PUBLICIDADE
Topo

Pandemia da ignorância: emburrecemos na última década ou é só mais acesso?

Unsplash/@unitednations
Imagem: Unsplash/@unitednations

Matheus Pichonelli

Colaboração para Tilt

19/05/2020 04h00

Está provado, mas isso a mídia não vai mostrar: amigo do primo do vizinho contou que um panda chinês morre de infarto cada vez que alguém manda no grupo de WhatsApp aquela receita milagrosa para matar o coronavírus na base do chá ou da água quente.

Não, a história acima não é verdade. Mas, se esta mesma mensagem viesse embalada num card mal desenhado com os devidos créditos a um cientista desconhecido formado por uma universidade inexistente, a chance de ela replicar era razoável. Por muito menos, houve quem gravasse um tutorial de como afogar o vírus com uma overdose de quinino da água tônica. Tem gente convicta também de que uísque e mel são tiro-e-queda para brecar a pandemia. Que álcool em gel não tem a mesma eficácia do bom e velho vinagre. E que tudo bem beber ou injetar desinfetante só porque Donald Trump mandou.

No meio de tanta desinformação, o drama de quem tem o trabalho baseado nas evidências é assim resumido pelo médico e chefe de pesquisas do Hospital Albert Einstein, Luiz Rizzo: as redes sociais atrapalham imensamente a produção científica. Nas redes, a prudência diante da escassez de informações a respeito de um novo medicamento é soterrada por milhares de mensagens dizendo que alguém tomou e melhorou. É o que Rizzo chama de Medicina BBB.

Essa competição com as correntes falsas ou baseadas em meias verdades não estava no horizonte da comunidade científica durante a epidemia da H1N1, em meados 2009. Médicos e cientistas chegam a lembrar daquele tempo com saudade. Naquele ano, o Facebook tinha menos de 500 milhões de usuários. Muita coisa, é verdade, mas o botão de curtir, assim como o WhatsApp, eram ainda uma novidade.

A geringonça de Mark Zuckerberg já fazia estragos, mas nada que se compare com o potencial explosivo de uma rede que conta hoje com 2,3 bilhões de inscritos onde diariamente os tios-avôs do mundo todo compartilham alertas relacionando vacina a autismo ou botando em dúvida o formato da Terra.

Em vez de carros voadores, as linhas de produção científica atuais precisam o tempo todo interromper a construção das pontes e objetos do futuro para defender e explicar conceitos consagrados desde a Grécia Antiga. É um trabalho dobrado em tempos de pandemia.

Pandemia da ignorância: emburrecemos nos últimos dez anos? 2 - Unsplash/@unitednations - Unsplash/@unitednations
Imagem: Unsplash/@unitednations

O ignorante, afinal, não sabe que é ignorante. Ele só enxerga até onde o nariz alcança. É diferente de quem botou a cabeça para fora de casa e se assustou com a vastidão do universo; este já se conformou com o dilema socrático: só sei que nada sei.

O ignorante não. Se ele não viveu, não aconteceu. Se não se infectou, a gripe não existe. Se está vivo, não há drama. E se seus pais sobreviveram a regimes autoritários, o autoritarismo é só conversa fiada.

Assim, sem saber que passa vergonha, ele dorme tranquilo com a certeza de que lacrou, enquanto quem sabe ligar os pontos vive angustiado pela dúvida.

Dez anos depois da primeira curtida no Facebook, a confusão resultante da avalanche de informações e desinformações permite dizer que emburrecemos de lá para cá? A pergunta está em aberto, mas o dilema sobre os retrocessos geracionais não é privilégio deste século.

Em 1935, o compositor Enrique Santos Discépolo cantava, na música "Cambalache", que o mundo dos anos 2000 seria a mesma porcaria dos anos 500. No século 20, lamentava ele, dava no mesmo ser ignorante ou sábio, generoso ou vigarista. Tudo era igual. Nada era melhor, fosse "um burro ou um grande professor".

No século 21, a ignorância se empoderou. Virou plataforma política, enquanto cientistas foram mandados para o paredão dos inimigos da pátria, da baderna, na falta de fé ou de pensamento positivo. Não era tecnologia, era feitiçaria.

Em um artigo recente, o jornalista Lourival Sant'anna, do Estadão, disse ter aprendido nas coberturas de tragédias, guerras, terremotos e até epidemias que o pensamento mágico se torna mais forte quanto mais as pessoas se sentem vulneráveis. Assim, se a realidade é dolorosa e ameaçadora demais, o incentivo para fugir dela se torna maior.

É quando os fatos ficam irrelevantes diante de sentimentos, impressões e opiniões. "Assim como a racionalidade, a irracionalidade também tem uma lógica interna, um funcionamento capaz de se retroalimentar e reforçar, independentemente dos fatos", escreveu.

Em 485 dias como presidente, Jair Bolsonaro deu 967 declarações falsas ou distorcidas, de acordo com a agência de checagem de notícias Aos Fatos. Quando veio a pandemia, essa postura mostrou seu poder de produzir estragos.

Em março, ele anunciou que o número de infectados pelo coronavírus na região norte do país era pequeno, porque grande parte da população local usava a cloroquina como "vacina" contra a malária. Semanas depois, o colapso no serviço de atendimento de saúde e funerário em Manaus precisou ser desmentido com mentiras de que caixões eram enterrados vazios com o intuito apenas de apavorar a população.

Com base no cruzamento de dados de georreferenciamento e da votação de Bolsonaro em 2018, um pesquisador da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, já apontou evidências de que quando o presidente desdenha da pandemia, o isolamento social cai em muitos de seus redutos eleitorais.

Pandemia da ignorância: emburrecemos nos últimos dez anos? 3 - Unsplash/@unitednations - Unsplash/@unitednations
Imagem: Unsplash/@unitednations

Essa baixa reverência aos fatos vira a pororoca entre ignorância e negligência, que desemboca nos smartphones das melhores famílias.

Antes de serem desmentidas, as notícias falsas ou erradas circulam livremente na corrente sanguínea das redes, tirando do isolamento e dando a sensação de pertencimento a cidadãos desinformados que se conectam e passam a ser direcionados e municiados com os argumentos mais fajutos.

A mesma rede que permite viajar, baixar livros, filmes ou fazer visitas virtuais a museus do mundo todo colocou na mesma linha do tempo quem queria apenas postar fotos de gatinhos ou despejar a frustração com um mundo num sábado à tarde. São o alvo fácil para quem jura ter explicação sobre todos os seus fracassos profissionais, existenciais e morais. Como Sherazade, grupos organizados entregam meias verdades e teorias da conspiração a conta gotas para prender a atenção dos cidadãos que entram no negócio com apenas dois ativos: medo e raiva.

Sobre eles o psicanalista e escritor Contardo Calligaris escreveu:

É o injustiçado cultural. Nos últimos 20 anos, ele não leu um livro, não frequentou cinema, teatro, exposições ou shows. Em vez de acusar sua preguiça e ignorância, ele prefere pensar que o seu direito à cultura lhe foi sonegado por um complô de esquerdistas ou marxistas, que se apoderaram da produção cultural

O que as redes oferecem é um atalho, uma sensação de que podemos gritar "Eureka!" ao fim de 280 caracteres sem precisar nos aprofundar em nada. É tentador demais para dizer não.

Pouco antes de morrer, em 2016, o escritor e filósofo italiano Umberto Eco afirmou que as redes sociais deram o direito à palavra a uma "legião de imbecis" que antes falavam apenas "em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade".

Seria necessário acompanhar a escalada de burrice de um mesmo cidadão ao longo do tempo e exposição ao uso das redes para dizer se ela se intensificou, foi estimulada pela manada ou apenas ficou mais visível nos últimos anos. O gráfico poderia ser medido pelo consumo de alfafa ao longo do tempo.

Mas até para mensurar a estupidez é preciso cautela científica.

O que dá para cravar é que as redes facilitaram a gritaria —ou o relincho. Antes, para expor uma ideia, era preciso colocar no papel, pensar na logística, na gráfica, na impressão, na tinta, etc. A banca de jornal era um filtro, e sua vitrine não comportava a quantidade de publicações abortadas por gente que tentou imprimir uma ideia e engasgou com a tinta.

As redes facilitaram a vida de uma nova parcela. Basta clicar e, pronto, pode rosnar em paz. Na melhor das hipóteses, pode dar em nada. Na pior, pode agravar uma crise sanitária ou criar atritos desnecessários com o maior parceiro comercial.

Talvez já fosse assim nos tempos de Sócrates. Por sorte, não há registro de quantos haters chegaram aos ouvidos do grande filósofo acusando aquele papo todo de querer transformar a Grécia Antiga em uma nova Venezuela.