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É criptografado mesmo? Entenda em quais casos o WhatsApp lê suas conversas

Getty Images
Imagem: Getty Images

Aurélio Araújo

Colaboração para Tilt, em São Paulo

10/09/2021 13h31

Mesmo com o aviso de que "as mensagens e as chamadas são protegidas com a criptografia de ponta a ponta" exibido em todos os chats, o WhatsApp pode ler suas mensagens em algumas situações específicas.

Segundo uma reportagem nos Estados Unidos da agência "ProPublica", o Facebook tem contratados, via uma empresa terceirizada, mais de mil "moderadores de conteúdo" para o WhatsApp, exatamente como em outras plataformas da empresa, como o próprio Facebook e o Instagram. O trabalho deles é revisar mensagens denunciadas pelos usuários.

Esse trabalho não quebra a criptografia de ponta a ponta das mensagens, porém. Para que as conversas sejam lidas pelos moderadores, o próprio usuário precisa tomar a decisão de denunciar aquela conta ao WhatsApp e, com isso, concordar em enviar uma cópia de mensagens recentes para que os moderadores avaliem o caso.

Como é feita a análise pelos "moderadores"

Quando você denuncia um contato no WhatsApp por ter quebrado as regras do aplicativo, as últimas quatro mensagens na conversa com aquela pessoa são enviadas de forma decifrada aos engenheiros e "moderadores" do WhatsApp. Em seguida, sistemas automatizados dispõem esses dados no que é chamado de "fila reativa" para análise.

É importante diferenciar esse processo do que é feito no Instagram ou no Facebook: nele, os moderadores podem excluir postagens de forma individual. No WhatsApp, não. Por isso, o Facebook não chama os funcionários que fazem essa análise de "moderadores de conteúdo", como o faz nas outras plataformas.

Bom, na sequência, a inteligência artificial então começa a escanear dados não criptografados coletados pelo WhatsApp sobre seus usuários, formando as "filas proativas", e comparando essas informações a atividades e padrões considerados suspeitos, como envio de spam, por exemplo.

Os dados não criptografados são itens como nome e foto de perfil, nível de bateria do telefone, idioma, fuso horário, endereço IP e força do sinal de internet.

Os funcionários então têm três opções de como agir quando recebem informações das duas filas: fazer nada, colocar o usuário sob vigia para mais escrutínio, ou banir a conta denunciada.

Ainda assim, a atuação deles exige julgamentos subjetivos e sensíveis. Há várias categorias em que as atividades podem ser consideradas violações do termo do WhatsApp. Por exemplo: "relatório de spam", "mau ator civil" (se as mensagens forem consideradas como discurso de ódio e desinformação), "ameaça crível de terrorismo global", "imagem exploratória de crianças" e "pornografia infantil".

Profissionais ouvidos pela "ProPublica" dizem que as orientações para identificar padrões de violação podem ser bastante explícitas. Para identificar se uma pessoa nua numa foto é um adolescente ou uma criança, eles recorrem a imagens médicas que ajudam a fazer comparações envolvendo o desenvolvimento do quadril e até os pelos pubianos do indivíduo retratado, por exemplo.

Além disso, embora os "moderadores" falem diversas línguas, algumas mensagens estão em idiomas que eles desconhecem. Dessa forma, precisam recorrer à ferramenta de tradução do Facebook, que nem sempre é precisa — já confundiu, por exemplo, mensagens em árabe com espanhol.

Informações compartilhadas com autoridades

Além dos funcionários em questão, até mesmo autoridades podem ter acesso a metadados do WhatsApp em alguns casos. Metadados são informações do "envelope" da mensagem, e não necessariamente seu conteúdo. São marcas de horário de envio das mensagens e números de telefone, por exemplo.

Isso pode parecer inofensivo à primeira vista, mas metadados já foram usados como provas em casos que terminaram em prisão. É o que ocorreu com Natalie Edwards, uma funcionária do Departamento do Tesouro do governo dos EUA, que vazou informação à imprensa para fazer uma denúncia.

Analisando metadados, o FBI (polícia federal norte-americana) chegou à conclusão de que Edwards trocou cerca de 70 mensagens com o repórter que publicou os documentos, durante um período de aproximadamente 20 minutos. Edwards foi condenada a seis meses de prisão. Ela e o repórter haviam usado o WhatsApp por acreditarem que era uma plataforma segura.

O que diz o WhatsApp

Procurado por Tilt, o WhatsApp reforçou, em nota, que o trabalho de moderação de conteúdo não interfere na criptografia das mensagens.

"O WhatsApp fornece uma maneira para que as pessoas denunciem spam ou abuso na plataforma, o que inclui o compartilhamento das mensagens mais recentes em uma conversa. Essa funcionalidade é importante para prevenir os piores abusos na internet. O WhatsApp discorda fortemente da ideia de que aceitar denúncias que os usuários escolhem enviar para o aplicativo é incompatível com criptografia de ponta a ponta", disse um porta-voz do WhatsApp.

Sobre o acesso de autoridades às conversas de usuários, o WhatsApp esclarece, em seu site oficial, que apenas metadados são compartilhados quando há um pedido da Justiça — ou seja, apenas aquelas informações não criptografadas, como fotos de perfil, nomes e descrições de grupos, e números de telefone. O conteúdo das conversas, não.

"O WhatsApp reconhece o trabalho que as autoridades policiais fazem para manter as pessoas seguras em todo o mundo e, frequentemente, trabalhamos em parceria com essas autoridades para garantir que elas saibam como entrar em contato conosco e fazer solicitações ao WhatsApp. Nossa página de Informações para as autoridades policiais contém um sistema online para que as autoridades policiais possam enviar solicitações legais com segurança", diz a empresa.