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Adeus, bússola salvadora: como seria se o campo magnético da Terra sumisse?

Como seria se o campo magnético da Terra sumisse? - Arte UOL
Como seria se o campo magnético da Terra sumisse? Imagem: Arte UOL

Rodrigo Lara

Colaboração para Tilt, em São Paulo

06/07/2021 04h00

Você já pegou uma bússola na mão? Se sim, sabe que ela parece um artefato mágico: a agulha do dispositivo sempre apontará na mesma direção, tirando situações muito específicas.

A "culpa" disso é do campo magnético da Terra, que gera influências que vão muito além do simples alinhar de uma agulha magnetizada. Ele funciona como uma bolha protetora, defendendo a Terra da radiação solar. Agora, como seria se ele esse campo invertesse ou, até mesmo, não existisse?

Certamente muitas coisas mudariam e, em casos extremos, teríamos grandes problemas.

De dentro para fora

A Terra possui um campo magnético que é gerado em seu núcleo, uma massa de alta temperatura composta majoritariamente de ferro e níquel. Esse núcleo é composto de duas camadas, uma externa, líquida, e uma interna, sólida.

A massa metálica líquida se movimenta ao redor da sólida e gera, por um efeito de dínamo, o campo magnético terrestre.

Além desse campo magnético gerado internamente pelo planeta, há outro, gerado externamente pela interação de partículas vindas do espaço, especialmente do Sol. Ainda assim, o interno é o mais determinante, sendo responsável por entre 95% e 98% do campo total observado na superfície.

Ninguém fica perdido

A presença desse campo gera alguns efeitos, sendo que o mais facilmente experimentado pelos humanos é quando usamos uma bússola. E você não precisa ser um marinheiro ou embarcar numa expedição por um local inóspito para isso: basta usar o GPS do seu celular, que funciona conjugado com uma bússola interna do aparelho que indica para qual lado você está indo.

Apesar de não usarem uma bússola ou outro sistema tecnológico, animais possuem magnetorreceptores (ou seja, receptores de campo magnético), especialmente aqueles que migram de tempos em tempos.

Com isso, eles são capazes de se orientar levando em conta o campo magnético terrestre.

Camada de proteção

Fora orientação, não é exagero dizer que a vida como conhecemos também é uma contribuição importante do campo magnético terrestre.

Ele exerce um papel importante na dinâmica interna do planeta, através da movimentação da parte líquida do núcleo — atrelado principalmente ao movimento de rotação do planeta — e transferência de calor entre o núcleo externo e o manto terrestre. Essas trocas são essenciais para o fluxo de material do manto terrestre e consequente movimentação das placas tectônicas.

Além disso, ele também nos protege contra o fluxo de partículas e radiação cósmica, deixando o nosso planeta "blindado" contra essas influências.

O caos se instalaria sem o campo magnético

Sem o campo magnético, além de não termos referenciais para nos orientarmos de maneira rápida na superfície, enfrentaríamos outros problemas. Alguns animais, por exemplo, teriam dificuldades para se localizar e procurar locais para reprodução e migração, o que impactaria a cadeia alimentar e evolução de várias espécies.

Sistemas tecnológicos também seriam danificados ou não funcionariam devido à influência da radiação cósmica, que também afetaria nossos corpos.

Provavelmente a Terra não seria um planeta tão habitável, já que o clima acabaria sofrendo com o constante bombardeio de radiação. A atmosfera poderia sofrer erosão mediante essa situação, algo que certamente geraria impactos.

Inversão dele pode gerar "apagão"

De certa forma, a inversão do campo magnético da Terra poderia causar sim um "apagão", mas não de forma permanente, já que o campo é resultado tanto da constituição metálica quanto da dinâmica das entranhas do planeta. O que ocorre é que os polos magnéticos não são fixos e se movimentam ao longo do tempo.

Para se ter uma ideia, atualmente o polo norte magnético — é importante não se confundir com os polos geográficos, que são os pontos de intersecção do eixo de rotação da Terra com sua superfície — se move a uma taxa média de 55 km por ano na direção nor-noroeste (entre o noroeste e o norte), indo do Canadá em direção à Sibéria. Aqui é possível ver a localização dos polos magnéticos e a sua movimentação ao longo dos anos.

Essa "viagem" dos polos, porém, não ocorre de maneira regular, o que dificulta — e até impossibilita — suas previsões.

O risco maior é no caso de inversão dos polos, um processo que também acontece sem regularidade conhecida e dura entre mil e dez mil anos. A inversão por si só não é bem um problema: a "treta" de verdade ocorre no meio desse processo.

Enquanto os polos se invertem, o campo magnético fica muito próximo de zero, o que causa impactos diretos sobre a sua proteção. Passado esse período de transição — que, convenhamos, é bastante longo em termos civilizatórios — ele se restabelece. Mas, certamente, seria um processo capaz de deixar marcas profundas tanto no planeta como, principalmente, nos seres que o habitam.

Os resultados de uma pesquisa científica divulgada em fevereiro deste ano indicaram que a inversão dos polos magnéticos da Terra há cerca de 42 mil anos pode ter desencadeado uma série de mudanças climáticas a partir da exposição à radiação cósmica solar, danificando a camada de ozônio.

Fontes:

Gelvam A. Hartmann, professor do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (IG-Unicamp)
Eder Cassola Molina, professor do Departamento de Geofísica do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP)