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Turnkey? Bootstrapping? Dicionário traduz o "startupês" para a nossa língua

"Nossa startup tem que obter essa "obra turnkey" antes do próximo "round"" - Divulgação/SOSA
"Nossa startup tem que obter essa 'obra turnkey' antes do próximo 'round'" Imagem: Divulgação/SOSA

Marcela Canavarro

Colaboração para Tilt, em São Paulo

01/12/2019 04h00Atualizada em 02/12/2019 18h07

Sem tempo, irmão

  • Com base em experiências próprias, especialista em inovação criou dicionário
  • De cinco anos para cá, já foram mais de 450 termos inscritos
  • Entendimento dos termos é importante para saber falar a "língua" do potencial investidor

Há dez anos no mundo das startups, Ana Letícia Rico perdeu as contas de quantas vezes saiu de uma reunião sem entender alguma das palavras-chave usadas por seus colegas. Em 2012, recém-formada na faculdade e depois de uma experiência no Desafio Sebrae, ela começou a adicionar cada palavra que não conhecia a uma tabela de Excel. Assim, seu recém-lançado Dicionário Startupês dava os primeiros passos.

"Obra turnkey foi uma das [expressões] que demorou mais tempo para eu descobrir o que significava", conta Ana Letícia, hoje especialista em inovação, startups e tecnologia, e também integrante da equipe do Nexus Hub de Inovação, no parque tecnológico de São José dos Campos (SP).

De cinco anos para cá, ela adicionou cerca de 200 novos termos: "Se eu ia para uma reunião ou palestra e alguém falava uma palavra que eu não conhecia, eu escrevia, e depois perguntava a alguém, olhava na internet, conversava com outros empreendedores. E escrevia o que eu descobria".

Uma das primeiras palavras adicionadas foi, claro, obra turnkey. Segundo o Dicionário Startupês, o termo significa, em tradução livre, "chave na mão". Ele se refere a "um tipo [de] contratação empregada em processos licitatórios no qual a empresa contratada possui inteira responsabilidade por todas as etapas da obra".

Publicado em junho, o Dicionário de Startupês é um livro digital (e-book) gratuito que inclui mais de 450 termos relacionados ao mundo das startups.

De metodologias a expressões da moda

A cobertura do dicionário é ampla. Contempla desde metodologias populares, como Scrum e Mindmaps, até tecnologias como arduino e cloud computing. A obra também inclui termos que emergiram recentemente, como fintech e blockchain, além de expressões específicas do marketing digital, como adsense e KPI.

Além disso, há uma infinidade de expressões ultraespecíficas, que costumam deixar muitos novatos perdidos na tradução do startupês para a língua portuguesa corrente.

"Uma expressão que quem entra nesse universo fica um pouco perdido é 'pivotar'. Ela vem do basquete", conta Ana Letícia. Conforme ensina o Dicionário Startupês, "como no basquete, pivotar em uma startup é girar em outra direção e testar hipóteses de mercado, mas mantendo sua base de atuação, para não perder a posição já conquistada".

Em outras palavras, é quando uma empresa precisa mudar seu eixo de atuação porque não há tantas oportunidades na forma como vem fazendo.

Ajuda dos "universitários"

Para chegar às expressões, Ana Letícia baseou-se em pesquisas na internet e na consultoria informal de um time de profissionais envolvidos com o ecossistema de startups.

Um dos passos iniciais foi consultar outros dicionários semelhantes, publicados anteriormente, e onde ela achou as expressões mais conhecidas: "Lá, eu encontrei alguns termos amplamente difundidos. Nenhum deles tinha tantos, mas muitos tinham termos-base. Eu ia fazendo um 'check' com os que eu estava usando", conta ela.

Ana Letícia também passou a lista para empreendedores de seu círculo profissional, buscando opiniões sobre a relevância e a definição dos termos. Depois de lançada a primeira edição, a autora recebeu mais opiniões, o que a levou a atualizar algumas expressões e incluir outras na segunda edição do dicionário, lançada recentemente.

Abrangência é exigência

Para Marcelo Velloso, especialista em inovação em Marketing Digital na Oslo Digital e na Fábrica de Startups, no Rio de Janeiro, o Dicionário Startupês de Ana Letícia é amplo por exigência do campo.

"Se é um empreendedor, vai precisar se adaptar... Tem que aprender termos para conseguir falar a língua do investidor, de uma aceleradora, de outra startup, ou do cara de TI... O empreendedor vai precisar falar uma língua nova", acredita Velloso.

Ele conta uma brincadeira comum no meio: "A gente vê muito o cara que é CEO de uma empresa de duas pessoas. A gente brinca que é o CEO do MEI", diz ele, referindo-se ao Micro-Empreededor Individual, forma de registro de pessoa jurídica voltada para profissionais autônomos ou freelancer.

Embora conhecer o vocabulário específico seja fundamental em qualquer área, Marcelo Velloso lembra que mais importante é compreender o conceito. "Independente de terminologia, há coisas em que é preciso entender conceitualmente. Imagina se o investidor pergunta qual é o tempo de exit, e ele diz: me explica o que que é isso... 'ah o tempo que vai ter o retorno financeiro'. Ele não sabe a palavra mas sabe o conceito", comenta Velloso.

Como ensina o Dicionário Startupês, o tempo de exit é uma informação vital a um investidor porque indica quando ele "poderá vender seu percentual da empresa, recuperar o investimento e obter lucro". Ou seja, realizar o exit é "a meta para a maioria dos empresários quando aportam dinheiro em uma startup". Por isso é importante saber como falar a língua que o potencial investidor vai entender.

Ficou curioso? Separamos algumas para você começar a se entrosar:

Blockchain ("cadeia de blocos"): "Sistema de registros que garante a segurança de transações financeiras realizadas com criptomoedas. Por meio da descentralização do armazenamento dos dados das transações financeiras, os blockchains são preservados em milhares de computadores pessoais".

Bolha: "Parte do universo digital ao qual o usuário em questão está exposto".

Bootstrapping: "Começar e crescer uma empresa sem financiamento externo, ou seja, todo o capital inicial da startup sai do bolso do empreendedor e à medida que a empresa dá lucro, o empreendedor vai reinvestindo na empresa para que ela cresça".

Chatbot (ou chatterbot ou bot): "é um software que utiliza IA (inteligência artificial) para conversa via chat (por voz ou texto) com uma pessoa real, simulando o comportamento humano"

Cliff: "Técnica para definir como funcionará o ganho de ações de um futuro sócio em uma empresa; é como se a pessoa passasse por um "estágio probatório" antes de ter direito a participação na empresa".

Down Round: "Quando uma rodada de investimento de uma empresa acontece com o valuation (valor de avaliação) inferior ao utilizado na rodada anterior. Isso acontece quando se superestima o valuation da empresa".

Due Diligence: "Fase onde as startups e seus projetos são analisados pelos investidores para avaliar os riscos e determinar se vale a pena o investimento".

Hurdle Rate: "Taxa mínima de retorno de um investidor ao aportar em um negócio".

Inbound Marketing: "Também chamado de 'novo marketing', o Inbound Marketing usa a tecnologia e o relacionamento com o cliente, como blogs, podcasts, vídeo, e-books, newsletters, whitepapers, SEO e outras formas de marketing de conteúdo, para oferecer produtos mais assertivamente".

Intraempreendedorismo: "Significa empreendedorismo interno, ou seja o empreendedorismo dentro dos limites de uma empresa já estabelecida. É o mesmo conceito quando se escreve nos pré-requisitos de contratação de um novo funcionário que ele tenha 'cabeça de dono'."

Iterar: "Significa repetir, tornar a fazer. Iterar é o processo de repetir uma ou mais vezes a mesma ação, sempre partindo do resultado anterior a cada repetição, refinando o modelo de negócio a cada iteração".

Kick off: "Expressão do futebol, que significa 'dar o pontapé inicial'. No ambiente empreendedor, assume o sentido de dar início a uma atividade, projeto ou reunião. Portando, quando se fala em uma reunião de kick-off, se fala na reunião inicial de um projeto".

Lean Startup: "Também conhecido como 'Startup Enxuta'. Método de desenvolvimento de produtos e mercados com agilidade, velocidade e interação com os clientes. Os principais princípios de uma lean startup são círculo de reação (construir-medir-aprender), produto minimamente viável (MVP), desenvolvimento contínuo e testes A/B".

Martech: "Termo formado pela junção das palavras "marketing" e "tecnologia" e utilizado para se referir a todas as iniciativas, projetos e startups que trabalham com Marketing Digital".

Mockup: "Um modelo em escala ou de tamanho real de um projeto ou dispositivo, usado para representar o produto. (...) É utilizando para vender a ideia do produto antes mesmo deste estar pronto. Um mockup se diferencia de um protótipo por não possuir funcionalidades (...)"

MVP: "Minimum Viable Product é o mínimo produto viável para se validar um problema. Em vez dos produtos serem lançados após estarem totalmente desenvolvidos, eles são lançados em estágios mais jovens (chamadas de versão alfa, beta etc.) para gerar feedback e aperfeiçoar o produto final".

O2O: "Termo que significa Online to Offline, utilizado para designar negócios como Uber ou Easy Taxi, em que o consumidor compra online um serviço que irá utilizar offline".

Project Model Canvas: "É uma página única, um diagrama visual em que é possível visualizar um projeto inteiro integrando escopo, tempo, requisitos, cronograma, entre outros".

Round: "Utilizado para se referir a uma rodada de investimento recebido por uma empresa. O primeiro investimento é o 'Round A', o segundo é o 'Round B' e etc."

Scale-up: "Empresas com pelo menos dez funcionários que crescem pelo menos 20% ao ano por três anos seguidos. No Brasil, apenas 1% das empresas possuem está característica, porém, são empresas com um grande impacto na economia: 50% dos novos empregos gerados por ano no país correspondem a novas vagas nessas empresas (...)".

Scrum: "Metodologia ágil para gestão e desenvolvimento de projetos de softwares. No Scrum, os projetos são realizados em ciclos, chamados sprints. E cada sprint representa um período de tempo no qual um grupo de atividades deve ser executado".

Serendipidade: "Ocorrência e desenvolvimento de eventos por acaso de uma forma feliz ou benéfica. Um exemplo prático é a descoberta de Arquimedes (287-212 a.C.) do princípio de Arquimedes enquanto tomava banho; reza a lenda que ele teria saído nu pela rua gritando 'Eureka! Eureka!'."

Spin off: "Uma nova empresa de produtos ou serviços inovadores que foi desenvolvida inicialmente em um projeto em uma empresa já existente, a chamada 'empresa-mãe."

Tag along: "Cláusula contratual que determina que, caso o acionista majoritário decida vender a sua parte da empresa, os acionistas minoritários adquirem o direito de negociar a venda das suas ações nas mesmas condições ou em condições muito similares às do acionista majoritário".

Tese de Investimento: "Características que um investidor procura nos empreendedores e nas startups no momento em que irá aportar seu capital. Os investidores utilizam sua tese de investimento para filtrar os negócios que irão investir e, assim, tomarem decisões mais assertivas".

Unicórnio: "Apelido dado às raras startups que, em pouco tempo, recebem uma avaliação de US$ 1 bilhão. A 99 se tornou o primeiro unicórnio brasileiro ao receber investimentos da chinesa Didi Chuxing".

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Errata: o texto foi atualizado
O termo "Hurdle Rate" se escreve com R em "rate", e não "Hurdle Hate" como estava escrito anteriormente. O texto foi corrigido.

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