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Fazemos ciência de ponta, mas só temos mesa e cadeira, diz astrofísica

Mirthyani Bezerra

Colaboração para Tilt

14/11/2020 04h00

A astrofísica Rita de Cássia dos Anjos, professora e pesquisadora da UFPR (Universidade Federal do Paraná), sentiu na pele as diferenças de fazer pesquisa científica no Brasil e na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, uma das melhores instituições de ensino superior do mundo.

Em suas pesquisas, Anjos estuda a origem dos raios cósmicos e no passado fez um pós-doutorado em astrofísica na universidade estadunidense.

Ela conta que pesquisadores no Brasil são "guerreiros" porque mesmo sem investimento financeiro e apoio conseguem produzir ciência de ponta no país. Porém, comparando as duas realidades, é frustrante ver que, aqui, cientistas não têm o básico para desenvolver suas pesquisas.

"É muito triste você ver que estudou no mínimo 10 anos — quatro anos de graduação, dois anos de mestrado, mais quatro anos doutorado. Às vezes, fez pós-doutorado—, para aí passar [em um concurso para ser professor] numa universidade e não tem o básico. Você tem uma mesa e uma cadeira para você sentar", contou durante o "Conversas na Crise", série de entrevistas promovidas pelo Depois do Futuro, do Instituto de Estudos Avançados da Unicamp (Universidade de Campinas) e UOL.

Esse cenário é outro em Harvard, segundo Anjos. "Quando você vai para uma instituição como Harvard você chega lá e eles falam 'aqui está o teu fomento [recurso financeiro] e dois alunos para você trabalhar. Não se preocupe com aula, faça sua pesquisa, se adapte ao ambiente e depois você dá aula", ressaltou.

Já no Brasil, professores universitários estaduais e federais têm que fazer ensino, pesquisa e extensão. Além disso, eles ainda dão conta da parte administrativa, que não é pequena, e que é essencial para fazer ciência no Brasil, acrescenta a pesquisadora.

"Em Harvard, você tem um secretário para um professor. Na universidade pública [nos EUA], você tem um secretário para um departamento, para cinco ou 10 professoras. Mas comparado com a gente, principalmente de campus mais afastados, como o meu caso, às vezes a gente [professores] é que tem que secretariar a reunião porque só tem um secretário e ele está em outra reunião", compara.

Rita de Cássia dos Anjos disse reconhecer que o investimento financeiro para ciência em Harvard "é muito gritante", que trata-se de uma instituição rica e com uma realidade diferente até das universidades públicas nos Estados Unidos.

Mesmo assim, ela conseguiu observar durante o estágio em pesquisa que fez na Cuny (Universidade da Cidade de Nova York) — que é pública — que os professores possuem apoio administrativo mesmo com menos investimento e menor estrutura física. O que não acontece em universidades brasileiras, critica.

Para ela, é esse investimento financeiro e boas condições de trabalho que têm feito os cérebros brasileiros saírem do Brasil. "Lá, eles sabem que a ciência é primordial para o desenvolvimento da sociedade. É bonito de ver", afirma.

Qual seria a solução?

Anjos afirma que o Brasil já tem todas as ferramentas para se tornar uma potência na produção de ciência em diversas áreas.

"Se fala muito que tem que ter um projeto para o Brasil, um projeto para ciência. Mas nós já temos projetos para a ciência e em diversas áreas, temos capacidade intelectual, temos especialistas em todas as áreas, (...) mesmo assim, isso não é valorizado", afirma.

Para ela, os projetos existem, mas faltam "dirigentes" que os apoiem. "Eu não to falando desse ou daquele governo, estou falando da política, estamos frustrados com a política que acontece no Brasil há muitos anos", diz.

Para a astrofísica, uma saída seria trabalhar melhor uma conexão entre a academia e a indústria, diminuir a burocracia para que as universidades estabeleçam convênios com empresas.

"Hoje a gente não tem um link entre a ciência que é desenvolvida na universidade, a indústria, a gente não produz quase nada, e os convênios que a gente consegue fazer são muito burocráticos. É um ambiente que não consegue se mover, fazer muitas coisas", explica.

Ela citou durante a entrevista o exemplo da fabricação de um aparelho que fixa a lente da câmera de telescópios desenvolvido por uma empresa de São José dos Campos, em uma parceria com pesquisadores da academia.

"A gente tem tudo aqui: física básica, pesquisadores, indústria. (...) Nossa ciência é de qualidade, não só de quantidade (...), e o impacto científico do Brasil fora [do país] é bem visto, bem reconhecido, mas a gente não consegue passar disso. Podemos colaborar com a parte técnica, com a indústria", acrescenta.