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Quem é Frances Haugen, a delatora do Facebook?

2.out.2021 - Frances Haugen (à dir.), ex-funcionária que fez denúncias sobre o Facebook à CBS News - Robert Fortunato/CBS News via Reuters
2.out.2021 - Frances Haugen (à dir.), ex-funcionária que fez denúncias sobre o Facebook à CBS News Imagem: Robert Fortunato/CBS News via Reuters

Marcella Duarte*

Colaboração para Tilt, em São Paulo

06/10/2021 13h49Atualizada em 06/10/2021 19h57

A semana anda intensa para o Facebook. Depois do apagão que afetou suas plataformas na segunda-feira (4), ontem foi a vez da ex-funcionária do conglomerado Frances Haugen, 37, prestar depoimento no Senado dos Estados Unidos.

Ela, que trabalhou como gerente de integridade do Facebook, vazou semanas antes documentos confidenciais da empresa para a imprensa e autoridades norte-americana. Segundo Haugen, as redes sociais do grupo "enfraquecem a democracia", ao colocar os lucros acima da segurança e do bem-estar dos usuários — afirmação que Mark Zuckerberg, fundador do Facebook e presidente-executivo, negou publicamente.

"Estou aqui porque acredito que os produtos do Facebook prejudicam os adolescentes, semeiam divisões e enfraquecem a nossa democracia. A liderança da empresa sabe como tornar o Facebook e o Instagram mais seguros, mas não querem fazer as mudanças necessárias, pois colocaram os seus lucros astronômicos acima das pessoas e escolheram crescer a qualquer custo", disse no início de seu testemunho.

Em resposta ao que foi dito no depoimento da ex-funcionária, Lena Pietsch, diretora de comunicações de políticas públicas do Facebook, afirmou em comunicado, que Haugen trabalhou na empresa por menos de dois anos, nunca liderou uma equipe e nunca participou de uma reunião decisória com a alta liderança.

"Ela disse [em seu depoimento] mais de seis vezes que não trabalhou nos assuntos pelos quais foi questionada. Não concordamos com a maneira como ela caracterizou muitos dos temas sobre os quais testemunhou. Apesar de tudo isso, concordamos em uma coisa: é hora de começar a criar um padrão de regras para a internet", disse Pietsch.

Afinal, quem é Haugen?

Haugen nasceu em Iowa (EUA), e é engenheira eletricista e de computação pela Faculdade Olin — Massachusetts. Com um MBA pela Universidade de Harvard, ela se declara uma "especialista em gerenciamento algorítmico de produtos" e "defensora do monitoramento público das redes sociais".

Aos 37 anos — 15 de carreira —, ela já trabalhou para outras gigantes de tecnologia, como Pinterest, Yelp e Google, onde atuou por quatro anos como engenheira de software e gerente de produto.

Foi contratada pelo Facebook em 2019 como gerente da equipe de integridade cívica, que lida com questões relacionadas à democracia e desinformação. Segundo ela, mais tarde, recebeu funções de "contraespionagem".

Segundo ela, essa experiência a fez pedir demissão em maio deste ano, após se decepcionar com a empresa. "Fiquei cada vez mais alarmada com as escolhas deles". Haugen acredita que a companhia de Mark Zuckerberg é "substancialmente pior do que qualquer outra".

Antes de sair, ela afirma ter feito cópias de milhares de páginas de memorandos e documentos internos, que mostram que o Facebook sabia dos problemas que causa na vida das pessoas.

A ex-funcionária disse que o Facebook montou equipes para trabalhar com o combate a desinformação antes das últimas eleições presidenciais nos Estados Unidos. Uma das ações foi alterar seus algoritmos para reduzir a propagação de fake news. Após o pleito eleitoral do ano passado no país, sua equipe foi desmontada.

Com a invasão em janeiro deste ano do Congresso dos Estados Unidos por parte dos apoiadores de Donald Trump, mobilização organizada em grande parte por redes sociais, Frances Haugen decidiu agir.

Em março, se mudou para Porto Rico imaginando que poderia continuar seu trabalho remotamente. Contudo, diz ela, a empresa disse que não seria possível. Foi aí que a ex-gerente pediu demissão.

O que ela denuncia

A ex-gerente enviou documentos para o jornal The Wall Street Journal, que os publicou ao longo das últimas três semanas, preservando a identidade de Haugen. No último domingo (3), ela finalmente mostrou seu rosto, em uma entrevista dada ao programa 60 Minutes, da emissora CBS.

Entre as acusações feitas que preocupam o Congresso norte-americano, estão documentos que mostram que dados de que a empresa tem conhecimento de que seus produtos estão prejudicando a saúde mental e a autoestima dos usuários, principalmente de garotas adolescentes.

Uma apresentação interna do Instagram diz que "pioramos os problemas com a imagem do próprio corpo para uma a cada três (32%) garotas adolescentes". Também há indícios de que as redes sociais potencializam casos de ansiedade e depressão entre os jovens, sendo um ambiente tóxico e cheio de discurso de ódio.

Em nota ao programa 60 Minutes, o Facebook afirmou que mantém contratos com 80 agências de checagem de informações em 60 idiomas e que um ambiente violento é ruim para os usuários, para os anunciantes e para os negócios.

Ou seja, a empresa não prioriza o lucro no lugar da segurança de quem utiliza suas plataformas, reiterou Mark Zuckerberg em comunicado divulgado ontem (4).

Além disso, a empresa criticou a reportagem do WSJ e destacou que as informações foram tiradas de contexto. De acordo com o Facebook, a condução de pesquisas internas mostra o comprometimento do grupo em entender problemas difíceis e complexos que pessoas jovens podem enfrentar.

*Com informações da agência de notícias AFP, do jornal The Wall Street Journal e BBC