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TikTok paga menos de um salário mínimo por transcrições de vídeo no Brasil

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Imagem: Flickr

Melissa Cruz Cossetti

Colaboração para Tilt, do Rio de Janeiro

16/10/2021 04h00

A transcrição de vídeos para textos no TikTok é útil de inúmeras formas, mas o que muita gente não sabe é que o serviço é feito por humanos — ou era. De acordo com informações recentes obtidas pelo site The Intercept, a plataforma chinesa contrata brasileiros por WhatsApp, sem qualquer tipo de contrato, para fazer o trabalho de maneira informal, remota e pago em dólar.

Segundo a reportagem, a soma das horas trabalhadas não costuma passar de um salário mínimo. A remuneração depende do desempenho e a promessa é de que melhores performances são contempladas com um bônus — o que não aconteceu ao final do projeto.

Com duração pré-estabelecida de três meses — fevereiro, março e abril de 2021— a fonte do Intercept revela que não aguentou uma semana na função e que outras pessoas saíram sem receber seus valores.

Depois de transcrito, o texto estaria pronto para ajudar a alimentar a inteligência artificial da ByteDance, empresa chinesa dona do TikTok. A previsão é de que, nos próximos meses, a máquina tenha aprendido a transcrever (em várias línguas) sozinha, incluindo acentuação.

Transcrição no TikTok

O trabalho parece fácil: assistir e transcrever poucos segundos de vídeo. Entretanto, para chegar aos prometidos US$ 14 por hora transcrita (não por hora trabalhada) é necessário trabalhar pelo menos 20 horas ouvindo os vídeos do TikTok.

Cada transcrição, chamadas pelas equipes de "tasks" (tarefa, em português), leva em média um minuto para ser concluída. Para conseguir completar uma hora de transcrição, deve-se cumprir cerca de 1.200 tasks, que somam em torno de 1.200 minutos.

Para receber os US$ 14 (por uma hora transcrita), trabalha-se cerca de 20 horas.

Com a cotação a R$ 5,50 usada pelo TikTok, o pagamento por hora de trabalho era de cerca de R$ 3,85 — o que é 77% do valor de uma hora de trabalho se usado o salário mínimo brasileiro em 2021 como base, de acordo com a reportagem.

Em março, segundo uma planilha vazada por ex-funcionários, o brasileiro que mais recebeu (e também mais trabalhou) fez transcrições que somaram 18.577,66 segundos — ou 5,16 horas.

Usando a equivalência de 20 horas de trabalho para uma hora transcrita, estima-se que a pessoa recebeu US$ 72 por cerca de 100 horas no mês (ou 4,5 horas por dia útil).

O pagamento por horas de transcrição não chegou perto do salário mínimo de R$ 1.100. A pessoa recebeu R$ 400 (também considerando o dólar a R$ 5,50) em março.

Terceirizados dos terceirizados

Ainda de acordo com os relatos, nenhuma das pessoas que fizeram as transcrições para o TikTok (usando inclusive a plataforma interna da companhia) foram abordadas diretamente pela ByteDance, mas sim por intermediários que prestam serviço para a gigante chinesa.

Uma sequência de "terceirizados de terceirizados" compõe uma cadeia que despista quem tenta saber quem, de fato, contratou quem para o serviço. No final das contas, vários processos são geridos por grupos de WhatsApp com mensagens sobre metas e pagamentos realizados por pessoas físicas.

O projeto terminou com protestos e críticas dos colaboradores que não receberam o pagamento do bônus prometido. Aparentemente, a empresa responsável pelo TikTok também não ficou satisfeita com a entrega das transcrições em português no Brasil.

Em nota enviada a Tilt, por meio de sua assessoria de imprensa, um porta-voz do TikTok afirmou que a empresa investiga a situação relatada na reportagem do The Intercept;

"O TikTok tem como política cumprir todas as leis trabalhistas nos países onde tem escritórios e, como parte de nossa cultura, estamos comprometidos em tratar todos os colaboradores com dignidade e respeito. Continuamos investigando a situação", afirmou.