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Como a realidade virtual pode atrapalhar o processo de lidar com a morte

Marcel Lisboa/UOL
Imagem: Marcel Lisboa/UOL

João Paulo Vicente

Colaboração para Tilt

21/02/2020 04h00Atualizada em 02/03/2020 14h21

No começo de fevereiro, um documentário feito para a televisão sul-coreana trouxe uma cena inimaginável até pouco tempo: uma mãe reencontrando a filha morta quatro anos atrás.

Em um ambiente de realidade virtual (RV), Jang Ji-sung chora e conversa com Nayeon, que tinha apenas sete anos quando faleceu devido a uma leucemia em 2016.

A cena é triste e, em certo momento, traz ares de desespero. Jang Ji-sung usa óculos para RV, um par de luvas e a todo tempo tenta tocar na projeção da filha. Em paralelo, o filme corta para as cenas da mulher no mundo real, perdida frente a um cenário gigante de tela verde enquanto seu marido e dois outros filhos a observam.

Produzido pela Munhwa Broadcasting Corporation, "I Met You" demorou oito anos para ficar pronto. O parque onde Jang e Nayeon se encontram foi desenhado a partir de um local real onde mãe e filha costumavam passear; o rosto da garota, recriado a partir de imagens e reanimado em cima da captura de movimentos de uma atriz mirim; e suas falas, imaginadas a partir de relatos e memórias de familiares.

Mas além do assombro técnico e impacto emocional, o caso chama atenção para uma pergunta importante: como novas tecnologias vão mudar a maneira como nós lidamos como o luto.

"O luto é um processo longo e extremamente sofrido. Se começarmos a interferir dessa maneira, o luto parece se tornar algo que eu posso mudar, posso trazer de volta, mas é mentira, não é verdade, a pessoa morreu", diz Elaine Alves, psicóloga fundadora do Prestar Cuidados, empresa especializada em atendimento e consultoria em situações de perda, luto e desastres, e pesquisadora do Laboratório de Estudos sobre a Morte (LEM) da USP.

"Mesmo que ela saiba, e ela sabe que é realidade virtual, é muito verdadeiro, a gente assistindo, vendo o movimento de carinho dela, é reviver uma coisa, faz a pessoa reviver aquela emoção", afirma Maria Helena Franco, coordenadora do Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o Luto (LELu), da PUC-SP. "O que pode ser um complicador, porque quando termina ela, pode ter aquela experiência da morte de novo."

Avaliações como essas, no entanto, não impedem que a tecnologia avance para tornar cenários como o sul-coreano cada vez mais comuns. Aqui em Tilt, por exemplo, já falamos de empresas que desenvolvem chatbots capazes de emular a conversa de uma pessoa que já morreu, assim como explicamos o desafio de pesquisadores que buscam uma maneira de fazer o upload do cérebro para a nuvem e tornar a consciência imortal.

Ainda que no caso sul-coreano a recriação de Nayeon siga um roteiro e não interaja com a mãe de forma autônoma, a perspectiva de misturar tecnologias para encontrar alguém querido e já falecido está batendo a porta.

"A morte é irreversível, quase sempre nos pega de surpresa", fala Alves. Ela explica que se até antes da Segunda Guerra Mundial o contato com a morte fazia parte do cotidiano —era comum, por exemplo, morrer em casa—, avanços na ciência e medicina fizeram que com que parássemos de discutir o tema. "De repente, ficamos imortais", diz.

No entanto, essa surpresa é inevitável. E aí, é preciso passar pelo luto. "O luto não é um obstáculo para ser superado, é uma vivência muito significativa quando se perde alguém e que precisa ser vivida", diz Franco.

Esse luto tem diversas fases. Para a psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross, autora do livro "On Death and Dying" [Sobre a Morte e o Morrer] e morta em 2014, elas são cinco: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Elas podem vir em qualquer ordem, algumas pessoas não vão experimentar todas e não há qualquer duração precisa para cada uma delas.

No entanto, o reencontro com a pessoa que morreu por meio de algum suporte tecnológico pode interferir em algumas destas fases e até impedir que o processo em si comece. "É um risco alto, cruel e muito perigoso. É uma mentira", diz Alves. A pesquisadora ressalta, porém, que avalia esse cenário a partir de uma perspectiva atual. Dentro de 30 anos, pode ser que haja uma adaptação para lidar com essa tecnologia de forma diferente.

Maria Helena Franco, por sua vez, explica que hoje em dia é comum falar em vínculo continuado: o vínculo com o ente querido permanece, mas é praticado de uma maneira diferente no dia a dia. Para citar um caso concreto, isso ocorre quando se mantém uma foto dessa pessoa sempre às vistas em casa.

"Você chega em casa e fala 'boa noite'. De manhã fala 'tchau, vou trabalhar'", afirma. "Se relaciona como se fosse a pessoa viva, mas sabe que não é viva, e isso não significa que acarrete muitos problemas. De repente, [essas tecnologias] podem ocupar um lugar desses."

Namoro sem fim

Em 'Volto Já", primeiro episódio da segunda temporada de "Black Mirror", uma mulher cujo namorado morreu compra uma espécie de clone ciborgue dele para preencher as saudades. Mas mesmo no fim de um relacionamento sem morte, há luto —assim como no término de uma amizade e até mesmo uma demissão ou aposentadoria.

E em um cenário hipotético em que tecnologia como a usada no filme sul-coreano fosse empregada para dar uma sobrevida a um namoro ou casamento que já acabou, as perspectivas são ainda piores. "Aí é doentio, vai viver um mundo à parte", diz Alves.

Franco concorda: "Se a realidade virtual te mantém num mesmo lugar e não possibilita viver a vida de outra forma, acho que não é bom. Acarreta algumas dificuldades do ponto de vista psicológico de lidar com a realidade."

Pelo visto, ainda não seria essa a solução para a dor. E enquanto especulamos o que virá no futuro, vale ouvir quem passou por isso na prática.

De acordo com o site sul-coreano Aju Business Daily, reproduzido por diversos veículos ocidentais, Jang Ji-sung descreveu a experiência do reencontro com a filha morta assim: "Talvez seja um paraíso verdadeiro. Eu encontrei Nayeon, que me chamou com um sorriso, por um período muito curto de tempo, mas muito feliz. Eu acredito que tive o sonho que sempre quis".

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