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Como o Brasil virou a arma da Huawei para bater Apple e passar Samsung

José Nascimento, diretor de vendas da Huawei no Brasil - Divulgação/Huawei
José Nascimento, diretor de vendas da Huawei no Brasil Imagem: Divulgação/Huawei

Helton Simões Gomes

Do UOL, em São Paulo

03/05/2019 04h00

Quando deixou o Brasil em 2014, a Huawei vendia celulares de entrada que não chegavam a encantar nem pelo preço nem pelos atributos. Como não emplacou por aqui, foi embora. Pelo mundo, a situação não era muito melhor: via de um distante quarto lugar Samsung e Apple deslancharem. De lá para cá, o jogo mudou. Bastante.

A fabricante chinesa marcou nesta semana para maio sua volta ao Brasil. Escolheu para a reestreia o P30 Pro, seu smartphone top de linha mais potente até agora. Quase cinco anos depois, a empresa volta ao país como expoente em tecnologia e uma potência em vendas: está muito próxima de ultrapassar a vice-líder Apple e, nos trimestres em que deixa a dona do iPhone para trás, funga no cangote na líder Samsung. Diante de tudo isso, retornar ao Brasil não é apenas uma tentativa de marcar território, mas crucial para virar a maior do mundo em smartphones, conta ao UOL Tecnologia José Nascimento, diretor de vendas da Huawei.

Quando a gente pega os números de consultorias, vê que a Huawei ficou em terceiro lugar [no ano passado], mas muito perto do segundo. Mas nossos principiais concorrentes estão em fase de declínio, enquanto a Huawei está crescendo

E completa:

Quando alinha todo esse cenário com o mercado potencial do Brasil, o país certamente vai nos dar o potencial para assumirmos a segunda posição e, daqui a alguns anos, a Huawei vai ser a primeira. Quando isso vai acontecer, eu não sei. Mas o segundo lugar está muito próximo, e o Brasil é uma peça muito relevante para isso.

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Imagem: Divulgação

O diretor afirma que, em sua primeira passagem no país, a Huawei não estava preparada para as peculiaridades do Brasil. "O mercado brasileiro tem desafios que vão além de produto. Tem a questão do custo, em que você acaba falando de produção local, e a questão do pós-venda. Naquela época a gente não estava 100% estruturado para enfrentar esses desafios, mas a gente aprendeu para fazer diferente."

O que mudou?

Quando deixou o Brasil, a Huawei até que tinha uma fatia relevante nas vendas de celulares no mundo, mas não chegava a incomodar as líderes de mercado. Responsável por pouco mais de 6% dos aparelhos comercializados em 2014, segundo dados da consultoria IDC, a empresa não chamava a atenção pelo grau de inovação de seus smartphones. Até que a chinesa fez um acordo com uma icônica marca de câmeras.

"O grande divisor de águas foi o [smartphone] P9. A gente estabeleceu uma parceria com a Leica e conseguiu criar um produto premium, uma faixa em que os consumidores conseguem perceber as inovações. A gente trouxe o primeiro telefone com câmera dupla. O que parece trivial, na época foi uma revolução porque foi o primeiro celular a tirar uma foto com efeito bokeh profissional."

Desde então, outras novidades vieram, como a câmera tripla, o sensor para ler impressões digitais, a leitura desses dados biométricos na própria tela e a capacidade de fazer o celular recarregar outros aparelhos apenas encostando nele.

Apostar em inovação deu certo. A empresa fechou 2018 em terceiro lugar, ligeiramente atrás da Apple, mas já dá mostra que não deve ficar nessa posição por muito tempo. Dados das consultorias Counterpoint Research e IDC mostram que a chinesa cresceu 50% no primeiro trimestre deste ano: vendeu 59 milhões de celulares, passou a Apple (42 milhões) e chegou mais próximo da Samsung (72 milhões).

Por que o Brasil é importante?

Apesar de ocasionalmente ultrapassar a Apple, a empresa sabe que precisa ter uma participação relevante na maior quantidade possível de mercados se quiser fazer desta situação uma realidade permanente.

"A empresa se consolidou em mercados importantes, principalmente no asiático e no europeu. E existem novos mercados a serem explorados. O Brasil está entre os quatro mercados potenciais dessa indústria. Por que deixá-lo de fora?", comenta Nascimento. Só que o Brasil, você já deve saber, não é lugar para desavisados.

O Brasil não é um país a que você chega sem estar preparado. Produto diferenciado e alta tecnologia são importantes? Sim. Mas a gente precisava ter todo um planejamento em relação a escala de produção, marca, estratégia de produto e pós-venda
José Nascimento

Não foi apenas a quantidade de consumidores brasileiros que atraiu a Huawei para seu retorno. Apesar de grande, o mercado local de smartphones está diminuindo, à exemplo do que ocorre em todo mundo. Isso ocorre porque as pessoas mantêm seus aparelhos por mais tempo até trocar por um novo. Falta de perspectiva quanto a melhorias de renda e de emprego explicam o resto. Só que há uma faixa de preço em que não há crise -- e não pense que se trata dos baratinhos, não.

"Se a gente pegar os números da indústria, apesar de ver que o mercado como um todo tem reduzido, os [aparelhos] do segmento premium e intermediário vêm crescendo cada vez mais. Os consumidores não estão satisfeitos com celular de entrada, que só faz o trivial. Ele está buscando inovação."

José Nascimento, diretor de vendas da Huawei no Brasil - Helton Simões Gomes/UOL
José Nascimento, diretor de vendas da Huawei no Brasil
Imagem: Helton Simões Gomes/UOL

Produção local

É por isso que a empresa trouxe ao Brasil o P30 Pro e o P30 Lite, que custam R$ 5.499 e R$ 2.499, respectivamente. Por estes precinhos, você já deve adivinhar que estes modelos competirão com iPhone XS, da Apple, e Galaxy S10, da Samsung, e não com os baratinhos da finada linha Galaxy J, da sul-coreana. "O preço não é uma barreira", defende Nascimento.

Mesmo assim, os preços assustam, ainda mais quando são comparados com os aplicados pela Huawei na China -- por lá, alguns de seus aparelhos top de linha chegam a ser vendidos pela metade de um dos mais novos iPhones. O executivo da Huawei argumenta que isso ocorre porque a situação da empresa em seu país natal é outra:

Esses são os desafios da indústria, não só da Huawei. No Brasil, a gente tem o custo Brasil em toda relação de impostos, que acabam impactando no preço do aparelho, mas esse é o mesmo jogo para todo mundo. No mercado chinês, a gente tem toda uma estrutura montada e a cadeia de custos é completamente diferente

Para aplicar preços mais competitivos por aqui, a Huawei começará a produzir smartphones no Brasil a partir do segundo semestre. Não será em uma fábrica própria, no entanto. A montagem será feita por uma empresa parceira, cuja identidade a chinesa não revelou. Durante o glamouroso evento de lançamento do P30, realizado em São Paulo, no entanto, surgiu uma pista: executivos da Foxconn circulavam entre os convidados. A empresa é a mesma que fabrica os iPhones, da Apple.

A ampliação de portfólio, para além do P30 Pro e do P30 Lite, é outra perna da estratégia traçada para os próximos três anos. Por ora, os dois aparelhos funcionam para mostrar aos brasileiros como a empresa pode ser inovadora.

"Não vou nem dizer que a grande maioria dos consumidores está cansada da marca X, Y ou Z. Eles veem o que acontece com a Huawei lá fora, e era muito inconveniente abrir o UOL e ver o P30 Pro, melhor câmera do mundo, mas não ter isso no Brasil. Isso não vai acontecer mais. Morder a fatia dos concorrentes não é importante. O importante é ganhar a confiança desse consumidor e estabelecer a marca fabricante premium que traz inovação", explica Nascimento, para completar:

Hoje, quando chegamos ao Brasil, a resposta dos consumidores é completamente diferente. Não ouvimos mais: 'quem é a Huawei'. Ouvimos: 'que legal que vocês estão voltando. É legal ter novas empresas, novas soluções'.

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