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Ana Canosa

Eles seriam o casal perfeito... Se não tivessem terminado há um ano

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Ana Canosa Ana Cristina Canosa Gonçalves

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Ana Cristina Canosa Gonçalves

Colunista do UOL

18/08/2020 04h00

Quando Geraldo liga para Camila angustiado, querendo uma opinião sobre algo, ele sabe que pode contar com uma cuidadosa observação. Ela vai falar a verdade, (a verdade dela, claro), apontar as dificuldades, ponderar os porquês e sugerir caminhos e soluções. Camila também faz isso quando Geraldo não pede, mais precisamente quando ela está incomodada com ele - as relações humanas são assim mesmo, é difícil ter do outro somente uma versão guiada pelos desejos individuais.

Naquele dia, suas observações sobre o comportamento no trabalho fizeram tanto sentido, que ele reafirmou o seu amor por ela, dizendo que Camila é a melhor amiga que ele tem na vida e finalizando com um sonoro e gostoso "eu te amo". Combinaram de se encontrarem à noite. Geraldo estava mais carinhoso do que nunca e tiveram uma noite regada a muita intimidade emocional e sexual. Não fosse o fato de eles não serem mais namorados há 1 ano, o reconhecimento do amor serviria para reafirmar a importância da escolha amorosa.

Mas, para eles, que vivem na corda bamba do compromisso romântico, esse é mais um daqueles momentos em que Camila espera finalmente que Geraldo resolva reatar o relacionamento. Afinal, no final de semana passado, eles foram juntos visitar um irmão dela, uma demonstração clara da disponibilidade dele, já que na época do namoro ela reclamava da má vontade dele em participar dos eventos familiares da então namorada. Chegaram a passear pelo condomínio fazendo conjecturas sobre como seria interessante morarem lá.

Também há quase 1 ano que eu acompanho Camila na tentativa de se desvencilhar dessa relação, mas é sempre assim: toda vez que ela se afasta, ele aparece, deixando a possibilidade do retorno quase explícita. Ela passa horas tentando traduzir as suas palavras e checa comigo a intenção dele sobre o que quis ou não dizer. Como quando ele mandou uma mensagem falando que estava com saudades e que às vezes pensava que morar junto com ela seria a solução...para depois de 5 minutos mandar um "se empolga, não". Noutro dia, quando ela estava mais segura de que o afastamento precisava acontecer para se livrar desse enredamento emocional, ele manda, do nada, uma notícia sobre um casamento surpresa que amigos haviam preparado para os noivos, que haviam adiado a cerimônia.

Embora o meu trabalho esteja focado em ajudar que ela compreenda suas emoções e não as dele, confesso que tem horas que eu preciso respirar fundo para não transparecer o incômodo de testemunhar o tamanho da manipulação emocional. Eu tomo o maior cuidado da vida para não ser parcial, olhar para o todo e não julgar: meu foco está na dinâmica que a pessoa estabelece, mas eu não sou de ferro. Eu fico com aquele olhar do tipo: "você está entendendo né, querida? Vamos fazer o quê com essa realidade aí?"

É claro que não tem só ele nessa história. Óbvio. É uma dinâmica retroalimentada. Tenho certeza que a terapeuta dele, lá do outro lado, está com a mesma impressão do lado de cá. Ela alimenta essa relação, assumindo o lugar da mulher que luta para ser finalmente escolhida. Um papel aprendido, que encontra ressonância na história da própria família. A mãe de Camila vive perseguida pelo fantasma da infidelidade do marido, pai dela. As possibilidades de traição que aconteceram anos antes rondam o seu imaginário diariamente, promovem brigas e são o motivo para a mãe dela ficar no encalço do pai.

Nesses tempos de pandemia, Camila decidiu passar um tempo com eles e percebeu como essa dinâmica se repete, mas que aquela mãe sofredora, que vive vociferando problemas com o marido é a mesma que passa as noites fazendo sexo com ele. Camila entendeu que, as relações podem ser verdadeiramente contraditórias e se viu na mãe. O que faz uma pessoa viver buscando a legitimidade ou o reconhecimento de que enfim merece o lugar da exclusiva, a número 1, pode ser exatamente toda a dinâmica estabelecida, o movimento. Durante o dia, a dúvida, durante a noite, a prova. Eu sei que só o fato de fazerem sexo pode não "provar" nada, mas nós seres humanos, embora criativos, atuamos de modo muito limitado, criando comportamentos condicionados para dar respostas às mesmas perguntas que nos angustiam. E nesse sentido, de novo Geraldo não decepcionou.

Após a noite de intimidade e amor, ao acordarem, no dia seguinte, ele "terminou" o relacionamento com Camila, sem mesmo ter em algum momento reatado. Disse que ela era uma grande amiga, mas que ele não podia assumir um compromisso com ela. E depois de passarem algumas horas despedindo-se, prometendo afastamento, com lágrimas nos 4 olhos, ele se foi.

Ao menos até a próxima sessão de terapia...