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Ana Canosa

Aos 40, de repente ele não conseguia mais ter orgasmos com a mulher

Getty Images
Imagem: Getty Images
Ana Canosa Ana Cristina Canosa Gonçalves

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Ana Cristina Canosa Gonçalves

Colunista do UOL

11/08/2020 04h00

Marcos tem 40 anos e "uma vida pela frente", como ele mesmo gosta de frisar. Procurou ajuda da terapia porque está com dificuldade de ter orgasmo na relação com a mulher. Sempre foi um cara com ótimo controle ejaculatório, mas não gozar é uma novidade na vida dele. Ele sente que a excitação é suficiente para disparar o orgasmo, mas por alguma razão que ele não consegue entender, ele fica no quase, se cansa e para com a penetração.

Conversamos sobre vários aspectos da vida e da relação amorosa e sexual dele e, aparentemente nada tinha mudado. Nenhuma medicação que interferisse na latência ejaculatória. O problema era recente, e como ele tinha uma "vida inteira pela frente", resolveu buscar ajuda.

Gosto de dar sentido às expressões clichês, de como elas são absorvidas pelas pessoas e por que são usadas em momentos específicos da vida. Você tem "uma vida pela frente" era a frase preferida da mãe dele quando ele era adolescente e estava iniciando a sua vida sexual.

A mãe, como acontece com boa parte da população brasileira, era quem fazia a educação sexual dos filhos, a seu modo. Não tinham grandes papos sobre sexualidade, mas ela fazia o alerta sobre o uso do preservativo para não pegar doenças, do cuidado com o corpo das moças e principalmente para não engravidar ninguém.

Um dia, enquanto ela preparava a comida, começou uma conversa sobre métodos contraceptivos, usando a colher de pau como modelo para tudo: pênis (encapou a colher com plástico filme para explicar a camisinha), útero ("pensa que o útero é assim, como essa parte da colher"), colo do útero, e explicou onde ficava um DIU e onde era colocado um diafragma, que até hoje ele nunca viu ao vivo.

Coisas corriqueiras que as mães fazem de uma hora para a outra, constrangendo adolescentes. Os minutos finais da conversa sempre acabavam com descrições dramáticas sobre os problemas de uma gravidez precoce e com a já famosa "você tem a vida pela frente". O pai, mais caladão, limitava-se a perguntar se ele já tinha transado, como foi e se tinha alguma pergunta a fazer.

Então Marcos se casou aos 35 anos, quando achou que tinha aproveitado bem a vida de solteiro. Emília foi uma paixão deliciosa que nasceu no trabalho. Ela era independente, muito carinhosa e criativa. Tinham três anos de diferença. Gostavam de sair com os amigos, viajavam e curtiam os momentos de lazer. Segundo ele, a vida conjugal era prazerosa e cheia de cumplicidade e o sexo sempre foi bom.

Quando perguntei sobre o desejo da paternidade, ele se arrumou na poltrona. Fez um descritivo racionalizado sobre o projeto para família, incluindo os filhos, não mais que dois: dinheiro, tempo, rede de apoio, quem sabe uma babá, um apartamento maior. Marcos passou uns 10 minutos discorrendo sobre as dificuldades que alguns amigos haviam passado com o nascimento dos filhos, inclusive a diminuição da atividade sexual.

Ele queria esperar mais, mas o relógio biológico da Emília, agora com 37 anos, contava as horas e o assunto estava no ar.

Por algum motivo bastante curioso, ele não tinha feito a associação mais óbvia entre não ejacular e evitar a gravidez.

Embora a mulher ainda tomasse anticoncepcional, ele já estava reagindo à ideia de que ter um filho era abrir mão das benesses. Mas como ia dizer para a mulher que não estava pronto, já que ela não tinha a "vida toda pela frente", para engravidar?

Foram muitas sessões esquadrinhando a ambivalência entre desejo de ser pai e abrir mão do lugar privilegiado que ele tinha guardado como ideal, e falamos da necessidade em dividir essa discussão com a parceira.

Visitamos todas as paternidades da família e, aos poucos, ele foi trazendo momentos de intimidade entre ele e o pai, daqueles que só emergem quando estamos abertos para revisitá-los. Foi ouvir sobre a transformação que a paternidade fez na vida dos amigos e outros homens que conheceu pela rede.

Não demorou muito, ele voltou a ejacular enquanto foi nascendo dentro dele um pai. Demoraram alguns meses até que decidissem pela gravidez e não tiveram grandes percalços no caminho. No último domingo, foi seu primeiro Dia dos Pais.