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Chinesa Realme bate 100 mi de celulares vendidos e mira jovens no Brasil

Traseira do celular Realme 7 5G, lançado em abril no Brasil - Guilherme Tagiaroli/Tilt
Traseira do celular Realme 7 5G, lançado em abril no Brasil Imagem: Guilherme Tagiaroli/Tilt

Lucas Carvalho

De Tilt, em São Paulo

05/08/2021 10h28

Sem tempo, irmão

  • Em entrevista exclusiva a Tilt, Sherry Dong, diretora global de marketing da Realme, fala dos planos da empresa para o Brasil
  • Primeiro celular top de linha da marca deve chegar ao Brasil até o final deste ano
  • Fabricação local e abertura de lojas físicas também fazem parte dos planos
  • Chinesa quer entrar no top 3 com celulares acessíveis e foco em jovens

No Brasil há apenas oito meses, a marca chinesa Realme tem planos ambiciosos para o país: superar concorrentes asiáticos como a Xiaomi, ser uma das três mais vendidas até 2024 e bater de frente com Samsung e Apple pelo mercado de celulares top de linha. Quem diz isso é Sherry Dong, diretora global de marketing da Realme. Em entrevista exclusiva a Tilt, a executiva compartilha alguns dos planos da empresa por aqui e garante que o primeiro top de linha da marca no país deve chegar até o fim do ano.

A Realme desembarcou no Brasil em janeiro de 2021 e já vende seis aparelhos. O mais barato começa em R$ 999 e o mais caro chega a R$ 2.599. São produtos de desempenho intermediário com foco em um bom equilíbrio entre custo e benefício, tentando repetir o sucesso da Xiaomi.

Criada em 2018, a Realme opera em ritmo acelerado de crescimento. Já vende telefones em 61 países e é a empresa que chegou mais rapidamente à marca de 100 milhões de telefones vendidos no mundo, segundo dados da consultoria Counterpoint. E o Brasil, de acordo com Sherry, é um mercado estratégico no seu plano para o futuro.

Confira a entrevista completa a seguir.

Tilt: A Realme é a empresa que vendeu mais rapidamente 100 milhões de telefones. Qual é o segredo?

Sherry Dong: Vou falar de três aspectos: o primeiro é o posicionamento da marca, o segundo é a estratégia de produto e o terceiro é o modelo de negócios. Em termos de posicionamento de marca, a Realme sempre quer atender aos jovens. As empresas tradicionais miram em todo mundo, porque são grandes o bastante. Mas a Realme foca no público jovem.

Sherry Dong, diretora global de marketing da Realme - Divulgação/Realme - Divulgação/Realme
Sherry Dong, diretora global de marketing da Realme
Imagem: Divulgação/Realme

Sobre estratégia de produto, nós temos quatro linhas principais: a série GT, a série numeral, série C e Narzo. Temos linhas de produtos diferentes para atender demandas diferentes, e por isso conseguimos alcançar o público certo rapidamente.

Nosso modelo de negócios é o de tentar falar diretamente com o consumidor, sem intermediários. Em vez de abrir lojas físicas logo no começo, nós nos concentramos em vendas pela internet, onde podemos conversar com o consumidor diretamente e também podemos manter a faixa de preço mais acessível.

Foi assim que conseguimos crescer tão rapidamente. Mas sabemos que nessa indústria a competição é muito acirrada.

Tilt: A Realme continuará sendo a mais rápida por muito tempo?

SD: Se não estiver enganada, nos últimos nove trimestres fomos a marca que cresceu mais rápido. E acho que vamos continuar mantendo essa alta velocidade. Acabamos de entrar em mercados grandes, como o Brasil e toda a América Latina. Não vemos aí uma competição tão acirrada quanto em outros mercados, onde há Oppo e Vivo. Há menos marcas competindo pela mesma fatia que a Realme.

Esperamos conquistar neste novo mercado o mesmo que conquistamos na Ásia e no leste da Europa. Acabei de saber do nosso time de relações públicas que, em Bangladesh, já somos a marca número 1 após apenas cinco trimestres. Lançamos nosso primeiro produto lá em fevereiro de 2020. No Brasil entramos em janeiro de 2021, e esperamos que, num futuro não muito distante, estejamos entre as três maiores.

Tilt: Em quanto tempo você acha que a Realme pode chegar ao top 3 do Brasil?

SD: Nosso objetivo é chegar ao top 3 em três anos, mas acho que nosso chefe não ficará satisfeito com isso [risos]. Mas a velocidade não é o nosso foco, isso é só um resultado. O que estamos tentando fazer é entender o consumidor brasileiro e garantir que os produtos que escolhemos para este mercado satisfaçam suas necessidades. A posição no ranking é só um resultado, não é o que estamos tentando conquistar.

Tilt: Já deu para descobrir alguma coisa sobre o consumidor brasileiro?

SD: Precisamos de mais tempo, e sei que os brasileiros não são fáceis de entender [risos]. Recentemente fizemos uma extensa pesquisa e descobrimos algumas coisas que mais importam para vocês num celular. A primeira coisa é o processador — e isso é incrível! Antes da pesquisa, eu pensava que os brasileiros não ligavam para ter a tecnologia mais avançada possível. Mas isso é bom, porque é o nosso forte. Na Ásia, o ponto mais importante é a bateria.

Tilt: Se o processador é o ponto mais importante para os brasileiros, podemos esperar o lançamento de um top de linha por aqui em quanto tempo?

SD: Preciso checar com meu time de relações públicas, mas, já que estou aqui... [risos] Posso dizer que queremos ter uma estratégia global de marca por ano, o que significa que teremos um lançamento global da série GT ainda este ano. E os mercados locais podem receber esse lançamento em não mais do que dois meses após o anúncio global. Talvez não em todos os mercados, mas o Brasil é um mercado muito importante para nós. Posso garantir que, este ano, vocês verão pelo menos um GT no Brasil.

Tilt: Marcas chinesas ganharam popularidade no Brasil nos últimos anos por conta do mercado cinza. Vendedores não oficiais conseguiam importar aparelhos da Xiaomi, Oppo, Vivo e Realme driblando regulações e impostos, e assim alcançam preços menores. Como a Realme, vendendo oficialmente no Brasil, pode competir com isso?

SD: O mercado oficial não é competitivo o suficiente. Como são poucas marcas tradicionais, elas podem aumentar os preços. Se você recorrer aos canais oficiais, vai ter que comprar o mais caro. Por isso as pessoas começaram a procurar alternativas para comprar telefones com preços mais justos.

Isso cria uma oportunidade para a Realme. Nós chegamos com aparelhos mais acessíveis, porque esse é o nosso modelo de negócio. Além disso, no site oficial temos um serviço melhor, gerenciado pela nossa sede, sem intermediários. Podemos garantir a qualidade e o tempo de entrega que os usuários precisam.

Temos também parcerias estratégicas com o comércio digital, como a B2W [dona de lojas virtuais como americanas.com, Submarino e Shoptime], e queremos aumentar essas parcerias. É assim que pretendemos competir com o mercado cinza. Mas nossa principal concorrência é no mercado oficial.

Tilt: E como competir com as marcas tradicionais?

SD: Notamos uma coisa interessante sobre o Brasil: as marcas tradicionais costumam lançar produtos com um preço alto no começo, mas em dois ou três meses os preços começam a cair. Quando chegamos ao mercado, essas marcas começaram a fazer essa queda de preços mais rapidamente. E algumas não querem mais lançar produtos muito caros porque agora a Realme está aqui. Então, de certo modo, estamos reformulando o mercado, deixando-o mais competitivo.

Tilt: É mais difícil vender celulares a um preço baixo no Brasil do que em outros países? Por conta do valor da moeda, dos impostos e regulações, talvez?

SD: Mercados diferentes têm regras diferentes. Não há bom ou ruim. E nós levamos as oportunidades no Brasil muito a sério. Não só por conta da população, mas pela concorrência. É claro que os impostos e regras são mais complexos, mas é também por isso que não há tantas marcas e a competição não é tão acirrada ainda. Isso é bom para uma novata como a Realme.

Tilt: Há planos de fabricar celulares da Realme no Brasil?

SD: Com nosso crescimento no Brasil, num futuro próximo definitivamente vamos considerar ter uma linha de montagem local. Mas tudo depende do nosso desempenho. Se fizermos um bom trabalho, vamos considerar. Sempre vale a pena investir no mercado brasileiro. É o que posso dizer por enquanto.

Tilt: E planos de abrir lojas físicas por aqui, como a Xiaomi?

SD: Em mercados mais maduros para a Realme, temos várias lojas offline. No sudeste da Ásia, na China, na Índia, talvez no Egito. E essas lojas são um canal importante. Mas neste momento, enquanto ainda estamos num estágio inicial, a prioridade é criar uma consciência de marca, alcançar o público jovem online.

Tilt: A pandemia de covid-19 teve algum impacto na decisão de lançar a Realme no Brasil? Positivo ou negativo?

SD: É engraçado... eu lembro que, no fim do ano passado, quando estávamos fazendo reuniões sobre estrear no mercado latino-americano, nós pensamos: "a pandemia deve acabar logo". [risos] Não tem sido como nós esperávamos.

Mas não acho que seja um obstáculo. Por conta da covid-19, vimos o crescimento do comércio digital, especialmente em mercados onde ele não era tão popular antes. Trouxe dificuldades em termos de logística, o impacto humano e também no fornecimento de chips. Mas como nosso foco é o comércio eletrônico, foi bom. Foram obstáculos e oportunidades misturadas.