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Parentes no divã: o que nos faz bloquear o grupo da família no WhatsApp?

Carla Borges/UOL
Imagem: Carla Borges/UOL

Matheus Pichonelli

Colaboração para Tilt

02/10/2020 04h00

Sem tempo, irmão

  • Tilt ouviu histórias de pessoas que tretaram feio no grupo da família no WhatsApp
  • Motivos foram os mais diversos: homofobia, machismo.... e, claro, política
  • Psicanalista aponta três causas principais para quebra-pau dentro dos grupos
  • Mas, verdade seja dita, as relações familiares nunca foram fáceis

Alerta de textão: o climão está acabando com a tradicional família brasileira, mas... isso é ruim?

Logo mais chegam os encontros de fim do ano, que já não eram mais os mesmos mesmo antes da pandemia. O primo já não olha para a tia. O irmão que vive no interior sequer dá notícias. Poucos mandam felicitações nos aniversários. Sobrou gelo até para a mãe. O racha, dessa vez, não é culpa do cunhado que levou pipoca e comeu salmão no último Réveillon, e sim dos grupos da família no WhatsApp.

Criada em 2009, a ferramenta prometia unir as ovelhas desgarradas da família em uma corrente diária de bom dia, boa tarde e boa noite abençoados. Mas não foi bem isso o que aconteceu. De lá para cá, relatos de barracos e/ou bloqueios a parentes, além de abandonos dos grupos do WhatsApp, se tornaram tão comuns quanto a piada do pavê.

As razões ouvidas pela reportagem são muitas e diversas: piadas machistas, homofobia, xenofobia, intolerância religiosa, memes com pessoas gordas e pobres, vídeos de maus tratos a animais, overdose de mensagens motivacionais, montagens de Jesus abraçando ursos. Teve gente que falou da ansiedade causada pelas milhares de mensagens e, claro, do quebra-pau gerado por política e pelas fake news.

"Estava cansado de fake news de saúde, do tipo limão com água morna de manhã faz bem ou tapioca e óleo de coco no café emagrecem", diz um chef de cozinha de Curitiba que costumava rebater pacientemente as mensagens. Certo dia, alguém mandou "um daqueles quadrinhos horríveis de bom dia" e um familiar brincou: "tomara que ele não conteste esse 'bom dia' também". Foi a deixa que faltava para ele sair do grupo e nunca mais voltar.

Tilt ouviu o relato de uma pessoa que deixou o grupo após o tio fazer piada da capacidade feminina de dirigir. "Ele achou que seria engraçado expor a própria mulher ao volante."

Houve casos também de debandada após duas tias fofocarem sobre a sexualidade de uma sobrinha que se assumiu lésbica.

Em outro grupo, uma pessoa vegana bloqueou os parentes após um primo mandar um vídeo em que uma galinha era alvejada por um tiro de espingarda antes do almoço —teve quem riu.

Houve até racha após uma guerra entre seguidores de Silas Malafaia e Átila Iamarino num grupo criado justamente para discutir prevenção ao coronavírus.

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Imagem: Carla Borges/UOL

O inferno são os primos

Nada, porém, tem sido mais letal do que o vírus que infecta e faz estragos na boa convivência nos grupos de WhatsApp de colegas do trabalho, da vizinhança e até do futebol: política.

No grupo da professora de história Renata*, foi uma prima que tomou a iniciativa de juntar virtualmente a parte da família que ainda mora em Minas Gerais e a outra parte está espalhada pelo mundo.

"Não tinha contato havia anos com muitos primos e tios ali. Era legal compartilhar fotos dos bebês, se solidarizar com algum problema de saúde, as orações diárias compartilhadas não incomodavam, mas o clima começou a pesar quando um primo e uns tios compartilhavam notícias difamatórias", relembra.

A gota d'água, conta, foram as notícias ligadas às eleições de 2018. "Saí do grupo no início do ano, porque não queria bater boca", disse.

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Imagem: Carla Borges/UOL

Mas quando começaram a surgir notícias falsas relacionadas à eleição, Renata* pediu para voltar. Não para convencer ninguém a mudar o voto, mas para que refletissem sobre o nível baixo das mensagens, diz.

"Minha família tem negros, todos saíram da zona rural, muitos primos em universidades públicas pela primeira vez em gerações, mães solo, primos homossexuais, todos ali sendo ofendidos com as declarações e insinuações agressivas, intercaladas com GIF de oração ou imagem de 'boa ação' em seguida", resume. Um dos primos era quem fazia o elo do "gabinete do ódio" com a família, segundo ela.

Certa vez, ele publicou um vídeo "claramente forjado". "Aquilo me subiu. Fiz vários textos pegando cada ponto contraditório do vídeo, mas num tom conciliatório", lembra. Em vão: o primo nunca respondia. Mas um dos tios logo saiu do grupo, enquanto outra prima postava qualquer coisa para dissipar.

As eleições de 2018 também fizeram a promotora de vendas Aline passar o Réveillon daquele ano em silêncio. Ela saiu do grupo da família por criticar o presidente eleito Jair Bolsonaro e receber um sermão de uma tia. "Ela dizia que era pobre, porque gente como eu defendia ladrão, bandido e esquerdista. Me chamou de comunista e drogada."

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Uma jornalista, que pediu para não ser identificada, conta que "perdeu" a mãe no grupo porque ela discordava das posições políticas das filhas. No pior momento, elas se queixaram de uma fake news postada pela mãe que atribuía à imprensa a culpa pelo destaque dado à nuvem de fuligem que pairou sobre os céus de São Paulo em 2019, como se fosse uma invenção para prejudicar o presidente recém-eleito.

Duas pessoas disseram a Tilt que a decisão de sair dos grupos da família foi traumática por um motivo especial: elas moram fora do país e, muitas vezes, o WhatsApp é uma maneira de saber notícias dos familiares.

Um deles conta que o motivo para o rompimento foi uma resposta que ele recebeu de uma prima após postar uma reportagem que desconstruía a imagem eurocêntrica em torno de Jesus Cristo. "Comunista" foi o adjetivo mais suave da mensagem.

Até então ele tinha como princípio jamais bloquear pessoas nas redes sociais, por mais distantes que fossem os pontos de vista. A violência do ataque o fez mudar de ideia. Desde então, ele bloqueou a maioria dos parentes que o agrediam por discordâncias, inclusive no Facebook.

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Imagem: Carla Borges/UOL

Orgulho e preconceito

Na maioria dos casos, política é o nome genérico do escudo usado em forma de meme e corrente anônima para espalhar preconceitos e questões sensíveis aos integrantes do grupo.

"Saí do meu grupo familiar por postagem homofóbica e por motivos partidários", desabafa a historiadora Ivete. "Um sobrinho postou a imagem de um menino assistindo a uma cantora travesti com a legenda: 'isso influencia nossas crianças'. Como temos uma irmã lésbica, isso nos revoltou. Minha outra irmã saiu em defesa dela, usou palavras fortes e foi expulsa do grupo. Faz dois anos e nunca mais retornamos."

No caso de Vanessa, também jornalista, o estopim para sair do que ela chama de "grupão" da família foi uma discussão após os tios caçoarem da falta de um dos dedos no ex-presidente Lula. "Meu avô, pai dos tios engraçadões, não tinha as duas pernas, era operário e não tinha diploma, mas todos o amam e falam sobre como era inteligente."

Mas nem sempre as ofensas ou comentários partem dos parentes mais identificados com os grupos conservadores, hoje associados às investigações policiais por disseminação de fake news.

A advogada Valquíria fazia parte, até outro dia, de um grupo de parentes, a maioria petistas, e toda vez que questionava as publicações era chamada em tom jocoso de "militante do PSTU e do PCO". "Recebia mensagens pedindo ajuda financeira aos filhos do Lula. Havia um boato dizendo que eles não conseguiam pagar a conta de luz."

Também sob anonimato, um estudante de medicina conta que no grupo da família a maioria era identificada como progressista, então ela se incomodava quando compartilhavam notícias de sites associados aos partidos de esquerda. O estopim para ela foi quando usaram a carta de suicídio do ator Flávio Migliaccio como uma espécie de manifesto contra Bolsonaro.

Para muitos, a saída para contornar a tensão com os parentes foi criar novos grupos e restringir a participação aos familiares mais próximos — o que significa manter contato quase sempre só com quem compartilha as mesmas afinidades políticas. Foi o caso da advogada Liz. Cansada das "palestrinhas" dos primos, que chegaram ao auge quando tentaram explicar para uma prima, que mora na Alemanha, como o governo de Angela Merkel havia prejudicado o país onde eles nunca pisaram, ela criou um grupo paralelo denominado "Sem os ranzinzas".

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Imagem: Carla Borges/UOL

A família no divã

Não é por acaso que a política tem sido um divisor de água no convívio familiar. Segundo o psicanalista Christian Dunker, professor de Psicologia Clínica e coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo), as tensões manifestadas nos grupos da família têm se acirrado, sobretudo de 2018 para cá, por basicamente três motivos:

  • As supostas ameaças aos valores familiares politizaram essa esfera da sociedade, e isso inclui o WhatsApp;

"A retórica de que as famílias estavam sob ameaça, de que havia ingredientes de 'contaminação' em relação à sexualidade, a valores conservadores, trouxe o debate político de alguma maneira para dentro do espaço familiar", afirma o psicanalista.

  • As pessoas prestam mais atenção no discurso e nos modos de tratar dos familiares;

Isso aconteceu, segundo Dunker, por causa do surgimento de novos atores políticos em movimentos como o feminista, a luta antirracista, que pensam a política não apenas na sua forma macro (a feita por governos, partidos, entidades), mas a política das nossas relações cotidianas, inclusive em relação à violência exercida muitas vezes dentro do ambiente doméstico.

  • A ideia de que as nossas identidades estão em risco

Segundo Dunker, as pessoas mais alinhadas ao discurso conservador que pauta o governo do presidente Jair Bolsonaro estão mobilizadas em torno da ideia de que a sociedade como elas conhecem está em risco. A identidade delas está sob ameaça, e por isso elas são contra a expansão de outras identidades.

"É uma razão pela qual as famílias foram tocadas transversalmente, e não só na ocasião das eleições, mas depois também. Isso permaneceu como fonte de ressentimento, conversas difíceis, separação, porque estamos diante de um discurso que não comporta muita mediação", afirma o psicanalista.

Segundo Marco Aurélio Nogueira, professor de teoria política na Unesp (Universidade Estadual Paulista), o interesse relativamente recente das pessoas por política poderia ser positivo, mas se tornou tóxico com o tempo.

"Houve uma entrega muito passional ao debate político que gerou uma exaustão, um cansaço. E isso não se restringe à família. Nos grupos de amigos é a mesma coisa. A gente passa a evitar o contraditório por cansaço, como se houvesse overdose de discussões".

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Segundo o especialista, isso se deve "à imperfeição da nossa democracia, que você pode atribuir à imaturidade". "As coisas andaram juntas. Saímos de ditadura, e não se discutia política publicamente."

De dez anos para cá, avalia o professor, a disposição ao debate se intensificou com a cobertura midiática e a expansão das redes sociais. "Foi crescendo junto uma animosidade que deriva de uma espécie de falta de treino. As pessoas não estavam preparadas para esse embate."

Nogueira pondera que muita gente atribui esse problema à comunicação digital, mas não é tão simples. "O que a gente faz de errado nas redes é reflexo do que a gente faz de errado na vida", diz ele. Além disso, as relações familiares nunca foram fáceis, e isso não seria diferente dentro do grupo de WhatsApp.

"A família sempre tem um componente de sofrimento. Não é um ambiente prazeroso, embora tenha momentos prazerosos. Quando eu era jovem eu não adorava ir aos casamentos da família. Sempre tinha os tios, as cobranças, as perguntas, quem casou, quem não casou. Fico tentado a pensar que essa má vontade de fazer discussão política é desculpa para explicar por que a família perdeu o valor e fomos empurrados para um gueto menor, formado por pai, mãe e filho. No fundo, é uma fantasia pensar na família grande reunida no Natal. Na vida urbana, isso praticamente acabou."

* Os nomes foram alterados a pedido dos entrevistados. Eles estão cansados de briga.