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Pirataria: como a Amazon tenta conter 10 bilhões de anúncios falsos por ano

Bilhões de produtos falsificados são oferecidos por ano na Amazon - Mike Segar/Reuters
Bilhões de produtos falsificados são oferecidos por ano na Amazon Imagem: Mike Segar/Reuters

Marcella Duarte

Colaboração para Tilt

23/05/2021 04h00

Após um grande investimento em inteligência artificial, a Amazon reportou que bloqueou 10 bilhões de itens falsificados anunciados na sua loja virtual em 2020 —no ano anterior, foram 6 bilhões— e destruiu mais de 2 milhões de produtos piratas que estavam em seus depósitos nos Estados Unidos.

De acordo com pesquisadores, há mais de R$ 5 trilhões em mercadorias falsas circulando pela economia global. No caso da Amazon, não se tratam de itens luxuosos e caros, como bolsas de grife, mas produtos do dia a dia, como sabonetes, garrafas térmicas e carrinhos de bebê.

Eles são idênticos aos produzidos pelas marcas oficiais, mas feitos com materiais mais baratos e sem controle de qualidade, que podem até prejudicar a saúde dos consumidores ou causar acidentes.

O leite em pó não terá os nutrientes necessários; uma maquiagem pode obstruir os poros; brinquedos soltam peças que podem ser engolidas por crianças, entre outros problemas.

Agora, a questão da falsificação está sendo levada mais a sério —talvez um pouco tarde.

Em 2019, a Amazon lançou a iniciativa "Project Zero", que usa tecnologia de aprendizado de máquina para automaticamente escanear e remover itens suspeitos e verificar a identidade dos vendedores.

As marcas também podem se cadastrar e participar do programa, para que elas mesmas indiquem as cópias de seus produtos e os removam da plataforma.

Em junho do ano passado, a empresa criou uma Unidade de Crimes de Falsificação, com ex-procuradores federais e analistas de dados, para combater as fraudes com mais armas. De acordo com um relatório divulgado na última semana, foram investidos mais de US$ 700 milhões (R$ 3,7 bi) e contratadas mais de 10.000 pessoas para essa empreitada.

A ideia é retomar a confiança dos clientes e continuar criando oportunidades de negócios individuais, facilitando para que o pequeno empreendedor comercialize seus produtos. Mas, ao mesmo tempo, barrar pessoas e empresas mal-intencionadas, antes mesmo que elas façam qualquer venda.

A iniciativa parece ter surtido efeito: de acordo com a Amazon, no ano passado, menos de 0,01% dos produtos comercializados nos EUA receberam reclamações dos consumidores por serem falsos.

Mercado clandestino digital

Por que alguém se dedica a produzir versões falsas de itens básicos? Existe um enorme mercado paralelo que oferece cópias piratas de quase tudo que se possa imaginar. Há até sites na deep web que vendem peças de aviões e vacinas falsas contra covid-19, sem qualquer procedência.

O que permitiu o avanço desse tipo de indústria criminosa foi justamente a internet. Antigamente, havia apenas mercados físicos para réplicas de certos nichos, como lojas ou ambulantes de roupas e acessórios de grifes. Produtos com alto valor agregado, que compensavam o esforço.

Hoje, com tudo a um clique de distância, as regras do jogo da falsificação mudaram. Dá para acessar o mundo por meio da Amazon ou do grupo Alibaba/Aliexpress. Com grande volume de vendas e baixíssimo custo de operação, por que não comercializar toda e qualquer coisa?

Cerca de 80% dos itens falsos que entram nos EUA vêm da China ou de Hong Kong, de acordo com relatórios da alfândega americana.

Os países asiáticos são o maior centro de manufatura do mundo —onde há equipamentos e expertise para fabricar quase tudo que consumimos.

Uma fábrica terceirizada de uma marca legítima pode iniciar um negócio paralelo, usando o mesmo maquinário, programas e moldes, para oferecer um produto praticamente igual por uma fração do preço.

Os grandes sites de compras funcionam em esquema marketplace (entenda), ou seja, disponibilizam produtos que não são vendidos por eles, mas por terceiros. E não costuma haver muito controle sobre isso.

No caso da Amazon, alguns dos itens são armazenados e entregues por ela, mas ainda assim não há muita fiscalização de autenticidade ou auditorias. A varejista esperava os clientes detectarem e denunciarem as falsificações para expulsar o vendedor pirata.

Algumas marcas, fabricantes dos produtos verdadeiros, pressionaram a Amazon para que ela tomasse atitudes mais agressivas em relação ao problema. Marcas como Birkenstock e Nike chegaram a decidir não vender mais pelo site, por exemplo.

Mesmo com as medidas dos últimos anos, não há como estimar quantos produtos falsos continuam em circulação na Amazon. Para evitar ser enganado, o cliente deve estar sempre atento ao comprar em qualquer marketplace.

Prestar atenção, primeiramente, no próprio anúncio (como a resolução das imagens e a clareza da descrição), e observar os mínimos detalhes do item, incluindo a embalagem, ao receber. Em caso de dúvidas, peça a devolução. Para itens mais difíceis de comprovar a autenticidade, melhor optar pelas lojas oficiais e parceiros verificados.