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Domando bots e filhos: a vida de uma treinadora de robôs na pandemia

Mirela Cavalcanti é mãe solo e treinadora de robôs - Arquivo Pessoal
Mirela Cavalcanti é mãe solo e treinadora de robôs Imagem: Arquivo Pessoal

Renata Baptista

De Tilt, em São Paulo

08/03/2021 04h00

Como se o trabalho de treinar chatbots para empresas de telefonia não fosse pouco, ela precisou acumular funções domésticas na criação dos dois filhos pequenos e bem agitados em casa, durante a pandemia. Como a coordenadora de TI (Tecnologia da Informação) Mirela Cavalcanti, de 38 anos, consegue? "Costumo dizer que vivo equilibrando vários pratos. Se deixo algum cair, paciência", diz.

O trabalho que ela exerce demanda tempo e energia. Formada em Ciência da Computação, ela coordena uma equipe treinamento de chatbots, os robôs que "conversam" com a gente como se fossem atendentes humanos, para sanar dúvidas ou responder nossas reclamações.

"A ideia, quando falamos em treinar o bot, é fazer com que ele entenda todas as formas expressadas pelas pessoas e saiba responder corretamente a demanda do cliente", explica Mirela, destacando as dificuldades em atendimento em um país que, por ser tão grande, conta com gírias e termos regionais específicos. "O bot tem que ser capaz de entender tudo isso", afirma.

Mirela trabalha em uma área que vem crescendo bastante, mas onde, mesmo assim, as mulheres são minoria. Dados de 2018 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontam que elas representam 20% dos profissionais contratados na área de TI. E esse número vem caindo: de 2007 a 2017, elas passaram de 24% para 20%, conforme um estudo da Softex, com apoio da Secretaria de Empreendedorismo do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC).

Para chegar à função que desempenha hoje, Mirela afirma que tem sempre que mostrar mais empenho que seus colegas homens, desde a época da faculdade, quando estudava com 20 homens e apenas outras três colegas. "Na sala de aula ao lado, de Engenharia da Computação, não tinha nenhuma mulher. É um mundo muito masculino", lembra.

E os desafios não param por aí. No final de 2019, Mirela se divorciou e precisou alterar a rotina em casa para trabalhar e cuidar de Davi e Arthur, os filhos com 8 e 6 anos, respectivamente. "Quando a gente estava começando a se achar, aconteceu a pandemia. Acabou toda a minha rede de apoio", afirma. Com o início da pandemia de covid-19, se viu também sem a ajuda da mãe —que não a vê por mais de um ano, já que é idosa e está no grupo de risco—, de vizinhos, escola ou funcionários.

Mirela Cavalcanti - personagem - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Mirela com os filhos Arthur e Davi
Imagem: Arquivo pessoal

Na profissão, nada parou. A empresa onde ela trabalha se adaptou rapidamente ao home office e conseguiu continuar entregando bots em meio à pandemia. A tentativa de "equilibrar os pratinhos" rendeu a Mirela, entretanto, algumas situações bem inusitadas.

Uma delas foi quando participava de uma reunião por videoconferência e teve que parar tudo porque o dente do filho mais velho, que estava mole, tinha acabado de cair. Durante a entrevista com Tilt, feita por telefone, ao fundo era possível ouvir uma flauta sendo tocada em alto e bom som. "É o Davi. Expliquei às crianças que teria uma reunião, mas é assim. Com o tempo, a gente vai se organizando e entendendo o espaço de cada um", diz, em voz calma.

Fã do modelo híbrido, Mirela diz que gostaria de seguir em casa, tentando colocar ordem em tudo e ir vez ou outra para a empresa para ver as pessoas. "Costumo brincar e dizer que ir trabalhar é meu dia de descanso. Mas a pandemia tem me ensinado a aceitar que não existe perfeição, e que está tudo bem se alguns dos pratos caem. Vida que segue.".