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Thiago Gonçalves

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Poderosos e "devoradores", buracos negros raros impressionam cientistas

Ilustração do jato do buraco negro PSO J352.4034-15.3373. O destaque mostra a imagem real do quasar observada por vários telescópios - Raios-X: Nasa/ CXO/ JPL/T. Connor; Óptico: Gemini/ NOIRLab/ NSF/ AURA; Infravermelho: W.M. Keck Observatory; Ilustração: Nasa/ CXC/ M.Weiss
Ilustração do jato do buraco negro PSO J352.4034-15.3373. O destaque mostra a imagem real do quasar observada por vários telescópios Imagem: Raios-X: Nasa/ CXO/ JPL/T. Connor; Óptico: Gemini/ NOIRLab/ NSF/ AURA; Infravermelho: W.M. Keck Observatory; Ilustração: Nasa/ CXC/ M.Weiss
Thiago Signorini Gonçalves

Thiago Signorini Gonçalves é doutor em astrofísica pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia, professor do Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e coordenador de comunicação da Sociedade Astronômica Brasileira. Utilizando os maiores telescópios da Terra e do espaço, estuda a formação e evolução de galáxias, desde o Big Bang até os dias atuais. Apaixonado por ciência, tenta levar os encantos do Universo ao público como divulgador científico.

11/03/2021 04h00

Na última semana, astrônomos fizeram dois anúncios com resultados semelhantes: descobriram alguns dos buracos negros supermassivos mais distantes e poderosos já observados.

Os buracos negros supermassivos são aqueles com milhões ou até mesmo bilhões de vezes a massa do Sol, e são geralmente encontrados no centro de galáxias. Sua origem ainda é um mistério, e por isso essas descobertas são particularmente importantes.

O primeiro resultado anunciado foi a descoberta da mais distante fonte de ondas de rádio já observada. O quasar P172+18 está tão distante que sua luz leva 13 bilhões de anos para chegar à Terra, e emite quase 600 vezes mais energia que toda a nossa galáxia, a Via Láctea. Os cientistas usaram a rede de radiotelescópios do Very Large Array, nos Estados Unidos, para confirmar a descoberta.

Poucos dias depois, outra equipe anunciou uma impressionante fonte de raios-X ao observar o quasar PSO J352.4034-15.3373 com o telescópio espacial Chandra. Um pouco mais próximo de nós, sua luz levou "apenas" 12,7 bilhões de anos viajando até aqui. Por outro lado, a estrutura tem um tamanho de mais de 160 mil anos-luz, indicando a presença de um forte jato sendo emitido pelo quasar.

Quasares são buracos negros famintos. Com um disco de matéria composto por gás e poeira ao seu redor, o buraco negro está se alimentando dessa matéria e crescendo. Ao mesmo tempo, a energia gravitacional do buraco negro é tão grande que pode aquecer o disco de matéria e criar os fenômenos altamente energéticos observados em ambos os casos.

A grande surpresa aqui é a voracidade desses monstros. Embora sejam observados quando o universo tinha menos de 1 bilhão de anos (dado o tempo que a luz leva para chegar até nós), já tem um apetite de adolescente, tendo crescido a uma velocidade impressionante no pouco tempo que tiveram desde o Big Bang.

Os tamanhos e brilhos demonstrados pelos quasares indicam a sua maturidade de uma maneira surpreendente. Isso significa que o universo jovem deve ter formado buracos negros com grande eficiência.

Sobre o tamanho do jato de raios-X, Eduardo Bañados (Instituto de Astronomia Max Planck, na Alemanha), coautor do trabalho e líder do outro projeto, comenta:

"O tamanho do jato é importante porque significa que o buraco negro que o produz estava crescendo por um período de tempo considerável."

Embora não seja a primeira vez que observamos objetos semelhantes, ainda são objetos raros, e por isso mesmo são importantes alvos de estudo para entendermos o crescimento dos buracos negros supermassivos no começo do universo.