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Cães escolhem produtos por reconhecimento facial, mas isso funciona?

Imagem do vídeo publicitário da Petz sobre tecnologia de reconhecimento facial Pet-commerce - Reprodução/YouTube Petz
Imagem do vídeo publicitário da Petz sobre tecnologia de reconhecimento facial Pet-commerce Imagem: Reprodução/YouTube Petz

Naiara Araújo

Colaboração para Tilt

29/07/2020 14h47

Se você tem um cachorro, certamente já se pegou comprando produtos que não sabia se ele gostaria. Agora a tecnologia pode ajudar você. Uma ferramenta de reconhecimento facial da rede de pet shops Petz, chamada Pet-Commerce, que permite que eles participem das compras, tem viralizado nos últimos dias no Twitter.

Com a ajuda de IA (inteligência artificial), a ferramenta analisa, por meio da câmera do aparelho, se um osso, brinquedo ou bolinha que aparecem na tela em vídeos curtos despertam o interesse do cão. Atualmente, 30 produtos estão à venda no site. Se o pet interagir com o que viu, o produto vai automaticamente para o carrinho e o dono decide se compra ou não.

Embora pareça ficção científica, o serviço está funcionando há um ano e, segundo a Petz contou à reportagem, o retorno é bastante positivo.

Funciona ou não?

Por mais estranho que seja um cão fazendo compras online, a ferramenta funciona porque não é tão complicado treinar inteligência artificial para reconhecer as reações dos cachorros, segundo Fabro Steibel, professor de inovação tecnológica e diretor do Instituto Tecnologia e Sociedade (ITS). Ele avalia que a ferramenta oferece bons resultados e seu reconhecimento gestual é muito eficiente.

"A ferramenta vai reconhecer a cara do cachorro, vai conseguir encontrar alguns dos traços característicos de aprovação ou desaprovação e indicar se o cachorro está gostando ou não. É isso que vai se propor a fazer esse tipo de sistema", diz Steibel.

Ele ressalta a diferença entre reconhecimento facial e identidade facial. No segundo caso, é não apenas reconhecer o rosto, mas atribuir a ele uma identidade —é o que fazem nossos celulares, por exemplo. Com os cães "clientes", o que se tem é um reconhecimento facial. "A primeira coisa que tem que funcionar é a captura da cara do cão e isso não é muito difícil", diz.

Em humanos ainda é difícil reconhecer emoções com o reconhecimento facial. "As técnicas que existem conseguem olhar movimentos, mas elas não conseguem dizer se você sorriu porque está feliz ou se colocou a boca para baixo porque está triste", explica o diretor do ITS.

Já no caso dos cachorros, é mais fácil interpretar essas emoções. A empresa Tudo de Cão foi a responsável por compartilhar os conhecimentos sobre os comportamentos caninos para treinar a ferramenta da Petz.

O segredo do software é um amplo banco de dados das reações de diferentes cachorros. De acordo com Leonardo Ogata, especialista em comportamento animal e cofundador da Tudo de Cão, mais de 20 mil imagens de cães foram analisadas e usadas no treinamento da IA.

"A nossa função era dizer qual era o nível de interesse do cão nas imagens. Quando você aponta a câmera [para o cão], o software vai capturando frame a frame e jogando para esse banco de dados, perguntando se o cão tem interesse ou não", explica Ogata.

O projeto encontrou alguns obstáculos. O maior deles foi descobrir como conseguir uma resposta emocional a partir da visão e da audição, já que o olfato é o melhor sentido dos cães e não poderia ser usado.

O que tornou o projeto viável foi explorar os sons de todos os produtos da plataforma. "Se o cão tem uma resposta emocional por meio do som, ele vai responder de uma maneira que vai demonstrar interesse ou não", diz Ogata.

Comportamentos dos cães

Os principais sinais que indicam se os produtos chamam a atenção do cachorro estão na orelha, no olhar e na boca. A ferramenta consegue captar essas reações e transformá-las em nível de interesse. Outro detalhe importante é atrair o olhar dos animais para os produtos.

Os cães não enxergam em preto e branco como geralmente as pessoas pensam. As cores que têm mais destaque são o azul e o amarelo. Então, todos os vídeos foram filmados com esse fundo.

"É claro que se você pegar uma bolinha que é igual à que ele brinca todo dia, a resposta emocional vai ser mais intensa. A gente fez muitos testes e os cães pegaram o mesmo tipo de brinquedo que ele tem", diz o especialista da Tudo de Cão.

O desenvolvimento da ferramenta durou seis meses. Segundo a Petz, os cães não prestam atenção em imagens estáticas, por isso, todos os produtos do Pet-Commerce são apresentados em vídeos. O serviço funciona com 80% de precisão.

Apesar de todos os esforços para garantir que os produtos realmente sejam interessantes para o cachorro, isso não garante que ele vá interagir com os brinquedos ou ossos no dia a dia. Isso porque, segundo Ogata, até mesmo os seres humanos compram pela internet produtos que acabam não usando.

Dados e privacidade

Apesar de o reconhecimento facial ser uma tendência em diferentes mercados, é necessário adotá-la com muita cautela e pensar nos impactos de suas novas aplicações. "A tecnologia é benéfica, mas essa naturalização do reconhecimento facial como algo somente positivo tem que ser vista como algo muito potencialmente grave", explica Steibel.

Mas os especialistas não veem grandes problemas sobre os dados dos bichos. Para Pedro Vale, especialista em Direito Digital do escritório Oliveira, Vale, Securato & Abdul Ahad Advogados, do ponto de vista jurídico não muda quase nada, já que quem faz a compra ainda é o dono do cachorro e o sistema apenas identifica as preferências do seu pet.

Para você comprar por meio eletrônico, tem que fazer um cadastro com o seu CPF, então aquele cadastro está vinculado a uma pessoa física. Sendo assim, o proprietário é responsável pelos dados do cão, de acordo com o Código Civil, já que não existe uma lei específica para responsabilidade civil de animais. "Ainda que o cachorro comprasse, mas não é o caso, o dono seria responsável", diz Vale.

Conforme a Lei Geral de Proteção de Dados, o usuário aceita a política de privacidade da empresa, e esta tem a responsabilidade pelo tratamento dos dados coletados.

Cuidados na compra

Se você se empolgou com o Pet-Commerce e quer usar com seu cãozinho, Ogata sugere respeitar o espaço do cachorro para ter uma experiência satisfatória. Uma dica seria usar o celular para aproveitar a mobilidade e ir até o cão sem tirá-lo da zona de conforto.

O especialista em comportamento canino também orienta que a experiência seja feita em um ambiente calmo, sem barulhos e com o animal completamente relaxado. "Se o cão estiver deitado, olhando para o nada e escutar algum barulho interessante, ele vai parar e prestar atenção e isso o software vai capturar. Se não for interessante, ele vai continuar dormindo", diz.