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Pedro e Paulo Markun

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Antes de criar metaverso, Zuckerberg deveria resolver problemas que causou

Mark Zuckerberg e seu avatar durante demonstração dos seus planos para o metaverso - Reprodução
Mark Zuckerberg e seu avatar durante demonstração dos seus planos para o metaverso Imagem: Reprodução
Pedro Markun e Paulo Markun

Pedro Markun é hacker e ativista pelos dados abertos, pai da Maria e da Tereza e trabalha com transparência e participação política. Criou o Laboratório Hacker, o Ônibus Hacker e o Jogo da Política. É autor dos livros para crianças "Quem Manda Aqui?" e "Eleição dos Bichos", além de desenvolvedor Python, fuçador de Arduino e um entusiasta do futuro. Paulo Markun é jornalista e escritor, tem três filhos e quatro netas. Nasceu em 1952 e é jornalista desde 1971. Já fez de tudo um pouco (jornal, revista, rádio, televisão e internet), criou veículos de comunicação, dirigiu outros tantos. Agora, na casa dos 70 anos, Oculus no rosto, busca as portas de entrada para a terra prometida pela tecnologia que, espera, não será apenas dos nativos digitais.

Colunistas do UOL

01/11/2021 10h48

Na última quinta-feira, um dos homens mais ricos e poderosos do mundo deu uma pirueta radical ao vivo e a cores. Enquanto outros dois bilionários, Jeff Bezos (Amazon) e Elon Musk (SpaceX), competem para ver quem irá chegar primeiro em Marte, Mark Zuckerberg se propõe a ir além: em vez de construir plataformas espaciais ou colonizar outro planeta, pretende criar um universo inteiro.

Ele fez essa promessa durante o evento anual de sua empresa que foi devidamente registrado por Tilt, e todas as novidades e lançamentos você pode acompanhar aqui.

Na visão desses colunistas, para além das novas ferramentas, jogos e dispositivos mencionados no evento, há duas coisas que chamam a atenção.

A primeira e mais óbvia delas é a mudança de nome da firma. A partir de quinta-feira, a empresa de Zuckerberg deixou de usar a marca Facebook e passou a se chamar Meta. A Rede Social, até agora, o principal produto da empresa, segue existindo, mas a companhia como um todo adota outra denominação.

Shakespeare diria que uma rosa, com qualquer outro nome, vai ter o mesmo perfume.

E, nessa mesma toada, encontramos gente nas redes sociais e na mídia afirmando que a mudança de nome não passa de uma tentativa de fazer um "brand washing", lavar a marca após recorrentes problemas de imagem que ela vem sofrendo nos últimos anos.

Para essa turma toda, no fim das contas, a Meta seguirá sendo o mesmo empreendimento bilionário que transformou a vida social das pessoas em mercadoria e que lucra no que é chamado de "economia da atenção", privilegiando recorrentemente táticas e tecnologias que fazem as pessoas passarem cada vez mais tempo online.

Quem acompanha de perto o grande cenário das empresas globais têm razões de sobra para a desconfiança.

No Brasil, a grande maioria dos usuários de celular pode usar os aplicativos Facebook e WhatsApp sem consumir seu plano de dados, prática chamada de "Zero Rating". Quando só isso acontece, a "Neutralidade da Rede", princípio assegurado por lei, é comprometida e cria-se uma internet limitada aos serviços de empresas que gozam desse privilégio.

Só essa medida, fruto de muito lobby e de grandes e obscuros acordos comerciais, já é suficiente para deixar todos nós com a pulga atrás da orelha, porque, como diz o ditado, não existe almoço grátis.

Universo paralelo

Mas se existe uma inegável vontade da companhia de se afastar da imagem cada vez mais negativa associada com o Facebook e as Redes Sociais, há outra questão também colocada: para Zuckerberg, as redes sociais, e a internet móvel, popularizada a partir dos smartphones e das conexões 3G e 4G estão com os dias contados.

Ele aposta que o futuro será imersivo e que a "nova internet" se dará no metaverso.

Com a mudança de nome —e de prioridade—, Mark sinaliza claramente que está preparando sua empresa para esse novo mundo.

Não é à toa que em dado momento na apresentação, Zuckerberg disse assim, como quem faz uma observação casual:

Nós não estamos preparando O metaverso. Nós estamos nos preparando PARA o metaverso.

A diferença pode parecer pequena, mas é brutal.

O entendimento dele é que, nos próximos cinco ou dez anos, o metaverso será o centro da nossa comunicação, assim como são hoje as redes móveis e os telefones celulares.

Uma aposta que se reflete também no segundo ponto que nos chamou a atenção na transmissão de quinta-feira.

Em um determinado momento, Zuckerberg chama para a tela o britânico Nick Clegg. Contratado pelo Facebook em outubro de 2018, Nick trazia um currículo muito distante da média dos responsáveis pelas relações governamentais empregados por companhias desse porte. Não é um advogado acostumado ao lobby e aos corredores de Washington, mas o chefe do Partido Liberal Democrata, o terceiro maior partido político da Grã-Bretanha e que foi vice-primeiro-ministro do Reino Unido por meia década.

Em sua curta participação na festinha virtual da última quinta-feira, Clegg destacou um ponto:

"Do modo que vejo as coisas, no passado, a velocidade com que surgiram novas tecnologias obrigou legisladores e reguladores a correr atrás para tentar recuperar o atraso. Se, por um lado, as empresas são acusadas de avançar muito rapidamente, por outro lado, o pessoal da tecnologia sente que o progresso não pode se dar ao luxo de esperar pelo ritmo mais lento da regulamentação. E eu realmente acho que não precisa ser assim neste caso, porque ainda temos anos pela frente, até que o metaverso que imaginamos esteja totalmente realizado. Portanto, este é o início da jornada, não o fim."

No esforço de mostrar que isso é mais do que intenção, Clegg informou que o Fundo de Programas e Pesquisa XR vai gastar 50 milhões de dólares nos próximos dois anos em programas e pesquisa externa com organizações e universidades de várias partes do mundo.

É bem provável que as premissas apresentadas agora por Zuckerberg, no sentido de construir o metaverso desde o primeiro lance em parceria com possíveis críticos e fiscais, tenham o dedo de Nick Clegg.

Os princípios do metaverso

A Meta nasce prometendo respeitar quatro princípios que deverão nortear esses futuros desenvolvimentos de maneira mais responsável:

  • Nunca surpreender as pessoas;

  • Providenciar controles que realmente importam;

  • Levar todo mundo em consideração;

  • Colocar as pessoas em primeiro lugar.

Além disso, os dirigentes da Meta delinearam alguns princípios que consideram importantes para a construção do metaverso.

Presença: Essa seria a principal característica do metaverso: a sensação de que você está presente —isso é o que vai definir a qualidade de um metaverso.

Avatares: Você deve ser capaz de ter múltiplos avatares, para diferentes circunstâncias; avatares fotorealistas para situações formais ou de trabalho, avatares estilizados para encontros casuais e de lazer e avatares customizados, como monstros, heróis e robôs, para serem utilizados em jogos e outras situações.

Casa: No metaverso, você deverá ter a sua casa, o seu espaço customizado e privado, que poderá organizar da sua maneira e para onde você pode convidar pessoas de qualquer parte do mundo.

Teleporte: Deve ser possível se teleportar entre diferentes mundos, cenários e aplicações de maneira transparente, instantânea e descomplicada.

Interoperabilidade: Talvez um dos princípios mais importantes, na opinião dos colunistas, é preciso a interoperabilidade. Ou seja, você precisa poder sair dos mundos e soluções controladas pela Meta para transitar livremente por soluções de outras empresas e indivíduos. Só assim será possível "destravar o potencial do metaverso", segundo Zuckerberg.

Privacidade e Segurança: Para Zuckeberg, "privacidade e segurança precisam estar presentes no metaverso desde o primeiro dia", e o usuário precisa ter controle total sobre como e quais dados seus são utilizados.

Bens virtuais: Você será dono daquilo que cria no metaverso. Suas criações e aquisições devem permanecer com você, mesmo que você saia da plataforma proprietária. Chega de entregar dados e informações para que outros se utilizem delas à vontade..

Interfaces Naturais: No futuro, as interfaces que usaremos para controlar o metaverso serão muito mais naturais do que o mouse, teclado ou celular a que estamos acostumados —gestos da mão, comandos de voz e —por que não?— interfaces neurais que nos permitam simplesmente pensar nos comandos que queremos executar.

Esse conjunto de princípios, ao menos do ponto de vista teórico, apresentam um caminho mais responsável e responsivo para o futuro da empresa e do metaverso. Resta acompanhar para ver o quanto a empresa irá, de fato, segui-los.

Próximo evento da Meta já será no metaverso?

John Carmack, co-fundador da Id Software e criador de um dos jogos de computador mais famosos do mundo, é hoje Diretor Técnico da Oculus e também esteve presente no Facebook Connect. Diretamente do Horizon World, o metaverso da companhia (um espaço digital feito para ser fruído com os Oculus), ele enfrentou uma sessão de Perguntas e Respostas em que tanto seus interlocutores quanto ele eram representados por avatares falantes e cheios de gestos.

Carmack colocou como meta para o próximo ano que o evento seja realizado inteiramente no mundo virtual —as barreiras tecnológicas ainda são várias, a atual versão do sistema (que só funciona por convite) só comporta 16 pessoas por "mundo", mas Carmack jurou que vai trabalhar para que o Meta Connect de 2022 possa reunir milhares de pessoas ao redor do mundo nesse espaço virtual hoje restrito a meia dúzia de gatos pingados e muito selecionados.

Ao final do último Facebook Connect, Mark Zuckerberg conclamou desenvolvedores, empreendedores e acadêmicos a se juntarem ao esforço comum de criar o metaverso. E insistiu: está totalmente empenhado em fazer com que a iniciativa seja acompanhada, verificada e até controlada por organizações não-governamentais, coletivos preocupados com a transparência e privacidade, e universidades.

O criador do Facebook quer colocar um bilhão de pessoas mundo afora no metaverso nos próximos dez anos.

Se isso se concretizar, muitos de nós teremos casas e escritórios no metaverso, onde através de nossos avatares seremos capazes de expressar nossos sentimentos e ideias com o apoio de gestos, movimentos e expressões faciais, poderemos interagir e conviver digitalmente com outras pessoas (ou, mais exatamente, com seus avatares) independentemente de distâncias, fusos horários, nações, idiomas e outras diferenças.

Parece uma ambição e tanto. "Mas que tipo de sonho pode ter quem possui uma fortuna daquelas e apenas 37 anos?", pergunta Paulo, quase aos 70 —e ainda longe do primeiro bilhão. Já Pedro, aos 36, igualmente distante dessa montanha de grana, acredita que, tão importante quanto construir o metaverso do amanhã, Mark Zuckerberg e sua companhia fariam bem em resolver os problemas que já causaram.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL