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Facebook sabe que Instagram é tóxico para jovens, especialmente meninas

Getty Images
Imagem: Getty Images

Aurélio Araújo

Colaboração para Tilt, de São Paulo

16/09/2021 13h42

O Facebook sabe que o Instagram, rede social que pertence à empresa chefiada por Mark Zuckerberg, é prejudicial à saúde mental de adolescentes. A revelação foi feita pelo jornal norte-americano The Wall Street Journal, que teve acesso a análises conduzidas pelo próprio Instagram que dizem que as imagens do feed afetam principalmente os mais novos. As meninas são as mais prejudicadas.

Numa apresentação de resultados feita no grupo de mensagens interno do Facebook, revela-se que 32% das garotas dizem que, quando se sentem mal com relação aos seus corpos, o Instagram as deixa piores. "Comparações com o Instagram podem alterar a forma como jovens mulheres se veem e se descrevem", conclui o texto.

Já numa apresentação de 2019, o tom é similar: "nós pioramos os problemas com a imagem do próprio corpo para uma a cada três garotas adolescentes".

Outros slides obtidos pela reportagem admitem o impacto do Instagram no aumento da ansiedade e da depressão. Mais de 40% dos usuários da rede social são pessoas com 22 anos ou menos.

Incoerência no discurso

Em manifestações ao público, o Facebook diz exatamente o contrário: que o Instagram faz bem diante do seu papel de aproximar pessoas.

"As pesquisas que nós já vimos dizem que usar apps sociais para se conectar a outras pessoas pode ter benefícios para a saúde mental", afirmou Zuckerberg, chefe-executivo do Facebook, em audiência no Congresso dos Estados Unidos em março deste ano.

Já em maio, Adam Mosseri, chefe do Instagram, disse à imprensa que as pesquisas que ele tinha visto sugeriam que os efeitos causados pela rede social no bem-estar dos jovens eram "bem pequenos".

Não é o que os dados das próprias pesquisas conduzidas pela empresa dizem, de acordo com o jornal WSJ. Os estudos analisados pela reportagem foram feitos por funcionários do Facebook de áreas como marketing, desenvolvimento de produto e ciência de dados.

As conclusões, inclusive, mostram que o problema é algo específico do Instagram, e não das redes sociais como um todo.

Além disso, não é razoável deduzir que isso não chegou a Zuckeberg e Mosseri: vários executivos da empresa tiveram acesso a esse material, diz o jornal, e ele foi até citado numa apresentação feita diretamente ao executivo-chefe do Facebook no ano passado.

Como o Instagram afeta a saúde mental

Os resultados das pesquisas apresentados pelo The Wall Street Journal ajudam a entender que efeitos o Instagram pode causar na autoestima das pessoas que o utilizam. A principal questão parece ser o que o Facebook chama de "comparação social", fenômeno em que se avalia seu próprio valor em relação à aparência, à riqueza e ao sucesso dos outros.

"A comparação social é pior no Instagram", diz o estudo de 2020, que o considera mais prejudicial do que os apps concorrentes TikTok e Snapchat. Enquanto o TikTok é mais baseado na performance diante da câmera e o Snapchat em filtros divertidos que "mantêm o foco no rosto", o Instagram é ligado diretamente a imagens do corpo e de estilo de vida.

A tendência de compartilhar somente bons momentos, a pressão para parecer perfeito e o fato de ser um produto viciante pode fazer com que adolescentes desenvolvam distúrbios alimentares, uma imagem nada saudável dos próprios corpos e até mesmo depressão, segundo a pesquisa interna. "Aspectos do Instagram exacerbam uns aos outros para criar uma tempestade perfeita", diz o texto que acompanha os resultados.

O que diz o Facebook

Após a publicação da matéria, Karina Newton, chefe de política pública do Instagram, divulgou uma resposta no blog oficial da rede social. Afirmou que a empresa está "pesquisando maneiras" de impedir que os frequentadores do app passem muito tempo observando "certos tipos de postagem", dando a entender que se refere a conteúdos que possam levar à comparação social.

"Estamos explorando maneiras de levá-los a observar outros tópicos se eles ficarem olhando repetidamente para esse tipo de conteúdo", prossegue o texto, em que Newton se diz "cautelosamente otimista" de converter o Instagram em algo que "inspire e eleve" seus usuários.

A executiva diz ainda que a condução de pesquisas internas mostra "nosso comprometimento em entender problemas difíceis e complexos que pessoas jovens podem enfrentar".