PUBLICIDADE
Topo

Carlos Affonso de Souza

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Já sonha com carro autônomo? Com 5G, desafio ainda é conectar o Brasil

rawpixel.com/ Freepik
Imagem: rawpixel.com/ Freepik
Conteúdo exclusivo para assinantes
Carlos Affonso

Carlos Affonso é Diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio) e professor da Faculdade de Direito da UERJ.

12/11/2021 04h00

O leilão do 5G pode ter soado estranho para uma parcela grande dos brasileiros que, na maior parte das vezes, percebe que a velocidade de conexão do seu celular não passa daquele símbolo de 3G estampado no alto da tela. A surpresa não é sem razão.

A internet móvel no Brasil não é apenas cara, mas também escancaradamente desigual. O acesso à internet mais veloz continua restrito a setores dos grandes centros urbanos. O abismo entre a cobertura e a qualidade de conexão existente entre as cidades e as zonas rurais permanece. Não vai ser o leilão do 5G que vai mudar isso de uma hora para outra.

É preciso entender o leilão do 5G como a porta de entrada para um novo round de transformações possibilitadas por uma internet mais rápida e de maior qualidade.

Essas mudanças virão aos poucos e ao longo dessa década. Segundo o edital do leilão, as capitais deverão receber alguma cobertura do 5G até julho de 2022. A previsão para municípios com mais de 3.000 mil habitantes é até 2029.

Mas o que muda para valer com o leilão do 5G?

Em uma simplificação bem radical podemos dizer que a internet 2G fez com que você passasse a ler e-mails no seu celular. Isso, lá trás, já era incrível. Imagina não precisar mais ficar na frente do computador para se comunicar com o mundo! A sua caixa de entrada de correio eletrônico —tem quem goste— poderia ser acessada de qualquer lugar e a qualquer momento.

O 3G é o símbolo da revolução seguinte: a ascensão das mídias sociais. Agora já não se tratava apenas de ler e escrever e-mails, mas sim de fotografar o mundo ao redor e postar para amigos e desconhecidos nas diversas redes sociais.

A internet 3G possibilitou a publicação e a visualização de fotos, vídeos e textos que foram compondo um mosaico até então inédito de relacionamentos online. Parecia que todo mundo estava fazendo muita coisa ao mesmo tempo. E o 3G estava lá para fazer você entrar nesse loop.

Gol da Alemanha! O 4G no Brasil começou a dar as caras durante a realização da Copa do Mundo. O aumento de velocidade de conexão e a explosão das plataformas de streaming começaram a demandar cada vez mais dados. Não faltou estouro de franquia e planos nos quais o volume de dados consumidos nos aplicativos X, Y e Z não contavam para o total contratado com a operadora.

O 4G foi também a internet dos anos da pandemia.

As reuniões por videochamada, que permitiram que empresas e governos continuassem suas atividades durante o período de restrição de circulação, só foram possíveis com a disponibilização de uma internet que comportasse transmissão de vídeo síncrona de todos os participantes de uma reunião virtual.

O ensino à distância também manteve as crianças em sala de aula, ainda que no meio das salas de casa.

Se o 2G foi a internet do e-mail, o 3G das redes sociais e o 4G do streaming e do Zoom, o que podemos esperar do 5G?

Se você escutou falar dos planos de Mark Zuckerberg para a construção de um multiverso, com aplicações de realidade virtual e de realidade aumentada que transformam a interação entre pessoas na internet, você já entendeu que isso não vai rodar como esperado em uma conexão que oscila entre o 3G e o 4G.

Da mesma forma, muitas das inovações que se esperam a partir da conexão entre dispositivos, a chamada internet das coisas, depende do 5G.

Ainda é muito cedo para dizer quando veremos carros autônomos nas ruas brasileiras, mas a conexão entre veículos em um grande armazém industrial, operando a logística de forma automatizada em um ambiente controlado, é um alvo muito mais próximo e que também requer a implementação do 5G.

No meio de toda celebração pelo leilão do 5G é preciso cortar um pouco as narrativas que ainda flertam com a ficção científica e entender quais são os desafios que essa nova fase da internet encontrará no Brasil. Precisamos conectar muita gente na rede antes de começar a sonhar com os carros autônomos.

Um segredo do leilão do 5G é que talvez a sua parte mais importante, a curto prazo, sejam as obrigações das empresas vencedoras de levar internet 4G a cidades que ainda não contam com essa cobertura.

Outro ponto que passou debaixo do radar —e que vai demandar muita fiscalização— é a obrigação de conectar as escolas de ensino básico assumida pelas empresas vencedoras do leilão do 5G na faixa de 26GHz.

As empresas vão constituir uma entidade para dar conta dessa importante missão e o processo para estabelecer as diretrizes de operação e para fazer isso acontecer está longe de ser simples.

Ao longo dessa década vamos acompanhar o 5G inundar nossa vida através de anúncios na televisão, no rádio e na própria internet. Diferentes operadoras vão dizer que o 5G delas é melhor do que o das outras. A gente já viu esse filme antes.

Mas por trás de todo marketing é preciso cobrar as metas de universalização de acesso à rede e garantir que essa nova fase da internet não nos torne mais desiguais.

Conexão à internet não é mais o luxo, o privilégio de quem tinha acesso a um celular, como foi na época do 2G. Estar online e aproveitar todo o potencial da rede é condição fundamental para se comunicar, trabalhar, estudar e se divertir nessa quebrada do século 21.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL