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Nova geração da IA é tão poderosa que seu uso é assustador

starline/ Freepik
Imagem: starline/ Freepik
Ricardo Cavallini

Autor de 6 livros que abordam tecnologia, negócios e comunicação. É professor da Singularity University, embaixador MIT Sloan Management Review Brasil e um dos apresentadores do Batalha Makers no Discovery Channel (Brasil e Latam). Criador do RUTE, o kit educacional eletrônico aberto, ecológico e mais acessível.

20/07/2020 14h09

Talvez vocês tenham acompanhado a novela da iniciativa do Open AI, um laboratório de inteligência artificial que tem como fundadores e patrocinadores alguns nomes bem relevantes no universo de startups e inovação, como Elon Musk, Sam Altman (presidente de uma das aceleradoras mais famosas no Vale do Silício), Ilya Sutskever (cientista de IA na Google), Reid Hoffman (cofundador da Linkedin) e Peter Thiel (cofundador do PayPal).

Digo novela porque quando divulgaram que a segunda versão de sua ferramenta de transformação de linguagem natural preditiva era tão poderosa, mas tão poderosa, que ficaram com medo de abrir a solução por completo (o que até então era o padrão da empresa).

Este tipo de ferramenta pode criar, entre outras coisas, uma avalanche de fake news quase impossível de ser detectada. Como maneira de ilustrar os riscos, ano passado a revista Wired usou a ferramenta para criar um texto falso vinculando Hillary Clinton a George Soros.

A novidade é que no dia 28 de maio os pesquisadores da empresa lançaram um "paper" sobre a nova versão de sua ferramenta, a GPT-3; agora em julho, especialistas pelo mundo têm usado a ferramenta e alguns estão assustados com a sua capacidade e suas possibilidades.

Não foi apenas um upgrade, pois a segunda versão, que já era considerada poderosa, continha 1,5 bilhão de parâmetros. Para comparar, a maior versão deste tipo de ferramenta foi anunciada pela Microsoft também em maio e tem 17 bilhões de parâmetros. A terceira versão da ferramenta da OpenAI tem nada menos que 175 bilhões de parâmetros.

Um assunto como esse é bastante complexo e tem muitas facetas, mas vou tentar explicar em três pontos o porquê de essa ferramenta ter chamado tanta atenção.

1. O que é a ferramenta?

Imagine que você seja professor e diga para os seus alunos: "por favor, façam uma redação sobre as maravilhas do Brasil com 3 mil palavras até segunda-feira".

A ferramenta, no caso, seria o aluno. Ele consegue compreender um pequeno texto e transformá-lo em algo maior. Você escreve dois ou três parágrafos e ele transforma isso em um livro. Poderia ser um testemunho falso sobre algum político, poderia ser artigos em um jornal ou poderia ser o que você quiser.

Em 2019, o criador de jogos Nick Walton, usou a segunda versão para criar um jogo de RPG que o texto das aventuras era escrito ao vivo, em tempo real. O algoritmo criou toda uma história de ficção, com um sistema mágico complexo e várias teorias. O autor detalhou o processo em seu blog (em inglês).

2. O que é possível fazer com a ferramenta?

Seu uso pode criar uma grande variedade de serviços, ferramentas e plataformas. Escrever matérias, livros ou posts em redes sociais seria apenas o começo.

A ferramenta poderia ser usada para criar assistentes pessoais, jogos e ajudar na tradução de textos, mas não pense na simples tradução.

A engenheira Shreya Shankar usa a ferramenta para transformar texto em fórmulas em LaTeX, uma linguagem que permite inserir fórmulas matemáticas complexas em texto, mas cuja sintaxe é bastante chata de usar.

O empreendedor Francis Jervis demonstrou em sua conta um exercício interessante, Ele pediu à ferramenta reescrever o texto como se fosse um advogado. Em um dos exemplos, ele escreve:

"As pessoas que estou processando são meus proprietários".

E a ferramenta apresenta o texto:

"Os réus são, de alguma maneira, os proprietários e arrendadores dos imóveis onde o autor reside."

Escrever um contrato em linguagem coloquial e pedir para traduzir em termos legais pode ter grande impacto para empresas e advogados, mas acredito que o exercício mais interessante seria justamente o oposto, ou seja, transformar textos legais em linguagem coloquial para pessoas comuns entenderem contratos e outros textos chatos, como os acordos de uso e regras de privacidade que damos ok em todos os aplicativos e plataformas que usamos.

Porém, seu uso pode ir muito além disso. Identidades falsas ativas podem ser criadas para aplicar golpes em pessoas ou até mesmo por autoridades para identificar criminosos.

3. Por que é transformador?

Tudo isso é pouco se olharmos para a ferramenta de outra maneira.

Quando falamos em sistemas computacionais, absolutamente tudo o que eles fazem é programado por um ser humano. Mas existem vários gargalos nessa interação.

A inteligência artificial está abrindo muito esse gargalo. Um exemplo disso está nos microfones e câmeras.

Imagine que você queira programar um sistema de segurança em um clube para soar o alarme caso existam crianças sozinhas na piscina. Até alguns anos atrás, isso seria inviável, pois apesar de câmeras de segurança estarem amplamente acessíveis, reconhecer pessoas e identificar suas características (como estimar idade) não seria possível. Hoje com inteligência artificial, esse tipo de comando já seria viável.

A própria linguagem de programação em si é um desses gargalos. Para que o software seja programado para fazer o que você quer, da tarefa mais simples a mais complexa, precisamos aprender a programar (ou contratar um programador) para traduzir isso em código.

Agora imagine se usarmos a ferramenta da OpenAI para traduzir linguagem natural em código.

Usando o GPT-3, o desenvolvedor Sharif Shameem, criou uma ferramenta que gera código. Ele digita "um botão para cada cor do arco-íris" e em seguida a ferramenta entra um código HTML com o CSS pronto. Ele digita "uma tabela com os países mais ricos do mundo, com colunas com nome e o PIB desses países" e a tabela é criada com a informação que ele pediu.

Em outro exemplo, ele digita "um botão que diga 'adicionar $3' e um botão que diga 'subtrair $5', em seguida mostre meu extrato" e a ferramenta gera o código em JavaScript com os botões e o extrato. Cada vez que ele clica nos botões, o extrato é alterado.

O desenvolvedor Jordan Singer criou uma solução para criar novos designs usando texto.

Ele digita "um aplicativo que tem barra de navegação com o ícone de câmera, título 'Fotos' e um ícone de mensagem. Uma timeline de fotos e cada foto contendo o ícone do usuário, a foto, o ícone do coração e o ícone do balão de chat" e pronto, a ferramenta cria a interface sozinha.

Já o desenvolvedor Ken Acquah usou para fazer pedidos serem transformados em pedidos para uma base de dados.

A empresa ainda não divulgou se pretende abrir a versão inteira da nova versão da ferramenta, mas em pouco tempo já foi possível entender que a cada dia que passa, a inteligência artificial tem entregue suas promessas. Coisa que poucos anos atrás ainda seria considerado ficção científica.