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Fiz terapia com 'robô psicólogo': é curioso, mas me faltou paciência

Getty Images
Imagem: Getty Images

Renata Baptista

De Tilt, em São Paulo

19/10/2021 04h00

A pandemia de covid-19 contribuiu para o agravamento de quadros de ansiedade e depressão. Com as medidas de distanciamento social, cresceu também o número de pessoas que recorreram a aplicativos para cuidar da saúde mental e emocional. E não estou falando apenas dos programas de chamada de vídeo que se tornaram alternativa para as tradicionais visitas ao consultório.

Alguns internautas optaram por realizar "consultas" com um robô movido a inteligência artificial. Já existem mais de 10 mil aplicativos que tratam sobre saúde mental, de acordo com estimativa da Associação Americana de Psiquiatria.

As plataformas digitais envolvem meditação guiada, monitoramento de humor e até terapia por mensagens de texto com profissionais licenciados. Resolvi testar e conto a seguir as minhas impressões sobre os aplicativos.

Minha experiência com "robôs psicólogos"

Quando se fala em psicoterapia, logo me vem à mente as sessões em que ia, periodicamente, onde ficava cara a cara com minha psicóloga, e falava sem parar sobre acontecimentos de minha vida e minhas emoções. Quando ela me ouvia, além do conteúdo que eu estava expressando, ela também analisava fatores como o uso de minhas palavras, a velocidade de meu discurso e os meus gestos.

Até mesmo meu silêncio falava muito, certa vez ela me disse. Será que um robô seria capaz de captar todas essas nuances e ajudar pessoas a lidarem com seus problemas, como ansiedade e estresse do cotidiano?

Resolvi então testar alguns destes aplicativos. Entre tantos outros — como o Ellie, o Youper ou o Happify — escolhi três, que também são gratuitos. A escolha foi bem aleatória, motivada por algumas matérias que já li sobre o assunto e indicação de amigos. São eles:

Woebot - disponível para iOS e Android

"Conversa" com o Woebot - Reprodução - Reprodução
Woebot - interface
Imagem: Reprodução

O Woebot foi lançado em 2017 e se apresenta em seu site como "o futuro da saúde mental". Para desenvolver o bot (robô de conversa), os psicólogos se inspiraram no método da terapia cognitivo-comportamental, uma técnica comumente usada para tratar ansiedade e depressão.

O serviço tenta imitar conversas com humanos, lembra do histórico de sessões anteriores e dá conselhos sobre sono, preocupação e estresse, bem como exercícios. Na maioria das vezes, o robô-terapeuta nos dá opções para expressarmos o que estamos sentindo. Quando ele não "entende", nos permite digitar sobre o que está nos afligindo. Às vezes ele entende, às vezes não.

Algo negativo é que o aplicativo só está disponível em inglês. Porém, o marketing da empresa informou a Tilt que a inclusão de outras línguas está nos planos para breve.

Cíngulo - disponível para iOS e Android

O Cíngulo propõe algumas leituras - Reprodução - Reprodução
Cíngulo - interface
Imagem: Reprodução

Aqui não conversamos com um robô. Trata-se mais de um diário, onde registramos situações do dia e depois, recebemos uma análise. Há uma aba no aplicativo em que podemos clicar em uma de nossas emoções (ansioso, estressado, irritado, abalado, inseguro...) diariamente, e registrar coisas coisas como o que nos fez bem ou que nos fez mal naquele dia. Ainda recebemos algumas sessões, com textos e/ou áudios. Fiz cinco sobre autoestima (era o limite para o plano gratuito).

É possível ainda compartilhar algumas das técnicas que curtimos com pessoas conhecidas.

Logo de início, fazemos uma autoavaliação, cujo resultado achei bem legal. Senti que ela pode ser um instrumento para ajudar no nosso autoconhecimento. A cada duas semanas, podemos refazer essa autoavaliação para comparar a evolução de nosso desempenho emocional no período.

Na opção paga (R$ 399,90 no plano anual), há acompanhamento de psicólogos via chats. O aplicativo é muito bem avaliado pelos usuários.

Vitalk - disponível para iOS e Android

"Conversa" com a Viki, do Vitalk - Reprodução - Reprodução
Vitalk - interface
Imagem: Reprodução

Neste aplicativo, também é possível registrar nosso humor diariamente — e acompanhar a nossa evolução com o tempo, bem como obter informações sobre saúde mental e fazer alguns exercícios (com opção também em áudio).

Viki é a assistente virtual que faz os atendimentos. Ela conduz conversas e exercícios de forma leve e descontraída. No bate-papo, ela dá informações sobre saúde mental e também facilita a interação nos dando opções de respostas prontas.

Ainda que o uso do aplicativo seja gratuito, há a opção de conversar com uma psicóloga (de verdade, em carne e osso) por meio de chat. O plano mensal, que inclui mensagens de texto ilimitadas e atendimento semanal, custa R$ 169,90.

Quem procura um terapeuta-robô?

Em todo o mundo, o debate sobre a importância dos cuidados com saúde mental ganharam ainda mais foco nos últimos anos. Estimativa da OMS (Organização Mundial da Saúde) aponta que transtornos mentais afetam cerca de 1 bilhão de pessoas no mundo. E não precisamos nem dizer que a pandemia de covid-19 alavancou esses problemas recentemente.

Hoje em dia, existem opções para ajudar quem está sem dinheiro a fazer terapia. Universidades, centros de estudo ou formação de psicólogos e projetos voluntários costumam oferecer atendimentos gratuitos ou com preços mais acessíveis.

Mas outros fatores, que não só o financeiro, podem fazer com que as pessoas optem por buscar ajuda de um aplicativo em vez de uma psicoterapia tradicional.

"A facilidade das novas gerações com as novas tecnologias podem torná-las mais propensas a experimentar, ainda que por curiosidade, a experiência com o robô antes de partir para a terapia convencional", explica Marcelo Santos, psicólogo clínico e professor de psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Timidez e vergonha em assumir para uma pessoa de carne e osso que precisa de ajuda para tratar questões da saúde mental também são fatores que fazem alguns procurarem pelo atendimento no meio digital antes de buscar uma terapia convencional.

Veredito

Para falar a verdade, não tive muita paciência para conversar com os robôs-terapeutas por mais que dez minutos seguidos. Eles acabam se tornando repetitivos, e a tentativa de serem empáticos ("Que bom ver você por aqui", "Às vezes eu também sinto isso", "Entendo o que você está passando"), às vezes, me soava falsa. Confesso que me faltou paciência. Imagino então que a experiência para quem possui graus elevados de ansiedade pode não ser a mais adequada.

Porém, as atividades propostas de respiração, meditação e relaxamento, assim como a leitura de alguns artigos, são bem válidas. Acho que tudo isso colabora na busca por autoconhecimento.

Claro que nunca trocaria uma sessão individualizada com um profissional habilitado por uma conversa com um bot. Mas não descarto continuar com o uso das análises e fazer os exercícios propostos sempre que possível.

Uso como coadjuvante

Um estudo conduzido pela Universidade de Cambridge em 2019 apontou que a terapia por meio de apps pode ser útil como coadjuvante da conduzida por profissionais, mas não os substitui.

"A ferramenta até pode ser útil em um momento de angústia, mas apenas um profissional capacitado vai poder dar o aconselhamento e a discussão que um ser humano, com todas as suas complexidades, espera", diz Marcelo Santos.

A Associação Americana de Psiquiatria informa que recomenda o uso de alguns apps como coadjuvantes no tratamento. Porém alerta a alguns fatores que devem ser observados antes que os profissionais os indiquem a seus pacientes. Entre eles a adoção de aplicativos conhecidos, e alerta para os cuidados com a privacidade.

Para Leo Pinho, presidente da Abrasme (Associação Brasileira de Saúde Mental), o vínculo é algo importante para o desenvolvimento da terapia. "Não há regras fechadas para um projeto terapêutico. Cada ser humano é único e a terapia deve ser individualizada. Nenhum aplicativo vai conseguir substituir esse vínculo", afirma.