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BlaBlaCar bomba no Brasil sem barulho, planeja ônibus e quer ligar interior

BlaBlaCar é app de mobilidade que deixa usuários pegarem e oferecerem caronas, "rachando" a viagem - Nadia Bormotova/Getty Images
BlaBlaCar é app de mobilidade que deixa usuários pegarem e oferecerem caronas, "rachando" a viagem Imagem: Nadia Bormotova/Getty Images

Gabriel Francisco Ribeiro

De Tilt, em São Paulo

29/11/2019 04h00

Sem tempo, irmão

  • BlaBlaCar fechará 2019 com 8 milhões de viajantes e planeja novos recursos
  • Serviço se vê como a "maior plataforma de transporte rodoviário do Brasil"
  • Em entrevista ao Tilt, diretor-geral prevê venda de passagens de ônibus em 2020
  • Serviço ainda deverá cobrar taxas e quer caronas focadas em cidades "nanicas"

A BlaBlaCar chegou ao Brasil em 2015 sem o barulho que grandes empresas de tecnologia costumam fazer para anunciar novos produtos. Com um sistema em que usuários oferecem e arrumam caronas para viagens entre cidades, o app cresceu aos poucos e já se denomina como a maior plataforma de transporte rodoviário do país. E não quer parar: mira entrar no setor de ônibus, quer fomentar caronas em cidades pequenas e planeja passar a cobrar taxas pelas viagens.

De acordo com a companhia, 2019 será fechado com 8 milhões de viajantes na plataforma aqui no Brasil, o que coloca o país como o terceiro em número de caronas no serviço (atrás da França, onde a plataforma foi fundada, e Rússia).

Ela já ultrapassou muitas companhias de ônibus em número de viajantes, mas ainda perde para algumas empresas intermunicipais. Segundo a Artesp (Agência de Transporte do Estado de São Paulo), em 2018 a Viação Cometa transportou 8,9 milhões de passageiros apenas dentro do Estado de São Paulo.

A Artesp faz a ressalva de que viagens em que haja pagamento ao motorista podem estar sujeitas a punições —o que poderia abranger usuários da BlaBlaCar. Em nota ao Tilt, a agência diz que "em viagens intermunicipais, mesmo que em carro particular, se for constatado pela fiscalização da Artesp que a viagem foi remunerada e o operador não tem licença para realizar o serviço, é caracterizado transporte irregular, com carro sendo apreendido, pontuação na CNH e possíveis muitas".

Mas, é notório que a fiscalização das agências foca em ônibus e vans, não carros particulares como a plataforma francesa oferece —é ainda difícil comprovar que houve o pagamento ao motorista de fato. A BlaBlaCar aponta que o Brasil é o país em que o número de viagens mais cresce, o que já faz a plataforma mudar de mentalidade —de um serviço sem barulho que passou a ser conhecido mais no boca a boca, já planeja se colocar com mais ímpeto no mercado, como explicou em entrevista ao Tilt Ricardo Leite, diretor-geral da empresa no Brasil.

"Queremos mudar essa percepção. Nunca fizemos grandes anúncios em TVs por responsabilidade financeira. A gente prefere ir passo a passo, gerar liquidez. A BlaBlaCar só funciona bem se tiver muita gente utilizando. A gente tem uma lógica muito regional de trabalhar rota a rota, região a região, para que o número de motoristas e passageiros cresça, tem que ter balanço entre oferta e demanda", explicou.

A grande mensagem é mudar a percepção. A gente chegou em uma escala muito relevante de produto sem fazer grande barulho. Imagina se a gente fizesse
Ricardo Leite, diretor-geral da BlaBlaCar no Brasil

Cobranças de taxas e ônibus

A BlaBlaCar atua de forma diferente de companhias como Uber em relação à mobilidade. Ao contrário da empresa norte-americana, o motorista não é recompensado e o serviço de carona, válido só para longas distâncias (70 km ou mais), visa apenas "rachar" os gastos da viagem.

A companhia também diz não recolher taxas dessa ponte que faz entre motoristas e passageiros, algo que deve mudar em breve para que o serviço efetivamente comece a gerar dinheiro.

"A gente ainda não usa o modelo de porcentagem no Brasil. Os países europeus operam em modelo monetizado que acaba financiando países com ritmos de crescimento como o Brasil. Nos mantemos porque nossa queima de capital é muito baixa, as pessoas conhecem no boca a boca. Em algum momento do ano que vem vamos começar a monetizar no Brasil, com uma taxa de cerca de 10%", explica Ricardo.

Outro recurso de monetização que deve ser inaugurado já em 2020 é a venda de passagens de ônibus em suas plataformas, nos mesmos moldes que já faz em outros países. A intenção é fazer parcerias com viações estabelecidas, que passarão a oferecer no sistema do serviço assentos vazios em seus veículos.

A estratégia é curiosa, já que a BlaBlaCar é vista como um dos motivos do transporte rodoviário em ônibus estar em queda no Brasil. De inimiga do setor, o aplicativo agora quer dar um passo atrás para se aliar às viações. Ricardo Leite afirma que ainda não pode dar detalhes dos acordos já fechados, mas a estratégia é oferecer mais opções dentro do aplicativo —e, para isso, tem que superar possíveis "birras" do setor rodoviário.

"Existe um receio natural dessas empresas, aconteceu o mesmo na Rússia. Até eles perceberem que queremos preencher as vagas no ônibus. Esse é um mercado que está se abrindo. Hoje de maneira geral as linhas de ônibus são fechadas e não permitem novos entrantes. Pelo menos nas rotas interestaduais é algo que está mudando. Devemos ter marcas novas nos próximos meses, então essas marcas conviveriam com marcas tradicionais dentro da nossa plataforma e de outras", aponta o diretor-geral.

Por enquanto somos regulados pela oferta e não pela demanda. A carona é muito adequada para cidades menores e ônibus são para maiores, faz sentido adicionar esse modal
Ricardo Leite, diretor-geral da BlaBlaCar no Brasil

Expansão para o interior e outros países

A ideia é que os ônibus sirvam para abastecer a demanda por viagens entre cidades grandes —como São Paulo e Ribeirão Preto, por exemplo. As caronas seguirão oferecidas nesses locais, mas Ricardo Leite enxerga que elas fazem mais sentido em cidades menores, onde o BlaBlaCar quer aumentar sua presença. Atualmente, a plataforma já liga 2.700 cidades brasileiras, quase metade do número total de municípios.

"Uma das grandes alavancas em 2020 é aumentar a presença em cidades menores. A nossa visão é que a carona adiciona mais valor em cidades menores, como uma de 20 mil habitantes que não conta com uma grande rodoviária ou linha frequente de ônibus", afirma Ricardo Leite.

Fora do Brasil, a companhia ainda conta com vendas de seguros de carro ou de viagens, além de na França existir um app de carona de curta distância —algo como o Waze Carpool, válido dentro das cidades. Todas esses produtos podem chegar em breve no Brasil —a companhia ainda avaliar expandir em 2020 ou 2021 para outros países da América Latina, como Peru, México, Colômbia e Argentina.

Atualmente, a BlaBlaCar está presente em 22 países. O Brasil, claro, é um dos mais interessantes para o aplicativo por causa de suas características: é largo em extensão, possui muitas rodovias e quase não oferece transporte de passageiros por trem como a Europa.

Como garantir a segurança?

Um dos receios que impede a entrada de passageiros na plataforma é a questão da segurança. Ao contrário de aplicativos como Uber e 99, onde problemas de segurança também ocorrem com a frequência, não há uma checagem de antecedentes e nem restrições rigorosas de segurança para passageiros e motoristas que utilizam o BlaBlaCar.

O cadastro básico do aplicativo para ambos envolve preenchimento de nome, telefone, email, foto e documentação (RG para passageiros e CNH para motoristas), todos dados que podem ser facilmente manipuláveis por uma pessoa mal intencionada. Ricardo Leite entende o receio das pessoas, mas diz que o segredo da plataforma está na possibilidade de "escolha".

"É legítimo esse receio. Mas você consegue antes da viagem saber com quem você vai viajar. Como viagens de longa distância são programadas com antecedência, essa comunicação é melhor. O motorista pode escolher o passageiro e o passageiro escolhe o motorista. E o mais importante de tudo são as avaliações, que podem determinar escolhas e acabam fomentando o bom comportamento", analisa.

É perfeito? Não, não não é. Mas como as pessoas podem escolher, isso acaba. Você tem avaliações, tem boca a boca, vai gerando confiança. Nada impede que a gente traga outra funcionalidade para o futuro, mas hoje essa combinação de escolha basta

Ainda assim, a BlaBlaCar já esteve envolvida em casos policiais - ainda que menos do que apps de mobilidade urbana. Em setembro de 2018, por exemplo, um motorista que deu carona pelo aplicativo foi encontrado morto em Cabo Frio (RJ) —ele teria sido surpreendido por dois passageiros armados.

Uma das funcionalidades oferecidas pela BlaBlaCar no quesito segurança é a de mulheres viajarem apenas com mulheres —algo que a Uber, por exemplo, só adicionou recentemente para as motoristas da plataforma.

Mudando a mobilidade

Ainda que esteja há poucos anos no Brasil, a BlaBlaCar já se vê como uma plataforma que muda a mobilidade do país. Entre os dados que comprovariam isso, está o de que carros de usuários da plataforma levam 3,8 pessoas por veículo, dobrando a média nacional de 1,9. Além disso, a companhia aponta que 60% dos seus usuários afirmam ver amigos e familiares com mais frequência após usarem o serviço.

"Pode ser arrogante dizer, mas o fato é que usuários veem amigos e familiares com mais frequência e isso muda com a mobilidade. A mobilidade é um meio para o fim. Se a gente consegue através da nossa plataforma fazer isso, estamos mudando sim", crava Ricardo.

A empresa não teme nem o aumento da competição no setor, com o possível interesse de empresas como Uber e a recente chegada da carona do Waze no Brasil. Para ele, "tem muitos espaços para vários modais de carona, seja carros, ônibus, e até quem sabe no futuro vans".

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