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Eles estão chegando: como lasers são a próxima geração de armas de guerra

Marcel Lisboa/UOL
Imagem: Marcel Lisboa/UOL

João Paulo Vicente

Colaboração para Tilt

06/03/2020 04h00

Pew, pew! Ainda não é como em Star Wars, mas talvez o mais próximo que cheguemos por um bom tempo. Empresas americanas e chinesas tentam transformar o sonho de toda criança fã de ficção científica em verdade e criar armas lasers funcionais. Vão desde canhões superpotentes para atacar drones, mísseis e veículos até pequenos rifles com capacidade menos que letal.

Só não adianta ficar de olho aberto. Ao longo do seu trajeto, o laser é invisível, ou seja, nada de raiozinhos coloridos. Além disso, se pegar na retina, corre o risco de você ficar cego. E isso não é só uma piada.

No final de fevereiro, a marinha norte-americana acusou um navio de guerra chinês de usar um laser contra um dos seus aviões de observação que sobrevoavam o Pacífico.

No incidente, o laser foi usado para atrapalhar e confundir a orientação dos pilotos do avião. Em um comunicado, o governo dos Estados Unidos chamou a ação chinesa de "insegura e não profissional".

De qualquer forma, este é um ótimo exemplo de como os lasers estão se tornando comuns no campo militar, apesar de ainda existirem poucos exemplos de resultados práticos obtidos com eles.

Tecnologias do tipo já são testadas desde meados do século 20, mas nunca para além da fase prototipal. Um marco na virada desse jogo foi o Laser Weapon System (Sistema de Arma Laser, um nome bastante criativo), ou LaWS, instalado no navio americano USS Ponce em 2014.

O objetivo do LaWS era destruir drones, mas, ao que tudo indica, ele nunca foi usado.

"Essas armas com propósitos bélicos se beneficiaram muito com o desenvolvimento da indústria. Há lasers para cortar chapas de aço. Há uma combinação de cinco ou seis desses lasers que produzem um feixe bastante intenso capaz de destruir pequenos alvos, derrubar drones ou explodir granadas", diz Luís Araujo, do Grupo de Lasers e Aplicações do Instituto de Física da Unicamp. "Mas ainda não conseguem trabalhar com alvos muito maiores."

Um laser é um raio de luz direcionado e preciso, o que faz com que seja intenso em termos de concentração de energia. "É por isso que você não pode brincar de colocar o laser de um apontador em direção aos olhos", fala o professor Mikyia Muramatsu, do Instituto de Física da USP.

É essa precisão que faz com que sejam usados como miras de armas ou de cirurgias delicadas. A luz do laser tem um comprimento de onda muito bem definido —em termos leigos, uma cor pura. Isso dá ao operador do raio a capacidade de definir o volume de energia transmitido e quais tipos de materiais irão absorvê-lo ou não.

Mas, o laser tem um rendimento energético muito baixo —ou seja, muita energia é dissipada para fazê-lo funcionar. Para se ter uma ideia, um apontador laser comum, desses que se compra em camelôs, tem alguns poucos miliwatts de potência. O LaWS, por sua vez, tem 30 quilowatts.

"Não é uma arma do tipo que se carrega no bolso. Tem que ser instalada num navio, num tanque, avião", afirma Araujo, da Unicamp. "Demanda bastante energia."

Para o exército americano, a grande promessa é um laser de 50 quilowatts a ser montado em Strykers, um modelo de carro de combate blindado. A expectativa é ter quatro veículos com os lasers em operações até 2022, com capacidade para atingir drones, helicópteros, aeronaves e mísseis.

"Esse é o momento para termos armas de energia direta no campo de batalha", escreveu Neil Thurgood, diretor de Hipersônica, Energia Direita, Espaço e Aquisições Rápidas do exército dos Estados Unidos em um relatório sobre o tema.

Mesmo diante das dificuldades, o interesse faz sentido. Ainda que demande um alto investimento para ser desenvolvido —o LaWS custou US$ 40 milhões—, depois de prontos os lasers saem baratos em relação a armamentos tradicionais e ainda dispensam o espaço e a logística necessária para transportar munição.

"Acaba ficando barato. Enquanto determinados mísseis custam centenas de milhares de dólares, o disparo em si de um laser militar custa coisa de um dólar", diz Luís Araujo.

Armas de mão

A maior parte de armamentos laser tem por finalidade o uso na defesa contra mísseis e incapacitar veículos inimigos. Alvos humanos ficam de lado —há, um protocolo da ONU que passou a valer em 1998 e proíbe o uso de lasers com o objetivo direto de cegar inimigos. (Fica a dica para não cometer um crime contra a humanidade quando for brincar com o inimigo).

Por conta disso, e da própria dificuldade em desenvolver um laser potente o suficiente em pequena escala, pistolas e rifles lasers estavam mais distantes da realidade do que canhões montados em veículos. Até vir a China. Em 2018, a empresa ZKZM Laser afirmou que havia desenvolvido um protótipo de rifle laser não letal chamado ZKZM-500.

Do tamanho de uma AK-47 e peso de três quilos, o ZKZM-500 seria capaz de carbonizar de forma instantânea carne e ossos de pessoas a até 800 metros de distância. Tudo ao custo de US$ 15 mil a unidade. Ao que tudo indica, a arma ainda não é produzida de maneira industrial.

Por aqui, podemos ficar aliviados. Os lasers ainda parecem estar longe das ruas brasileiras. "A gente sempre tem estudante perguntando se não dá para fazer uma arma laser, alguma coisa tipo Star Wars", conta Marcio Heraclyto Gonçalves, professor do Departamento de Física da UFPE. "Eu acho que tem coisas mais baratas que funcionam bem melhor hoje."

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