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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Basta de órfãos da covid! É urgente que o governo salve gestantes e bebês

A capixaba Taíssa Souza teve covid grávida de 7 meses do segundo filho e morreu; o bebê está na UTI  - Arquivo pessoal
A capixaba Taíssa Souza teve covid grávida de 7 meses do segundo filho e morreu; o bebê está na UTI Imagem: Arquivo pessoal
Sâmia Bomfim

Sâmia Bomfim

Sâmia Bomfim é deputada federal pelo PSOL-SP

Especial para Universa

20/04/2021 04h00

Medo, desespero, aflição, luto. Esses sentimentos estão presentes em todos os brasileiros que acompanham com seriedade a pandemia da covid-19 e aparecem, principalmente, quando nos damos conta que temos no cargo de presidente da República uma pessoa que, desde a chegada da doença no Brasil, não agiu de forma responsável.

Faltam vacinas, renda digna para garantir isolamento social, insumos para intubação, vagas nas UTIs (Unidades de Terapia Intensiva). Sobram irresponsabilidade, obscurantismo, notícias falsas, um presidente genocida e um Congresso conivente.

Para nós, mulheres gestantes, o medo de infecção pelo coronavírus é grande, pois está comprovado que corremos mais risco de morte por conta da resposta imunológica e fisiológica alterada durante a gravidez, que aumenta as possibilidades de infecções e a suscetibilidade de outras condições clínicas. O Brasil ocupa o primeiro lugar em mortalidade de mulheres gestantes e puérperas por covid-19 no mundo, o que deixa uma verdadeira legião de órfãos.

Um estudo do "International Journal of Gynecology and Obstetrics" intitulado "The Tragedy of COVID-19 in Brazil" (A tragédia da covid no Brasil) aponta para a gravíssima realidade na qual o país se encontra: cuja razão de mortalidade de pessoas gestantes e puérperas por covid-19 é, sozinha, equivalente a 77% de todas estas mortes no mundo.

O secretário de atenção à Saúde Primária do Ministério da Saúde, Rafael Câmara, na última semana, revelou o remédio do governo para o problema da mortalidade materna: recomendou que as mulheres evitem engravidar na pandemia.

A deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP), grávida de sete meses, é coautora dos projeto de lei que pedem afastamento de gestantes do trabalho e também prioridade na vacinação - Vinícius Loures/Câmara dos Deputados - Vinícius Loures/Câmara dos Deputados
A deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP), grávida de sete meses, é coautora dos projeto de lei que pedem afastamento de gestantes do trabalho e também prioridade na vacinação
Imagem: Vinícius Loures/Câmara dos Deputados

Se ele tivesse responsabilidade, deveria, na verdade, falar sobre quais são os planos para garantir o isolamento social das gestantes; como poderão ter acesso ao pré-natal integralmente; como será garantido o tratamento adequado das infectadas (pois 40% das gestantes que morreram em decorrência da covid no Brasil não tiveram sequer acesso a um leito de UTI) e quais medidas o governo pretende tomar para que as mulheres tenham direito de fato ao planejamento reprodutivo.

Antes mesmo da pandemia, dados do SUS (Sistema Único de Saúde) já indicavam que quase 60% das gestações não são planejadas no Brasil. Sem acesso a contraceptivos, à educação sexual e ao planejamento reprodutivo, a declaração do secretário é um escárnio.

Cabe somente às mulheres decidirem quando e como terão seus filhos. Ao governo cabe fornecer políticas públicas que amparem a escolha da mulher e informações acerca de eventuais riscos

Certamente a postura de negação da gravidade da pandemia não contribui para a compreensão total sobre os riscos à saúde que a pandemia traz às gestantes, bem como as posições e medidas que violam os direitos sexuais e reprodutivos que os ministros de Jair Bolsonaro (sem partido) vêm tomando.

Afastamento do trabalho e vacina para gestantes

Sou coautora do PL 393/2020, aprovado em 15 de abril no Senado. O projeto determina o afastamento de trabalhadoras grávidas do trabalho presencial durante a pandemia do novo coronavírus. É urgente que Bolsonaro sancione o projeto de lei. Hoje a possibilidade de trabalho domiciliar ainda está a cargo da sensibilidade e compreensão de patrões individualmente.

Além disso, em 14 de abril apresentei, juntamente com a deputada Talíria Petrone (PSOL-RJ), o Projeto de Lei 1405 para garantir a inclusão de grávidas e puérperas no grupo prioritário do PNI (Plano Nacional de Imunização). Espero que este PL seja votado em regime de urgência nos próximos dias, pois diversas mulheres grávidas podem ter suas vidas salvas graças a esta política pública.

Desde então, muitas dúvidas chegaram a mim acerca da eficácia e segurança da medida. É natural que algumas pessoas tenham receio dos efeitos, pois tudo ainda é muito novo quando falamos sobre pesquisas relacionadas ao novo coronavírus, remédios, vacinas. Além disso, o Brasil vive uma onda de notícias falsas e boatos que desqualificam a ciência.

Em diversos países as gestantes estão sendo vacinadas. Só nos EUA, 90 mil gestantes já foram imunizadas. No Brasil, uma nota técnica do Ministério da Saúde orientou que grávidas e lactantes podem tomar vacina contra a covid-19. De acordo com a NT 1/2021, estudos científicos ainda são iniciais em seres humanos sobre o assunto, entretanto, no mundo todo, não foram encontrados indícios que impeçam a vacinação deste público.

Gestantes da linha de frente, que são trabalhadoras da saúde, já foram vacinadas no Brasil. Nossa luta é para que todas as gestantes possam ter o direito de serem vacinadas nos grupos prioritários, pois o fato de estar gestante já torna a mulher grupo de risco

É importante dizer que as vacinas ministradas no país, Astrazeneca e CoronaVac, são provenientes de plataformas de vírus inativados e de vetores virais não replicantes. Este tipo de tecnologia já foi utilizada em vacinas para outras patologias, como a influenza por exemplo, e é indicada para gestantes e puérperas.

Uma notícia animadora também é que gestantes vacinadas podem imunizar seus filhos, porque produzem anticorpos que ajudam a proteger seus filhos recém-nascidos. A pesquisa ainda está em andamento, mas mais uma vez a ciência nos traz uma luz no fim do túnel.

É urgente salvar a vida das gestantes. Basta de crianças órfãs, prematuros que não conseguem sobreviver, mulheres que morrem por complicações no período puerperal. Se seguirmos a ciência, dar condições de proteção e acesso ao pré-natal e tratarmos a escolha pela maternidade com respeito, milhares de mulheres e bebês poderão ser salvos em meio a essa terrível pandemia.

* Sâmia Bomfim é deputada federal pelo PSOL-SP