essa plasticidade também nos homens.

Por isso é tão difícil discutir a bissexualidade masculina, porque ao afastar os homens da heteronormatividade, uma vulnerabilidade se abre, como se fatores agregados ao gênero masculino, como poder, força e coragem passassem automaticamente a serem questionados pela sociedade.

Boa parte dos homens com algum tipo de atração sexual por iguais são diminuídos e ridicularizados, como se essa atração os tornassem não-homens, questionados por não cumprir determinadas expectativas heteronormativas. Mas é fato que sim, o contato afetivo-sexual entre homens que não se definem homossexuais existe.

Como no caso dos Goys, que se definem como heterossexuais, mas que se permitem a trocar carinhos, beijos, masturbação e sexo oral, desde que a penetração seja realizada só com mulheres. Ou talvez os adeptos do bromance, carinhos e pegações permitidas entre homens, nas quais a ligação afetiva é que é privilegiada.

Se há uma dose de bissexualidade nesses casos, seria preciso uma investigação mais individualizada para entender como a atração sexual por pessoas do mesmo sexo e do outro sexo se dá, sem a carga moral de pré-conceito internalizado até por eles mesmo.

A bissexualidade sempre foi questionada, vista como uma saída para quem não é capaz de se admitir homossexual. Bissexuais ainda são encarados "sob suspeita", discriminados e estigmatizados, muitas vezes pelos próprios pesquisadores ou profissionais.

No entanto, recente estudo conduzido pela Northwestern University em Evanston, nos Estados Unidos, chegou a conclusão que a orientação sexual masculina abrange uma gama de heterossexuais a bissexuais e gays. O estudo se apoia na teoria de Alfred Kinsey, que entende que tanto a orientação sexual (desejo/atração sexual) quanto a identidade de gênero (como a pessoa "se sente") e o papel de gênero (como ela expressa masculinidade ou feminilidade) existem em um continuum, variando de condições estritas em um polo ou outro.

Isso significa, por exemplo, que uma pessoa pode se considerar 100% hétero e outra predominantemente hétero, com episódios de interesse por pessoas do mesmo sexo, outra ainda completamente bissexual, e assim também acontece com o lado da escala da orientação homoafetiva.

Kinsey não havia incorporado, nos idos de 1948, a pansexualidade, que seria a atração por pessoas, independentemente do seu gênero, como se autodefiniu recentemente o ator Reynaldo Gianecchini. Essa "categoria" de atração sexual inclui pessoas transgênero, sejam transexuais, travestis, crossdressers, etc, e também pessoas sem gênero definido.

Consideram-se problemas derivados da orientação sexual quando há sofrimento emocional para a pessoa. Portanto, se você tem atração sexual por sua companheira e está satisfeito com isso e além de tudo também fica excitado com cenas de homens ou pessoas trans fazendo sexo, aproveite. Você pode ser bi, ser pan ou ser somente um heterossexual do tipo flex.

Quer que Ana Canosa analise sua dúvida em sua coluna? Mande perguntas para universa@uol.com.br com o assunto #sexoterapia. Mantemos o anonimato.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.