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Voz de Samuel Jackson é estratégia esperta para ficarmos íntimos da Alexa

Felipe Germano

Colaboração para Tilt

27/09/2019 14h02

Sem tempo, irmão

  • Amazon anunciou que a voz de Samuel L Jackson poderá ser usada em sua assistente virtual
  • A tecnologia consegue fazer uma inteligência artificial robô imitar o ator
  • Novidade lembra episódio com Miley Cyrus de Black Mirror, mas técnica é diferente
  • Outros apps já usaram áudios de famosos, mas programa conseguirá 'falar' como o ator

Se você se já se incomoda com a Siri, vou te dar um motivo para você detestá-la: aquela voz robótica e apática poderia ter um timbre muito mais notável. Ela poderia ter a voz mais emblemática da cultura pop. Ela poderia falar como Samuel L. Jackson. É exatamente isso que a Amazon quer fazer.

Muito popular nos EUA, e não tão conhecida por aqui, a Amazon tem sua própria Siri. Chamada Alexa, a assistente digital da empresa faz praticamente tudo que uma de carne osso faria: organiza sua agenda, pesquisa coisas na internet, se sua casa estiver equipada para tal, ela consegue até controlar temperatura e as luzes do seu lar doce lar.

Só que apesar de eficaz ela tinha um problema crônico: a falta de personalidade. Agora o problema está ao menos parcialmente apaziguado. Para trazer personalidade à máquina, a Amazon resolver se apoiar em uma das maiores personalidades do planeta: Samuel L. Jackson.

A partir do ano que vem, por apenas US$ 0,99, você vai conseguir que o intéprete do agente da Marvel Nick Fury aja como seu secretário eletrônico. Quer que ele te acorde? Fácil. Que ele te diga alguma curiosidade sobre sua própria biografia? É só perguntar.

O clichê "isso é muito Black Mirror" é um pouco inevitável aqui, pois na quinta temporada da série, o episódio "Rachel, Jack and Ashley Too" mostrava Ashley O, uma popstar interpretada por Miley Cyrus, que teve seu cérebro digitalmente copiado para uma boneca que serve como uma espécie de secretária eletrônica para fãs ao redor do mundo.

Claro que o caso da Ashley O. não é o mesmo que a Alexa com a voz de Samuel L. Jackson. Ele não terá um avatarzinho robótico com olhos nem vai poder te confidenciar detalhes sórdidos que só você e ele saberão, pois até onde sabemos, o ator não teve seu cérebro copiado. Na verdade, ele só gravou algumas frases para que a Alexa entendesse como o astro fala.

A tecnologia por traz disso tem um nome bonito mas não muito didático: são as "Vozes Neurais de Conversão de Texto" (Neural Text-To-Speech ou NTTS, em inglês). Trata-se de uma inteligência artificial que analisou a fala humana para se tornar mais natural aos nossos ouvidos.

Uma fala equipada com NTTS é capaz de exprimir emoções pela entonação, soando praticamente humana, e, agora, também consegue imitar vozes e trejeitos vocais de pessoas existentes. Na prática, ela consegue entender como Samuel grita quando vê serpentes a bordo e pensa "Opa. Eu consigo fazer igual".

Isso significa que a coisa é bem diferente de outras ferramentas que já utilizaram vozes famosas. O Waze, por exemplo, já pôs no app vozes do locutor esportivo Silvio Luiz ou do ator Arnold Schwarzenegger. Mas no caso eram apenas áudios de frases fixas que depois são usadas em uma programação simples: sempre que se virava à esquerda, a gravação "vire à esquerda na canhotinha" de Silvio Luiz entrava em jogo.

Já com a NTTS, a voz de Jackson pode ser usada em um cenário mais amplo do que simplesmente reproduzir as falas gravadas: novas frases podem ser formadas a partir daí.

Mas para que isso mesmo?

Talvez você agora esteja se perguntando se a gente precisa realmente disso. A resposta é complicada. Não necessitamos de um robô imitando uma celebridade, mas inegavelmente a capacidade de uma máquina agir como um humano —ainda mais um humano conhecido por todos nós —é algo com apelo e com potencial.

Um exemplo disso ocorreu no ano passado, quando o Google usou uma ferramenta parecida para fazer um assistente digital ligar para um restaurante, e agendar uma reserva "falando" com o atendente humano do outro lado da linha. Em paralelo, estão aprimorando técnicas como o deepfake, que simula rostos e vozes de pessoas reais, podem levar a muitos usos, incluindo criminosos.

O desejo de termos robôs para nos ajudarmos em tarefas simples é antigo. A ficção está aí para documentar isso. Da Rosie dos Jetsons à secretaria de Ela, passando por HAL, de 2001: Uma Odisséia no Espaço. Se tivermos celebridades, envolvidas, então, melhor ainda.

A união da tecnologia com o culto à celebridade é poderosíssima. Foi assim que o Twitter explodiu, como uma porta para mandar textos que seus artistas favoritos podem de fato ler. E a Amazon já avisou: Jackson é só o primeiro, e outras celebridades serão anunciadas.

Mas até que a tecnologia seja realmente lançada, é difícil saber o quanto essa imitação digital do astro de "Pulp Fiction" e "Star Wars" será precisa. A Amazon já deixou claro que a voz da Alexa não vai mudar completamente, o que pode ser um indicativo das limitações da nova tecnologia. Por exemplo, para que o Samuel te acorde, você terá que pedir "Alexa, peça pro Sam (sim, ela vai sacar que esse é o apelido) me acordar às 7".

O que dá para adiantar é que tudo será em inglês, vale ressaltar. A tecnologia ainda não conseguiu fazer com que o ator americano dublê sua própria versão em outros idiomas. Mas uma surpresa é interessante para os fãs mais boca-suja: a tecnologia terá uma versão em que o ator poderá falar palavrão livremente entre um despertador e outro.

Vai falar que não é incrível? Eu duvido. Eu duvido duas vezes.

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