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Gravidade desligada: construir discos voadores está longe de ser real?

Embora perseguida há décadas por cientistas, tecnologia dos OVNIs parece mais coisa de charlatão. - Marcel Lisboa/UOL
Embora perseguida há décadas por cientistas, tecnologia dos OVNIs parece mais coisa de charlatão. Imagem: Marcel Lisboa/UOL

João Paulo Vicente

Colaboração para Tilt

07/02/2020 04h00

Um pedido de registro de patente feito pela Marinha dos Estados Unidos no final de 2018 fez quem se interessa por ficção científica ficar de orelha em pé. Desenvolvido por um engenheiro que começa a ganhar fama pelas ideias mirabolantes, o projeto traz os planos para um veículo antigravidade capaz de atingir altas velocidades e que poderia ser utilizado tanto embaixo d'água quanto no espaço.

Para todos os efeitos, um disco voador.

De acordo com a patente, o veículo funciona por meio de um "dispositivo de redução de massa inercial". A coisa fica mais complexa ao citar geradores de forças gravitacionais e supercondutores que funcionam à temperatura ambiente misturados num caldeirão que resulta em vácuo quântico ao redor da nave — isso permitiria ignorar qualquer força aerodinâmica ou hidrodinâmica.

No pacote, há planos para uma espécie de campo de força eletromagnético resistente a mísseis e adequado para proteger o planeta, por exemplo, do impacto de um meteoro.

Depois de essa história ganhar tração na mídia em meados do ano passado, cientistas mais ortodoxos, digamos, levantaram uma sobrancelha inquietos. Brian Collett, professor do Hamilton College especializado em eletromagnetismo e física quântica, afirmou ao The Drive que a proposta "tem tanta semelhança à física quântica quanto teria a Força de Star Wars".

Por aqui, uma série de pesquisadores da Física e Engenharia Aeroespacial consultados por Tilt não chegaram tão longe. Olharam o tema, suspiraram, e foram unânimes no "nada a comentar".

O projeto é obra de um engenheiro aeroespacial chamado Salvatore Cezar Pais, de quem há pouquíssimas fotos online. Ele teve a ideia enquanto trabalhava no Naval Air Warfare Center Aircraft Division (NAWCAD), centro de pesquisas da Marinha dos Estados Unidos —ou seja, podemos dizer que ele é funcionário de uma instituição de renome.

A tentativa inicial de patenteá-lo ocorreu em 2016, mas o pedido foi negado em março de 2018. À época, o responsável pela análise afirmou, por exemplo, que a nave demandaria mais energia do que a gerada por uma fonte de energia nuclear para funcionar.

Oficiais graduados entraram em campo para reverter o cenário. James Cheehy, diretor de tecnologia da Marinha, disse que a proposta era legítima. Ainda que não estivesse ao alcance da mão, completou, poderia ser desenvolvida num futuro próximo. Para completar, Cheehy também destacou que pesquisadores chineses trabalhavam em ideias semelhantes — o que levou analistas a considerarem tudo como uma jogada política para reforçar a imagem do poderio militar norte-americano.

Na verdade, essa movimentação coincidiu com uma mudança de postura do país, que admitiu, no início de 2017, investigações sobre objetos voadores não-identificados. Também admitiu inúmeras pesquisas sobre temas relacionados dentro de projeto chamado Advanced Aerospace Threat and Identification Program (AATIP). Entre as revelações, estavam vídeos de OVNIs captados a partir de aviões militares.

De qualquer forma, a posição final do escritório de patentes dos Estados Unidos foi alterada e a patente foi publicada. Salvatore Cezar Pais não parou por aí. Realocado para o Strategic Systems Programs (SSP), outro centro de pesquisas da Marinha, ele registrou em março de 2018 o projeto de um reator de fusão nuclear compacto — este, por enquanto, ainda não foi aprovado.

Ao contrário de um reator de fissão utilizado nas usinas nucleares atuais, um reator de fusão teria um impacto mínimo em relação à poluição e é visto como uma das possíveis soluções para o problema energético da Terra. Por conta disso, inúmeros grupos de pesquisa buscam torná-lo realidade — algo que nos cenários mais otimistas ainda levaria décadas.

O engenheiro aeroespacial defende ter a resposta para o problema. De novo, isso não cai bem entre seus colegas da academia. Carl Willis, engenheiro nuclear e chefe de pesquisa da Verus Research, uma empresa que trabalha em projetos de reatores de fusão para o governo americano, afirmou ao The Drive que a ideia é cheia de jargões inventados, declarações sem sentido e carece de evidências com base teórica. Possui também abundância de adjetivos nebulosos e advérbios no lugar de especificações técnicas. Pesado.

A antigravidade já poderia se aposentar

A proposta do governo norte-americano está longe de ser a única que busca descobrir se é possível burlar a gravidade de alguma maneira. Em novembro de 2005, por exemplo, um projeto que propunha uma espécie de escudo supercondutor capaz de alterar a curvatura do espaço-tempo foi patenteado, também nos EUA.

Na Inglaterra, um projeto chamado Greenglow, da BAE Systems, tentou entre os anos de 1980 e 2005 encontrar solução para este "problema". Não teve sucesso. Em 2004, o GÖDE-Stiftung Foundation lançou um prêmio de 1 milhão de euros para qualquer um que conseguisse fazer objetos de 20 gramas levitarem por um minuto a uma altura de 10 cm. Ninguém ganhou até agora.

O GÖDE-Stiftung Foundation também testa experimentos que prometem resultar em antigravidade. Zero sucesso. E olha que vai longe. Um dos nomes mais antigos a se envolver no tema é o de Otis Carr, um homem que afirmava ter trabalhado como aprendiz de Nikola Tesla.

Na década de 1950, Carr levantou investimentos vultosos. Ele queria desenvolver uma máquina chamada OTC-X1 e voar até a lua em dezembro de 1959. Isso, você deve perceber, nunca aconteceu. Carr foi preso por fraudar os investidores. Hoje, pode ser que conseguisse um emprego no governo.

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